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16/07 - 20:09

Lucia Veríssimo: "Pago um preço altíssimo por ser o que sou"

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro


Atriz estreia no Rio a peça “Usufruto”, após sucesso em São Paulo, na qual discute relacionamentos. E em entrevista exclusiva, diz: “Uma relação amorosa sem sexo é doença”

 

 

Pertencente a uma geração que contestou e brigou por mais liberdade, Lucia Veríssimo acredita que os jovens atuais estão caretas. “Eles estão falando mais sobre sexo, mas eles não fazem”, diz. A atriz recebeu a reportagem do iG, comendo uma maçã, no mesmo tablado onde, mais tarde, tiraria a roupa em cena.

 

Em cartaz no teatro Fashion Mall, no Rio, após temporada de sucesso em São Paulo, Lucia e Andre Fusko discutem relações na peça “Usufruto”. No texto, escrito pela atriz, uma mulher divorciada e um jovem prestes a se casar travam um embate para saber quem comprará um apartamento.

 

As provocações ao público vão além. No palco, discute-se a monogamia, traições e nomenclaturas. “Eu sou uma mulher de muitos rótulos”, provoca a atriz, de 52 anos.

 

Gianne Carvalho

Lúcia: "Perco comercial, perco dinheiro, mas não tiram a minha voz" 

 

Veja também: Mais fotos de Lúcia Veríssimo no camarim

 

 

iG: Como o público reage à peça?
LUCIA: Os mais velhos entendem melhor o que minha personagem quer dizer do que os jovens. Essa geração atual, infelizmente, é de caretas. Graças a Deus há exceções porque, se não, eu não conseguiria viver no planeta Terra. Os jovens não são mais esclarecidos com a internet. A velocidade de informação só trouxe mais interesse a quem já tinha vontade de saber das coisas. Os burros continuam burros e usam internet pra contar que acordou, comeu...

 

iG: Por que acredita que os jovens estão mais caretas?
LUCIA: Eles estão falando mais sobre sexo, mas eles não fazem. Os jovens fazem muito menos sexo, desculpa, eu não sei o motivo. A AIDS deve ter um peso, mas tem a ver com a caretice mesmo. É uma geração que veio após a minha, que foi uma geração de loucos. Pais doidos fabricam filhos caretas. Os filhos estão sempre em revolução contra os pais, é normal que seja assim.

 

iG: Ao discutir relacionamento de forma ampla, sua ideia era chocar?
Meus amigos dizem que não adianta me perguntar se quero chocar, já nasci chocando (risos). Sou uma mulher corajosa de tomar partido de determinadas defesas, de falar o que eu penso. Mais do que ter coragem, tenho obrigação disso. Muita gente vê o que eu penso e resolve tomar algumas atitudes de mudança na vida a partir dali. Quem tem possibilidade de falar para muita gente tinha obrigação de não ser hipócrita. Mas 99% das pessoas que dão entrevistas são hipócritas. Elas querem se encaixar no mercado.

 

iG: Você pagou um preço por falar abertamente sobre o que pensa e o que faz da sua vida?
LUCIA: Pago um preço altíssimo por ser o que sou, para fazer as coisas que faço. Mas também não acho que vim aqui a passeio. Tenho certeza de que, ao deitar no meu último suspiro, fiz tudo que acreditei e de forma honesta.

 

iG: Que preço é esse?
LUCIA: Perco comercial, perco gente que coloca dinheiro em teatro, mas não me tiram minha cabeça, minha voz. Isso sou eu. O que eu coloco no meu pé, onde moro, o que dirijo, o que calço... Adoro tudo isso. Mas não vou me vender por isso. Não estou à venda neste aspecto.

 

Gianne Carvalho

A atriz faz pilates, acorda antes das dez e joga golfe. Há três décadas é vegetariana 

 

iG: Se definir como homossexual ou bissexual ainda afasta público?
LUCIA: Afasta até hoje. Sem dúvida. Por mais que eu ache isso tudo uma besteira, porque é tudo nomenclatura de Freud. Eu não uso estes termos.

 

iG: Por que não?
LUCIA: Porque é uma besteira, é pura nomenclatura. Só leva a preconceitos. Você encaixota, rotula... Todas essas coisas nos colocam em quadradinhos. O ser humano é uno em sua existência. Somos seres sexuais. Só a mim cabe o que se passa aqui dentro. O que faço com minha sexualidade não diz respeito a ninguém mais.

 

iG: Você já foi muito rotulada?
LUCIA: Eu sou uma mulher de muitos rótulos. E acho ridículo. Mas nem vou falar mais disso, já me cansei. O que penso disso está na peça “Usufruto”, é o meu pensamento no momento. Comecei a fazer análise aos 14 anos, são 38 anos de análise, portanto. Não é fácil chegar onde cheguei se não for com este mergulho diário. Foi determinando em minha vida.

 

iG: A psicanálise te ajudou a lidar com a sexualidade?
LUCIA: Mas eu não tenho problema com sexualidade. Nunca tive. Você está achando que eu tenho problema com sexo? Eu não tenho. Eu não vejo as coisas dessa forma.

 

iG: A peça fala de outras possibilidades numa relação, como uma terceira pessoa numa relação sexual. Isso não causa um certo...?
LUCIA: Incômodo? Mas aí entra a caretice das pessoas. Todo mundo pensa sacanagem. O problema é a coragem de fazer a sacanagem. A repressão é que leva à loucura. Não estou falando para as pessoas abrirem a porteira e sair fazendo loucuras. Pense no que te faz feliz.

 

Gianne Carvalho

 Em cena da peça "Usufruto", Lucia com o ator André Fusko

 

iG: O texto critica a vida a dois como sendo ‘careta’, não?
LUCIA: Se o que te faz feliz é viver uma vida certinha e um casamento quadradinho, lindo! Mas tem que ser um pacto em conjunto. Agora, você não é a mesma coisa a vida inteira. As regras podem mudar. Ninguém nasce assim e morre assim. Casamento monogâmico é cultural.

 

iG: Você gosta de discutir relação?
LUCIA: Não! Não suporto. Sou das poucas mulheres no mundo que não gosta disso. Mas às vezes se faz necessário.

 

iG: Quando uma relação com homem é mais complicada do que com mulher?
LUCIA: Não vejo relações dessa forma. Relação é relação, sem isso de gênero. Esta pergunta que você me fez é extremamente preconceituosa. Uma relação amorosa é uma relação amorosa, ponto.

 

iG: Por que preconceituosa?  Perguntei se você vê diferença entre se relacionar com homem e com mulher.
LUCIA: Mas tudo são relações amorosas. Você acha que tenho relações iguais com todas as pessoas da minha vida? Todas as relações amorosas são diferentes. Todos meus maridos foram iguais? Todas as pessoas com as quais cruzei, amei, casei, transei, foram iguais? Claro que não.

 

iG: E que peso tem o sexo numa relação?
LUCIA: Uma relação amorosa sem sexo não é relação amorosa, é doença. Relação é um pacote, e tem que ter sexo no meio. Aliás, falo disso na peça. A pessoa não vai ser feliz morando na mesma casa, como um irmãozinho, e fazendo sexo do lado de fora.

 

iG: Quantas vezes você já se casou?
LUCIA: Hum... Já perdi a conta. Você quer mesmo que eu conte agora? Jura?

 

iG: Você já se relacionou mais com homens ou com mulheres?
LUCIA: Não te interessa.

 

iG: Por que não fala sobre isso?
LUCIA: Tudo que eu já falei sobre esse assunto, já falei.

 

iG: Você está com alguém?
LUCIA: Por acaso estou solteira. Estou aberta, mas não estou preocupada com isso.

 

iG: Voltaria a posar nua?
LUCIA: Claro, por que não? Fiz duas capas. Fazer mais duas não tem problema algum. Ganhei uma grana maravilhosa. Fiz numa época que não existia photoshop. Era aquilo ou aquilo. É claro que, se eu fizesse hoje, vou querer photoshop. Essas meninas com 22 anos usam, por que eu não usaria? Não sou otária.

 

Gianne Carvalho

 "Não tenho problema com sexualidade", diz a atriz

 

iG: Você se acha sedutora?
LUCIA: Não me sinto mulherão. Hoje em dia me sinto uma gorduchinha, e isso me incomoda. Quando eu olho o que eu era, falo ‘puxa vida’. Não dá para ter tudo na vida. Eu engordei. Mulher italiana quando engorda aumenta o peito.

 

iG: Já decidiu em quem vai votar?
LUCIA: Já decidi em quem eu não vou votar.

 

iG: Em quem você não vai votar?
LUCIA: Gosto do anarquismo, mas é impossível ter anarquismo sem educação. Tenho uma tendência por um socialismo democrata, apesar de ser uma das fundadoras do Partido Verde, junto a Fernando Gabeira, ainda em 1982, na sua volta do exílio.

 

iG: No texto que você assina no programa da peça, você diz: “Torço para que os dirigentes do meu país abram os olhos e entendam que a cultura deve ser tratada com muita deferência”. Você está desiludida com eles?
LUCIA: É desilusão, sim. É muito difícil fazer teatro. Como alguém pode gostar de teatro se nunca foi lá ver essa magia de perto? As pessoas dão 80 reais para ver um jogo de futebol, mas não dão 20 para ver uma peça.

 

iG: Sua peça custa 40 reais.
LUCIA: Aqui, 85% da bilheteria é de meia-entrada, pagam 20 reais. Sabe quanto eu pago por este tablado aqui? 30 mil por mês. Faça as contas, preciso tirar dinheiro do meu bolso para pagar as contas da peça. Neste país todo mundo goza com o pau dos outros. O sujeito faz aula de tricô na ‘caixa prego’ e dão uma carteirinha de estudante para ele. Mas o governo não reduz meus impostos pela metade.

 

iG: Você é contra a política da meia-entrada?
LUCIA: Meu amor, eu queria que teatro fosse de graça! Teatro é importantíssimo para a sociedade. Mas tenho que pagar minhas contas. Isso aqui deveria ser obrigatório. É fácil falar que um governo é maravilhoso porque dá 50% de desconto, mas não vê o nosso lado, não sabe nem o que é isso aqui. Como você acha que a gente está se sentindo? Todos os atores tiram dinheiro do bolso... (ela se emociona). É óbvio...! Eu vivo disso. Se um ator acha que ele tem que viver da TV, ele não é ator, é “celebrity”. Ator é formado aqui, ó (bate no tablado).

 


SERVIÇO:
Peça: “Usufruto”
Teatro Fashion Mal, em São Conrado
Tel. 21 3222-2495
Horário: Quinta a sábado, às 21h; domingo, às 19h
Ingresso: R$ 40

 

 




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