Intérprete da enfermeira Joana, de "Amor à Vida", atriz conta como lida com o distúrbio do filho Davi e diz que ter cuidado de sua mãe, Dina Sfat, morta em 1989, ajudou na construção de sua personagem


Bel Kutner já deu vida a mais de 24 personagens em telenovelas e seriados brasileiros. E o reconhecimento veio, principalmente, de sua habilidade em interpretar papeis cômicos. Mas essa trajetória na TV mudou desde “Gabriela”, da Globo, quando Bel, que está no ar como a enfermeira Joana de “Amor à Vida”, começou a dar vida a personagens mais dramáticos.

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"Há dez anos eu não me imaginava tão 'Joana' assim. Mas além da maternidade me transformar muito, sempre tive uma necessidade de ordem, porque eu tenho uma cabeça muito caótica, muito germiniana, de que eu posso tudo, que eu quero tudo. Hoje sou menos ‘oba oba’, mais prática.”

Bel é mãe de Davi, sete anos, diagnosticado com síndrome de esclerose tuberosa e autismo. Bel é filha da atriz Dina Sfat , que morreu em 1989 aos 50 anos, de câncer, quando ela tinha 18. Bel é também filha do ator e diretor  Paulo José , que hoje enfrenta o mal de Parkinson. Bel é quem cuidou da mãe e é Bel também quem provém cuidados e carinhos ao filho e ao pai.

O histórico médico e as experiências com a família, claro, acabaram transbordando para a enfermeira Joana. “A gente sempre tenta fazer as duas mãos com a personagem. Eu aprendo muito e empresto meu conhecimento pelo assunto. Sou bem disponível para cuidar de outra pessoa, organizar remédios, até trocar as roupas se for o caso. Tem gente e que não pode ver sangue, problema que eu nunca tive.”

Bel Kutner na pele da enfermeira Joana em
Divulgação/TV Globo
Bel Kutner na pele da enfermeira Joana em "Amor à Vida"

iG: Você sempre fez personagens mais cômicos. É muito diferente enfrentar uma personagem densa como a Joana? Isso muda alguma coisa em você?
Bel Kutner: Claro! Já foi assim quando eu vivi a Marialva, de "Gabriela", que era muito infeliz, deprimida, bem diferente de tudo que já fiz. A Joana é uma mulher muito séria, quieta e interessante, bem diferente do meu temperamento. Então estou podendo exercitar essa contenção, que é característica dela. Eu sou bagaceira, não adianta, não sei ser contida. Quanto a interferir na minha personalidade, pelo contrário, saio de lá querendo extravasar tudo o que eu tenho direito.

iG: Na novela você vive uma enfermeira. Fora dela cuida de seu pai (que tem Parkinson há 15 anos) e cuidou de sua mãe com câncer até a morte. Todo esse histórico te ajudou na construção da Joana?
Bel Kutner: Com certeza. A gente sempre tenta fazer as duas mãos com a personagem. Aprendo muito e empresto meu conhecimento pelo assunto. A questão de medicina, saúde, de cuidar de alguém sempre me despertou muito interesse. Sou uma pessoa bem disponível para cuidar de outra pessoa, organizar remédios, até trocar as roupas se for o caso. Tem gente que não pode ver sangue, problema que eu nunca tive.

iG: Você também tem que dar uma atenção a seu filho Davi (diagnosticado com síndrome de esclerose tuberosa e autismo). Como ele está?
Bel Kutner:  Pois é, ninguém aqui tem uma vida regradinha. Minha vida é muito organizada em função do trabalho e do meu filho. E eu ainda tenho um namorado maravilhoso, mas que é super atarefado e dedicado à vida profissional dele, então a gente vai dando o nosso jeito sempre. O Davi está ótimo, fofo, enorme e cheio de atividades. Já está com sete anos, falando pelos cotovelos, vivendo no tempo dele. 

iG: Quais são as dificuldades de criar um filho autista?
Bel Kutner: Acho que quem tem uma pessoa autista na família tem que pedir ajuda, tem que estar com outras pessoas, porque não têm dois autistas iguais, mas têm vários pontos em comum entre eles. A família precisa muito de tratamento. As pessoas que convivem com essa doença precisam de apoio, orientação, um direcionamento e tratamento, porque têm coisas especificas que você passa. Com uma criança autista, você pode criar um mal habito que pode virar um condicionamento errado, e daí para mudar esse padrão é muito pior. O autista precisa de uma atenção dez vezes maior. É muito delicado, porque na melhor das intenções, você pode estar diminuindo a autonomia daquele indivíduo.

iG: E como é o dia-a-dia do Davi?
Bel Kutner: Estou com ele todos os dias, todas as horas e momentos que não estou trabalhando. Ele frequenta um curso que tem várias atividades especificas com crianças portadoras de autismo, além de ter contato com psiquiatras, psicólogos, fonoaudiólogo. Neste centro que eu vou, também tem a terapia para os pais. É um acompanhamento bom que eu faço.

Bel Kutner e Davi passeando pelo Rio de Janeiro
AgNews
Bel Kutner e Davi passeando pelo Rio de Janeiro

iG: O autismo é abordado na novela através da persoanem da Bruna Linzmeymer. Acha que ela e o núcleo estão conseguindo passar o que acontece com as famílias que convivem com a doença?
Bel Kutner:  A Bruna está perfeita e a família também. É daquele jeito mesmo: muitas crianças ficam isoladas, o que não pode. A novela vai mostrar uma coisa muito bacana, que o autista na verdade está atento a tudo, percebendo muito mais do que as pessoas imaginam, ouvindo tudo, mas não consegue muitas vezes se expressar. O que é comum são as pessoas falarem coisas na frente de crianças e até de adultos autistas, que não poderiam, alegando que eles não entendem, que não escutam, que só vão ficar prestando atenção na mão delas, nos desenhos. Isso não é verdade.

iG: Acha que a novela pode ajudar a desmistificar um pouco o assunto?
Bel Kutner:  Sim, é maravilhoso e emocionante ver o assunto sendo explicado em uma novela. Acho que vai ajudar a criar uma consciência nas pessoas, mesmo quem não tem nada a ver com o assunto, de que isso existe e precisa, no mínimo, ser respeitado. Algumas situações ficam muito desagradáveis por pura ignorância das pessoas. Muitas vêm abordar de uma maneira errada, com preconceito. 

iG: Pode dar um exemplo?
Bel Kutner: Ah, às vezes você está em um lugar e a criança começa a ter um ataque e você não tem o que fazer, você não deve privar, mas aí tem que escutar: ‘Essa mãe aí, toda nervosa, toda estúpida, estressada...’, ou ainda, ‘Nossa, olha essa mãe passiva, que está deixando o filho se jogar no chão’. Dependendo do que a criança tem, se os pais tentarem segurar, é pior, se tentar gritar, é pior. E o que você aconselha a uma pessoa dessa? Deixar o filho trancado em casa? É muito pior. É importante para eles terem contato com o mundo. 

iG: Acha que isso é pior no Brasil?
Bel Kutner:  Em países como a Inglaterra, você sai com uma melancia na cabeça que ninguém olha na sua cara. Agora, no Brasil, onde todo mundo é muito íntimo, tem um lado mais quente, que é muito bom, mas também muito ruim, as pessoas te abordam de uma maneira muito invasiva. Acho que se você vê que alguém tem alguma coisa diferente, você não precisa ficar se expressando, está claro a diferença, até porque a primeira impressão das pessoas é muitas vezes infantil. Já apontaram na cara do meu filho pra perguntar: ‘o que ele tem?’. É desagradável. 

iG: “Amor à Vida” também aborda outro assunto polêmico, pelo menos para novelas brasileiras até então: os gays. O que você acha da “Cura Gay” proposta pelo pastor e deputado Marcos Feliciano?
Bel Kutner: Pelo amor de Deus! Isso só pode ser uma piada para nos distrair. No começo, fiquei com raiva, revoltada. Meu desejo é processar esse Feliciano por ofensa moral à minha pessoa. Esse cara só pode estar querendo ganhar um dinheiro, não dá para levar isso a sério. Acho um retrocesso a gente pagar para essas pessoas se reunirem para discutirem esse tipo de coisa. Ninguém pode curar uma coisa que não é uma doença, uma patologia e muito menos da conta de ninguém. Isso não é assunto de saúde. Se por um lado, no Brasil, onde eu posso sair pelada com um fiapo enfiado na bunda no meio do carnaval, que todo mundo vai achar normal, por outro, as pessoas querem se meter na sexualidade e na vida sexual das pessoas, sendo que não é da conta de ninguém. Se eu for entrar em detalhes da minha vida sexual, ela vai ser totalmente diferente da vida de outra pessoa. Pra mim sexo é coisa para se fazer, não se debater. Fui criada com muita liberdade, eu aprecio, e muito, o sexo, mas não o debate. As pessoas podem querer gostar de uma coisa hoje e amanhã mudar de ideia, sexo é gosto, desejo. Daqui a pouco esse pastor vai querer pregar que tem que existir o clube dos assexuados.

Bel Kutner e a mãe Dina Sfat
Divulgação
Bel Kutner e a mãe Dina Sfat

iG: Você disse que foi criada com muita liberdade. Fez muitas loucuras na vida? Bel Kutner: Olha, do meu ponto de vista não, mas da maioria, sim. Tudo que sempre tive vontade de fazer, eu fiz. Tem gente que já me achou mega louca. O que eu posso te garantir é que eu não rasgo dinheiro e tento evitar um pouco as coisas ilegais, então está tudo certo.

iG: Qual a maior loucura que fez? Se arrepende de alguma?
Bel Kutner: Isso não vou te contar nem morta! Eu já fiz muita coisa que eu me arrependo, muita besteira. O pior crime é aquele que você é descoberto. Eu tento esquecer as besteiras que eu já fiz. Não é nada grave e eu aprendi muito com elas. Eu aprontei muito, mas quando a gente é jovem, em uma fase mais promíscua, tudo bem. Eu não fiz nada que comprometesse a minha segurança e a minha saúde.

iG: Você tem medo da morte?
Bel Kutner: Acho que ninguém está afim (de morrer). Procuro não pensar nisso, mas tento me conformar com essa ideia existente. O pior é o sofrimento, o que não quero. Não sou paranoica, nem tenho mania de doença. Com tudo que vivi, eu não penso no pior.

iG: E depois de tudo o que você viveu, sabe dizer que mulher é hoje?
Bel Kutner: É difícil eu te dizer como eu era antes do nascimento do Davi, por exemplo, mas mudei muito, totalmente. Ninguém que passa por certas situações, consegue não mudar. Hoje sou uma pessoa mais aberta em todos os sentidos. Minha cabeça mudou muito e meu emocional endureceu, a ponto de eu ser menos chorona e emotiva. Hoje eu me comovo de outra maneira.

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