Sexteto feminino que marcou a década de 1970 é o tema do "Por Toda Minha Vida" desta sexta-feira (01)

As Frenéticas em 2011: Lidoka, Dhu Moraes, Regina Chaves, Leiloca, Sandra Pêra e Edir de Castro
Alex Carvalho/TV Globo
As Frenéticas em 2011: Lidoka, Dhu Moraes, Regina Chaves, Leiloca, Sandra Pêra e Edir de Castro


















A TV Globo exibe nesta sexta-feira (1º) mais uma edição de seu programa "Por Toda Minha Vida", que mistura reportagens e trechos de arquivo com dramaturgia e depoimentos de personagens reais, para homenagear um grande nome da MPB. Desta vez, a homenagem vai não apenas para um, mas para seis nomes: Dhu Moraes, Edir de Castro, Leiloca, Lidoka, Regina Chaves e Sandra Pêra - As Frenéticas .

O Surgimento do Grupo

Houve um tempo em que a música popular brasileira refletia o Brasil. E o Brasil do final da década de 1970 era um país exausto, cansado da caretice, da repressão e da ditadura militar, que governou a nação entre 1964 e 1985.

Nesse cenário sufocante, começou a nascer uma janela de respiro, inspirada no movimento da disco music, que já explodia nos EUA por volta de 1976 – e que conquistaria o mundo em 1977, com o estouro do filme “Os Embalos de Sábado à Noite” ("Saturday Night Fever"), que consagrou John Travolta .

As Frenéticas: de garçonetes-cantoras da discoteca, a estrelas nacionais da MPB
Acervo Sandra Pêra
As Frenéticas: de garçonetes-cantoras da discoteca, a estrelas nacionais da MPB


No Rio de Janeiro, o produtor musical Nelson Motta , antenado com tal movimento, abriu em agosto de 1976 a discoteca Frenetic Dancing Days, instalada no Shopping da Gávea – o projeto era um golpe de marketing do Shopping, que precisava de publicidade. Por essa razão, a discoteca nasceu com uma missão passageira: funcionaria por apenas três meses e depois fecharia suas portas.

E assim aconteceu, não sem antes causar uma coqueluche na capital carioca. A discoteca foi um sucesso absoluto, em grande parte alavancado por um estranho grupo formado por seis mulheres – que em pouco tempo seriam conhecidas como As Frenéticas .

O sexteto formava o time de garçonetes da discoteca. Ao produzir a casa, Nelson Motta convocou a então cunhada Sandra Pêra – irmã de Marília Pêra , na época casada com Nelson – para selecionar as moças. Sandra convidou Edir de Castro, Dhu Moraes e o trio Leiloca, Lidoka e Regina Chaves – as três vinham do grupo Dzi Croquettas , uma espécie de versão feminina da trupe masculina andrógina Dzi Croquettes , recentemente retratada no documentário “Dzi Croquettes”.

As Frenéticas se apresentam no Maracanã lotado no fim da década de 70
Acervo Sandra Pêra
As Frenéticas se apresentam no Maracanã lotado no fim da década de 70



O Sucesso Nacional

O prestígio das seis na discoteca foi devastador. Logo, o sexteto não estava apenas servindo bandejas, mas também apresentando números musicais ao longo da noite, fazendo covers de Rita Lee, Rolling Stones e outros – ensaiadas por Roberto de Carvalho , que começava a namorar Rita Lee.

Em novembro de 76, a discoteca fechou, como previsto. Mas a carreira das Frenéticas apenas começava. Contratadas pela WEA/Warner Music – foram as primeiras artistas da gravadora no Brasil –, lançaram o primeiro disco em 1977, estourando nas rádios o hit “Perigosa”, que virou febre nacional – e que é tema de abertura da minissérie “Lara com Z”, que a Globo estreia no próximo dia 7, em regravação de Elza Soares .

Mas isso ainda era pouco perto do que aconteceria em 1978. Nelson Motta reabriu a discoteca Frenetic Dancing Days, desta vez em pleno Morro da Urca, e As Frenéticas, agora estrelas nacionais, cantaram na inauguração – e adeus, bandejas.

Júlia Matos (Sônia Braga) dança com o Dzi Croquette Paolette na famosa cena de
Reprodução
Júlia Matos (Sônia Braga) dança com o Dzi Croquette Paolette na famosa cena de "Dancin' Days"
Em meio a tanta febre, a Rede Globo jogou mais lenha na fogueira, lançando em 10 de julho a novela “Dancin’ Days”, em cuja abertura As Frenéticas cantavam a música homônima, composta por Nelson Motta e Ruban Barra , e que é até hoje o maior hit do grupo – a faixa é talvez uma das músicas brasileiras mais executadas em festas, casamentos, bailes, boates e afins.

A novela foi mais uma mania nacional, e contou até com participação especial das próprias Frenéticas, que apareceram cantando na inauguração da fictícia discoteca Dancin’ Days, que o personagem Hélio ( Reginaldo Farias ), talvez inspirado em Nelson Motta, lançava, em um momento de clímax da novela – com a volta ao Brasil da protagonista Júlia Matos ( Sônia Braga ), a ex-presidiária que rouba a cena com um show na pista de dança.

O envolvimento das Frenéticas com as novelas ainda teria mais a render. A música “Dancin’ Days” estava no segundo LP do grupo, lançado ainda em 78, e que tinha também a faixa “O Preto que Satisfaz”, que em 1979 seria tema de abertura de mais uma novela global, ”Feijão Maravilha”. Em 1980, o grupo surgiu em mais uma aparição, desta vez na novela “Água Viva”, cantando “Baby Face”. E em 1992, o sexteto voltaria às aberturas, cantando o tema de “Perigosas Peruas”.

As Frenéticas cantam ao lado do músico Gonzaguinha (1945-1991)
Acervo Sandra Pêra
As Frenéticas cantam ao lado do músico Gonzaguinha (1945-1991)

No total, elas lançaram quatro discos pela WEA – em 1977, 78, 79 e 80 – e um pela Top Tape, em 1983. Depois de uma fase meteórica, repleta de shows lotados de ponta a ponta do país, o grupo começou a migrar para a dispersão. O disco de 1983 já trazia a banda como quarteto, sem a participação de Sandra Pêra e Regina Chaves – Sandra teve uma filha, Amora Pêra , hoje atriz e cantora, com o músico Gonzaguinha , e Regina se casou com Chico Anysio , com quem teve o filho Cícero Chaves , hoje DJ.

Na sequência, As Frenéticas saíram de cena – retornariam em 1992, com as seis integrantes originais, e depois já na década de 2000, com formação modificada, gravando o disco “Para Salvar a Terra”, em 2001.

O sexteto se reuniu para gravar parte do programa
Alex Carvalho/TV Globo
O sexteto se reuniu para gravar parte do programa "Por Toda Minha Vida"







Trajetória Imortalizada na TV

Toda essa história será contada no “Por Toda Minha Vida”, que a Rede Globo exibe nesta sexta-feira (01), às 23h. A produção, que mescla cenas de arquivo com depoimentos e dramaturgia, conseguiu reunir as seis Frenéticas originais. Elas deram seus depoimentos em separado, e se reuniram para uma única sequência, gravada em uma praia carioca.

“Foi mais engraçado do que emocionante, porque quando a gente se reúne, a emoção vira farra”, comenta Sandra Pêra. “Rimos muito”, diz ela, lembrando que as seis tiveram de correr pela praia várias vezes, a pedido do diretor, Thiago Teitelroit , dublando “Dancin’ Days” – cena semelhante à do filme “A Partilha” (2000, dirigido por Daniel Filho e baseado na peça de Miguel Falabella ), com as atrizes Glória Pires , Andréa Beltrão, Lília Cabral e Paloma Duarte dançando a faixa clássica.

Nina Morena interpreta a tia, Sandra Pêra, e Corina Sabbas encarna Dhu Moraes, no
TV Globo/Márcio de Souza
Nina Morena interpreta a tia, Sandra Pêra, e Corina Sabbas encarna Dhu Moraes, no "Por Toda Minha Vida" sobre As Frenéticas


No programa da Globo, as Frenéticas originais – Leiloca, Lidoka, Sandra, Dhu, Edir e Regina – são vividas pelas atrizes Lisieux Maia, Gabrielle Lopez, Nina Morena , Corina Sabbas, Denise Spíndola e Flávia Rubim , respectivamente. Nina Morena, filha de Nelson Motta e Marília Pêra, encarna a tia, Sandra Pêra. E a atriz Gabrielle Lopez, interpretando Lidoka, cativou a original.

“Prestem atenção em Gabrielle Lopez!”, diz Lidoka. “Ela é excelente, veio me visitar, e conseguiu pegar ‘o olhar da Lidoka’. Todas as atrizes foram muito bem escolhidas”.

“É um programa muito bonito, feito sem pressa”, comenta Lidoka, lembrando que as gravações aconteceram ainda em 2010. Lidoka, que escreveu um livro sobre as Dzi Croquettas – em busca de editora –, lembra a importância social das Frenéticas.

O sexteto feminino ao lado de Erasmo Carlos, na virada dos anos 70 para os 80
Acervo Sandra Pêra
O sexteto feminino ao lado de Erasmo Carlos, na virada dos anos 70 para os 80

“Além do nosso som, que sobreviveu, o que mais marcou foi a nossa atitude. Diziam que éramos alienadas, mas a gente estava fazendo política sim, com os figurinos ousados, usando espartilhos, falando da liberdade de ser, dizendo ‘seja como você é!’, e sem ficar só nos peitos e bundas, que é o que vende hoje”, afirma Lidoka.

E essa atitude do sexteto encantou o Brasil da época. “A gente chorava no palco, vendo o Maracanã inteiro cantando junto com a gente”, diz Sandra Pêra, recordando a fase vertiginosa dos grandes shows. Sandra contou essa e outras histórias no livro “As Tais Frenéticas – Eu Tenho uma Louca Dentro de Mim”, que ela lançou em 2008.

Edir, Sandra, Regina, Leiloca, Dhu e Lidoka no auge do grupo
Reprodução
Edir, Sandra, Regina, Leiloca, Dhu e Lidoka no auge do grupo
“Hoje cada uma tá pro seu lado, mas a gente sempre se fala, por telefone, por email”, conta Lidoka. “Outro dia foi aniversário da mãe da Sandra, e todas nós fomos. E a gente sempre se diverte quando se encontra”.

E a próxima reunião das Frenéticas deve acontecer exatamente nesta sexta. As seis vão assistir juntas ao “Por Toda Minha Vida”, em um espaço no Jardim Botânico, Rio, com direito a telão e convidados. Quem estiver por lá, pode encontrá-las e talvez ouvir das seis vozes inconfundíveis: “Prazer em conhecer, somos as tais Frenéticas... e um anjo doido fez a gente se encontrar no Dancin’ Days...”

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