Atriz, que estrela o musical "Família Addams" no Rio, fala sobre fama, carreira, sexualidade e posa para o iG para mostrar sua transformação em Morticia

Intensa, bem-humorada, trágica, filósofa. É assim que Marisa Orth se vê. A atriz acredita que não lembra em nada sua personagem mais famosa, a Magda, patricinha burra e gostosa do programa da TV Globo "Sai de Baixo", que ficou no ar de 1996 a 2002. Mas será que não lembra mesmo? Todos sabem realmente que de burra Marisa não tem nada, muito pelo contrário: a paulistana é uma das mais talentosas atrizes de sua geração.

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Mas não há como negar que suas pernas muito bem torneadas deixadas à mostra pelas minissaias ousadas da personagem também fizeram muito sucesso na vida real - e ainda fazem, mesmo a poucos meses de completarem 50 anos. "Não sofro com a idade. Fico feliz que não morri e tento ficar gostosa, né? Com um índice DPC (dá para comer) bom", brinca.

Marisa agora encara mais um desafio na sua carreira: ser a Morticia Addams do musical "A Família Addams". Esta é a primeira vez que a atriz faz um espetáculo do tipo. "Descobri que essa estética do musical é a que dá mais trabalho. Tudo deve parecer fluido, natural. Nunca mais critico musical levianamente", afirma a paulistana, que precisa de duas horas para caracterização e um pote de pó compacto branco por semana - a reportagem do iG Gente acompanhou a transformação de Marisa Orth em Morticia Addams.

Na entrevista que segue, Marisa fala sobre o espetáculo, comenta o episódio em que a atriz Zezé Polessa foi acusada de provovar a morte de um motorista após uma discussão ("A fama é um espécie de bullying"), e brinca até com sua sexualidade. "Não sou ninfomaníaca, sou bem ajustada dentro da frequência normal que a mulher brasileira faz sexo ", diverte-se.

iG: Este é o seu primeiro musical. Como está sendo a experiência?
Marisa Orth: Fantástica. Já tinha recebido alguns convites, mas nada tinha me motivado o suficiente. Tinha um pouco de resistência em relação ao gênero. Por que vou fazer um trabalho aqui que lá no Estados Unidos faz muito mais sucesso? Eu já faço música e teatro... Mas aí, apareceu a Morticia e foi irrecusável. É comédia, um arquétipo, uma honra. Quando comecei a carreira, achava que ia escolher os personagens como alguém que colhe framboesas no campo. E não é assim. Os papeis escolhem você. Caem que nem meteoro. E esse foi assim.

Fama é uma espécie de bullying. Em vez das pessoas correrem para te bater, elas correm para te beijar. O que é muito parecido (risos). Você está em destaque, está separado dos outros"

iG: Como foi a preparação?
Marisa Orth: Tivemos dois meses de ensaios pesados. Eram 10h por dia, de segunda a sábado, com um almoço de 30 minutos. Mas, para um espetáculo como esse, dois meses é pouco. Também botei no meu contrato consultas semanais com a fonoaudióloga e aulas semanais de canto para dar conta da resistência vocal ao longo de tantas sessões. Descobri que essa estética do musical, que parece ser muito fácil para quem está assistindo, é o que dá mais trabalho. Tudo deve parecer fluido, natural. Nunca mais critico musical levianamente, como fazia. Nunca mais!

Marisa Orth vive Morticia Addams em musical
Bia Alves/ Foto Arena
Marisa Orth vive Morticia Addams em musical

iG: A comédia é um traço marcante na sua carreira e muitos atores acreditam que, para serem levados a sério, precisam fazer papeis dramáticos. Como encara essas críticas?
Marisa Orth: Alguns atores devem sentir essa necessidade de se provar, mas eu não. Até porque eu faço. Fiz a Simone Beauvoir no teatro no ano passado, por exemplo. Na verdade, eu não me achava engraçada e nem sabia que ia viver disso. Para mim, foi natural. Mas a comédia sofre preconceito, sim. É considerada menos nobre, digamos assim. Apesar disso, acho que a linhagem de artistas brasileiros que é mais respeitada é a da comédia. Temos grandes talentos e é muito chique pertencer a essa categoria. Só fico um pouco chateada quando me chamam de humorista. É diferente. Não escrevo meu texto, nem crio personagens. Sou uma atriz que faz humor com muita felicidade porque na vida real sou trágica.

Quando comecei, achava que ia escolher os personagens como alguém que colhe framboesas no campo. E não é assim. Os papeis escolhem você. Caem que nem meteoro"

iG: Como assim?
Marisa Orth: Sou Bastante trágica, bem pessimista mesmo! Não tenho nenhuma fé na humanidade. Minhas amigas me chamam de "Maria do Bairro". Tudo é um drama, uma complicação. Acho que elas e meu filho já estão de saco cheio. Sou pentelha (risos). E é engraçado porque as pessoas acham que eu sou divertida, pedem para eu contar piada. Eu brinco: posso contar, mas você vai aguentar? Eles desistem rápido.

iG: Essa cobrança de sempre estar de bom humor e ser engraçada te incomoda?
Marisa Orth: De jeito nenhum. O que enche o saco são as pessoas mal educadas. Isso é um porre. Mas a gente ouve coisas tão bonitas na rua e aprende muito também. Eu gosto de ser famosa e quando era criança já achava que ia ser. Quando eu sofria bullying no colégio, eu já pensava que meu nome era bom e que um dia eles iam lembrar. Eram brincadeiras normais, de criança. Mas, hoje, vejo que a fama é uma espécie de bullying.

Tenho mais liberdade de falar de sexo do que a maioria das pessoas, o que pode ser confundido com sexy. Não sou ninfomaníaca, sou bem ajustada dentro da frequência normal que a mulher brasileira faz sexo”

iG: Por quê?
Marisa Orth: Em vez das pessoas correrem para te bater, elas correm para te beijar. O que é muito parecido (risos). Você está em destaque, está separado dos outros. É "especial". A pessoa que sofre bullying na escola é a mais famosa, todo mundo conhece também. E na vida é assim. Você acha que a Zezé Polessa agora não esta famosíssima? Isso não é bullying? Você acha realmente que ela matou um cara no grito? Realmente? Isso é uma loucura! Gente, eu conheço a Zezé. Não consigo entender isso. O que estou tentando dizer é que o famoso sofre uma espécie de perseguição automática. A luz e a sombra estão muito próximos.

iG: Como faz para lidar com isso?
Marisa Orth: Artista tem que ter terapeuta. É fundamental. O ator já tem uma sensibilidade esquisita e tudo que você faz aparece no jornal. A fama é um fermento para uma psicose. Você sai na rua e tem uma pessoa gritando "Eu te amo". Se você acredita, está ferrada. Este é um campo muito fértil para se desenvolver uma loucura e é por isso que tem muito ator maluco por aí. Abaixa a resistência para frustração, sabe? Se você faz muito sucesso e está acostumado sempre com isso é capaz de parar de escovar o dente porque não tem ninguém vendo.

Marisa Orth se transforma em Morticia Addams
Bia Alves/ Foto Arena
Marisa Orth se transforma em Morticia Addams

iG: Mas você disse que gosta de ser famosa...
Marisa Orth: Eu gosto da fama, me sinto bem à vontade e sei lidar com ela. O bom é que não sou tímida e não tenho tendência para esconder a minha vida, eu falo logo. Mas isso não quer dizer que ache legal capitalizar a vida pessoal. Até que é uma estratégia esperta, mas não vou beijar ninguém na festa de estreia da novela, nem vou tomar um porre em um evento jurídico. Tem tanto lugar para ser feliz! Mas fico com pena das meninas novas que estão pintando por aí. Nossa, mudou tanto a profissão da atriz. Cresceu essa indústria de revistas de celebridades e tal. É algo assustador.

Se eu pudesse entrar com um requerimento para me abater 10 anos, eu faria. Mas não tenho essa possibilidade, então não sofro com isso. É inútil”

iG: Está mais fácil ser atriz?
Marisa Orth: Pelo contrário, acho que hoje está mais difícil. Hoje todo mundo quer ser ator, há uma enorme concorrência. Além disso, antigamente, não tinha o apelo de se ter uma beleza assimétrica. Hoje, o mercado exige que a atriz tenha de ser linda e talentosa. Mas ser bom ator continua ser difícil pra caramba porque não dá para enganar o público. Às vezes rola de um cara estourar pelo carisma. Mas isso não dura por muito tempo. O público sabe.

iG: Esse ano você completa 50 anos. Teve algum tipo de crise?
Marisa Orth : Tô bem, né? (risos). Não tenho crises porque é melhor ter 50 do que morrer cedo. Eu sou libra com libra. Costumo sofrer com coisas que tenho que decidir. Não vou achar ruim o dia que nasci. Se eu pudesse entrar com um requerimento para me abater 10 anos, eu faria. Mas não tenho essa possibilidade, então não sofro com isso. É inútil. Fico feliz que não morri e tento ficar gostosa, né? Com um DPC bom...

Fico um pouco chateada quando me chamam de humorista. É diferente. Não escrevo meu texto, nem crio personagens. Sou uma atriz que faz humor com muita felicidade porque na vida real sou trágica"

iG: O que é DPC?
Marisa Orth: Ah! Este é um índice muito importante: o dá para comer. Porque tem gente que tem 20 e está com DPC péssimo. E eu com 50, estou muito bem (risos).

iG: Sua carreira foi pontuada por papeis sensuais como a Magda de "Sai de Baixo" e a Nicinha de "Rainha da Sucata". Como lida com a sua sensualidade?
Marisa Orth: Bem (risos). Acho que sou sexy e o ser humano é sexy. Sexy é estar viva e viver a vida. Juro. Acho que é um atributo existencial. Tenho mais liberdade de falar de sexo do que a maioria das pessoas, o que pode ser confundido com sexy. Percebo isso desde criança. Mas lido bem. Não sou ninfomaníaca, sou bem ajustada dentro da frequência normal que a mulher brasileira faz sexo (risos). A "Playboy", por exemplo, não fiz pelo dinheiro.Nunca fui uma pessoa esplêndida de beleza. Foi algo que fiz para mim. Por vaidade. 

iG: Você está escalada para a novela "Sangue Bom", próxima das 19h da TV Globo. Como vai ser voltar às novelas após sete anos?
Marisa Orth: Ih, nem sei se lembro (risos). Mas, falando sério, minha ultima novela foi "Bang-Bang" em 2006, mas fiz muitos seriados nesse tempo. "Toma lá da cá", "Os Aspones", "SOS Emergência", "Macho Man"... Não estou afastada da TV. Já estou com texto, fiz prova de figurino e devemos começar a trabalhar depois do carnaval.

A 'Playboy' não fiz pelo dinheiro. Nunca fui uma pessoa esplêndida de beleza. Foi algo que fiz para mim, por vaidade"

iG: Como é a sua personagem?
Marisa Orth : Damaris é uma louca. Estou com medo! Ela é psicótica. Já estou no capítulo 30 e a mulher já até fundou uma religião. É uma mulher desesperada, moralista, cafona, rica da zona Norte paulistana, grossa. Vai ficar mais louca ainda porque ela vai perder o marido, interpretado pelo Marcos Ricca. Ele foi o único homem da vida dela e ele não aguenta mais ela. Para você ver, a primeira cena é numa audição do divórcio, aonde ela começa a tomar remédios para se matar. Outra cena ela imita uma funkeira porque acha que o marido está tendo um caso com uma. Ela é moralista, mas faz isso como um sacrifício pelo casamento. Ela vai brincar com isso: com o moralismo ao passo da perversão. Uma doente mental.

iG: E a volta do "Sai de Baixo"?
Marisa Orth: Vamos fazer um especial para o Canal Viva com quatro episódios comemorativos, mas isso quando o Miguel (Falabella) deixar, né? Quando ele tiver alguma hora na agenda dele (risos). Acho que vai ser com todo o elenco original, menos o Tom (Cavalcanti) que está em outra emissora. Mas foi bom ter atrasado porque permitiu que a Cláudia (Jimenez) se recuperasse melhor da cirurgia para participar do projeto.

Serviço:
A Família Addams
Temporada até 07 de abril
Vivo Rio - Vivo Rio - Av. Infante Dom Henrique, 85 – Parque do Flamengo, Rio de Janeiro
Tel: (21) 2272-2901
Quinta e sexta-feira, às 21h; Sábado, às 16h30 e 21h; e Domingo, às 16h e 20h30
Preços: de R$ 50 a R$ 230

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