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Com gravações no Sul do Brasil, programa resgata tradições de imigrantes ucranianos para contar uma história sobrenatural

Na sexta-feira, 6 de julho, uma massa polar derrubou as temperaturas no Sul do Brasil, fazendo daquela a noite mais fria do ano. Por volta de meia-noite, a temperatura chegou aos números negativos e uma tímida neve começava a cair quando um grupo de mulheres com trajes brancos dançava em uma espécie de transe diante de uma fogueira em uma floresta, na pequena cidade de São Francisco de Paula, na Serra Gaúcha. Não estavam sozinhas — era uma gravação de “Desalma”, série que a TV Globo produz para o Globoplay.

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Reprodução/Globo
Cássia Kis em cena de "Desalma", série sobrenatural que estreia em 2020 no Globoplay

Prevista para estrear na plataforma de streaming em 2020, a produção é uma incursão atípica da Globo em uma trama sobrenatural. A história da série do Globoplay começa com o desaparecimento da jovem Halyna (Anna Melo) em 1988, na fictícia Brígida, cidade fundada por imigrantes ucranianos (o Brasil abriga a maior colônia do país na América Latina, com 80% de seus descendentes no Paraná).

Na ocasião do desaparecimento, a cidadezinha celebrava o Ivana Kupala, festa com origens pagãs e ligada a ritos de fertilidade que foi incorporada posteriormente ao calendário dos cristãos ortodoxos, e de fato é realizada na virada de 6 para 7 de julho. A tragédia fez com que a festa fosse banida do calendário da cidade e, trinta anos depois, quando a tradição é retomada, acontecimentos misteriosos voltam a acontecer.

Apesar do frio na espinha que a produção promete gerar, o diretor artístico da série, Carlos Manga Jr., diz que “ Desalma ” não é terror, mas um drama sobrenatural. “É uma história que fala sobre questões metafísicas. Mas isso só acontece por um drama humano. Não é um terror gratuito. Uma mulher não aceita a perda sua filha, e isso faz com que ela retome as suas tradições de bruxaria”, afirma Manga, em relação à personagem Haia (Cássia Kis), que comandava o macabro ritual na fogueira durante as gravações no Sul.

Ao lado de Ignes (Claudia Abreu), amiga de Halyna na juventude, e de Giovana (Maria Ribeiro), que se muda para a cidade anos depois, Haia faz parte do núcleo de mulheres que conduz a trama. Elas vão se deparar com acontecimentos inexplicáveis em suas vidas. Com exceção do trio, a produção optou por rostos desconhecidos do público para os demais papéis. Uma escolha que, segundo Manga, ajuda a criar uma sensação geral de estranheza. 

Criada por Ana Paula Maia, “Desalma” é a primeira parceria de Manga com a escritora, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura em 2018, a se concretizar. Antes disso, o diretor havia adquirido os direitos para a adaptação do romance “Carvão Animal” em filme. Mas a série furou a fila ao ter a sinopse aprovada pela Globo. Para Manga, Ana Paula é uma escritora que valoriza o gênero, algo que ainda precisa ser desenvolvido no Brasil, e essencial para atender às demandas do público que consome cultura pop no streaming.

“Por causa do streaming, as pessoas agora buscam naturalmente o produto de gênero. É mais do que oportuno, é necessário que a gente realmente comece a fazer obras do tipo. Precisamos conquistar esse público específico, que assiste a séries americanas, que espera as novas temporadas, frequenta a Comic-Con, cultua os produtos que segue”, diz ele.

Neste sentido, o desafio é adaptar produções do tipo para a realidade brasileira. “O gênero não tem bandeira, não tem pátria. Se adéqua a todos os países do mundo. Em qualquer lugar, você tem histórias de medo, piadas populares. O que a gente precisa é criar localmente histórias que se ajustem a diferentes gêneros”, completa.

A aposta no sobrenatural está alinhada com a da principal concorrente do Globoplay, a Netflix. O streaming mundial tem apostado no Brasil , com muitas produções sendo aprovadas nos últimos anos, muitas delas apostando nessa temática. “O Escolhido” foi a primeira, com  segunda temporada garantida no fim do ano.

“Fazer pensar”

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Reprodução/Instagram/@claudiaabreu_atriz
Claudia Abreu e Cássia Kis nos bastidores de "Desalma"

Manga ainda vê diferença entre criar séries diretamente para o streaming no lugar da TV aberta. Ele diz que é preciso pensar em obras que exijam a entrega total do telespectador (em vez de contar com a recapitulação das tramas, mecanismo frequente nas telenovelas). Para a Globo, Manga também assinou recentemente a direção artística de outros dois grandes investimentos: “Se eu fechar os olhos agora”, adaptação do romance de Edney Silvestre, e “ Aruanas ”, produção para o Globoplay sobre mulheres que atuam em uma ONG na defesa da Floresta Amazônica.

“São obras que têm que fazer você pensar, prestar atenção, senão perde o fio da meada. Na direção, é criar atmosferas que levem a sua imaginação a trabalhar. Queremos que a audiência imagine por ela mesma, nada é entregue”, defende ele, que acredita que é daí que devem vir os calafrios no público. “Você não vê as coisas, tem a sensação. Gosto de chamar de direção sugerida: uma porta fechada que quando aparece de volta está aberta, a câmera que levemente vai se aproximando de um ambiente em que nada acontece”.

“Desalma” só estreará no Globoplay em 2020, mas as outras produções de Manga já estão disponíveis no streaming .