Maria Bruaca trai Tenório com Alcides, após descobrir que foi traída
Reprodução/Globo 03.06.2022
Maria Bruaca trai Tenório com Alcides, após descobrir que foi traída


Maria Bruaca, personagem de Isabel Teixeira em "Pantanal", novela da Globo, pode até ser um alívio cômico em algumas cenas. Seja nas escapadas do casamento com Alcides (Juliano Cazarré) ou até nos embates com o marido Tenório (Murilo Benício). Mas a mulher, com olhar sofrido e com desejos sexuais reprimidos, pode ser um alívio para outras mulheres pelo Brasil por um outro motivo. 

Para especialistas, Maria Bruaca é uma forma de mostrar que a mulher de 50 anos pode se fortalecer e ter autoestima. A personagem, que ao descobrir uma traição resolve dar o troco e trair o marido com os peões da fazenda em que mora, pode ser um exemplo de superação. 


O iG Gente conversou com Beatriz de Souza, psicóloga do Grupo Reinserir, Virgínia Gaia, psicanalista e terapeuta holística, e Ana Tomazelli, também psicanalista, que comentaram a relevância da personagem em 2022. 

Beatriz e Virgínia concordam que Maria vive um papel de passividade e com a responsabilidade de manter o casamento a qualquer custo. "No caso de Maria, o marido tem comportamentos de abuso verbal e emocional quando exige que ela esteja sempre disponível em servi-lo e também ao tratá-la de forma vexatória", explica Beatriz. 

A psicóloga afirma que os abusos de Tenório distorcem a percepção de Maria sobre si mesma. "Quem é alvo desse tipo de abuso passa a se sentir culpada ou a entender as ofensas como verdade", pontua. 

Ana entende que um relacionamento opressor pode ter diferentes efeitos para o psicológico de uma mulher como Maria Bruaca. "Podem ir desde leves questionamentos em relação ao próprio valor enquanto mulher e esposa até extremos perigosos, como o trauma da rejeição ser projetado em outros relacionamentos ao longo da vida, impedindo essa mulher de viver relações saudáveis", analisa. 

Virgínia afirma que Maria Bruaca, no começo da novela, é uma mulher submissa e em um relacionamento abusivo, mas consegue romper o ciclo de abuso. "Algumas mulheres chegam a pensar que estão com problemas psiquiátricos ao imaginar que estão exagerando quando começam a enxergar o abuso psicológico que sofrem, acreditam que é papel da mulher aguentar a personalidade do parceiro", comenta.

Para Virgínia, uma personagem como Maria Bruaca, que rompe esse ciclo, é essencial dentro de uma novela com o alcance de "Pantanal" para trazer o assunto ao debate público. "É muito importante mostrar que as mulheres com mais de 50 anos de hoje já não são mais as mulheres que suportam tudo e abrem mão da vida afetiva sexual porque já estão 'velhas'", afirma. 


Segundo Beatriz, há a possibilidade de atingir mulheres como Maria Bruaca e mudar a mentalidade delas. "A capacidade de contínua transformação é característica do ser humano. Mostrar uma mulher de 50 anos no processo de ação e protagonismo da sua história, pode fortalecer a autoestima de mulheres, pois se cria uma representação de que é possível" analisa. 

Virgínia afirma que apesar da idade de Maria Bruaca ser no período de menopausa, em que muitas mulheres têm menor libido, é possível ter desejo e levar uma boa vida sexual. "E sempre colocando o próprio prazer como prioridade e valorizando cada momento de prazer. É qualidade no sexo e não quantidade", indica.

Maria Bruaca pode dar novo sentido para a vida de mulheres

Alcides, Bruaca e Levi_Pantanal
Reprodução/Globoplay
Alcides, Bruaca e Levi_Pantanal


Para as especialistas, a personagem pode dar novo sentido de vida e abrir a mente de mulheres que sofrem com relacionamentos abusivos. Ana afirma que a importância de Maria Bruaca é "imensa, extrema, impossível de se medir". 

Ana pensa que a pauta de mulheres em situações abusivas se tornou didática o suficiente para as pessoas compreenderem comportamentos perigosos dos cônjuges. "E principalmente para que as pessoas se conectassem aos comportamentos transformadores, influenciando toda uma geração a ser diferente de antes", comenta. 

Virgínia pontua que a personagem é um bom exemplo de autoconhecimento e empoderamento. "Ela é ótima para mulheres se empoderarem também", pensa. Beatriz acredita que a arte é ferramenta para que se acesse a emoções não identificadas. 

"A novela, como expressão de cultura popular, deposita algumas representações no social que as mulheres que talvez não consigam ter consciência de sua posição passam a se identificar na narrativa da personagem. A arte então tem potencial de organizar pensamento e ação", comenta a psicóloga. 

Na novela, Maria até tem o apoio de Guta (Julia Dalavia), mas ainda sofre com os julgamentos da filha. Na vida real, Beatriz pontua que é necessário ter uma rede de suporte bem estabelecida neste processo de empoderamento. "Mulheres que conseguem compartilhar angústias e ter apoio de familiares ou amigos. Isso faz com que se sintam mais fortalecidas para iniciar a nova fase", comenta. 

"Uso da raiva como superação"


Na novela, Maria Bruaca descobre que Tenório tem uma segunda família. Após a descoberta, a personagem resolve dizer que homem não presta e ganha atitude para enfrentar o marido. Para Beatriz, Maria usa da raiva para superar a descoberta da traição. 

"A raiva pode ser sentimento destrutivo, mas também pode ser ferramenta importante para criação de senso de justiça, validação de emoções e defesa diante de um abuso, como nesse caso", afirma. Para ela, Maria ainda não é uma mulher empoderada e está em um estágio muito inicial. "O empoderamento feminino se trata de um fenômeno complexo que implica a percepção da mulher na posição individual e social diante das desigualdades de gênero ao seu redor", analisa. 

Virgínia pontua que a raiva é um pensamento comum ao se libertar de uma relação abusiva e é necessário trabalhar a autoestima e o autoconhecimento. "É no processo que se empodera e não cai nas crenças de que nenhum homem presta. Percebe-se que tanto mulheres quanto homens precisam estar bem resolvidos para viverem relacionamentos equilibrados, de parceria e companheirismo", pontua. 

"Retrato do processo de luto"


Maria, apesar de enfrentar Tenório, ainda o ama de alguma forma, pois mantém o casamento e até o usando como fantasia ao fazer sexo com Alcides. Ao analisar a cena em que Maria Bruaca diz que a relação acabou, Virgínia vê ali o momento de libertação dela. 

"A interpretação da atriz na cena foi perfeita: é preciso perceber esse tipo de abuso desde o início, libertando-se da servidão doméstica da mesma forma que é preciso livrar-se da submissão emocional", comenta. 

Já Beatriz, entende que a cena retrata o processo de luto da relação. "É a morte do relacionamento que ela acreditava que
possuía rompido quando descobre que foi traída. Estágios de negação, raiva e tristeza são característicos nesses casos. São emoções importantes para a futura superação da relação", finaliza. 



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