Elenco faz parte da família Gusmão, núcleo negro e rico na obra
Reprodução/Globo 16.05.2022
Elenco faz parte da família Gusmão, núcleo negro e rico na obra


Com um dos maiores elencos negros atualmente em uma novela da Globo, "Cara e Coragem" traz um núcleo central negro e diferente dos vistos normalmente em novelas e obras audiovisuais brasileiras. Os protagonistas, interpretados por Taís Araújo, Cláudia Di Moura e Ícaro Silva são ricos, donos de uma siderúrgica e não sofrem com estereótipos conhecidos pelo público. 


Na novela, escrita por Claudia Souto e dirigida por Natália Grimberg, pelo menos sete personagens são negros, bem-sucedidos e com bom tempo de tela. Mas o que isso significa para os brasileiros negros, que compõem 54% da população e podem assistir à novela?

O iG Gente conversou com Valter Rege, cineasta e blogueiro, Alberto Pereira Jr., apresentador do Trace Trends e diretor de TV, e Luana Génot, fundadora do Instituto Identidades do Brasil para entender o impacto da novela para a população negra. 

Luana analisa que o aumento de personagens negros em novelas da Globo é um reflexo do que o público pede, já que a população não era refletida no audiovisual. "Já passou da hora de nos vermos nessas produções tendo negros e indígenas protagonistas, com narrativas que vão além das estereotípicas onde o negro é escravizado e o indígena só é visto como aldeado ou preguiçoso", comenta. 

Para Alberto Pereira Jr., a novela mostra o entendimento e o reconhecimento da existência negra, como seres humanos e como potência geradora de boas e novas histórias. Ele afirma que 'Cara e Coragem' mostra "um entendimento de que diversidade gera riqueza e engajamento. A telenovela tem um papel muito importante na criação de novos imaginários".

O apresentador e diretor lamenta que poucas telenovelas fazem esse exercício de ampliar os olhares sobre os diferentes tipos de brasileiros e negros. "Ainda são poucos os executivos e criativos negros com poder de decisão", lamenta. 

Valter analisa que a demanda não é apenas do público. Para ele, o posicionamento de artistas fez diferença. "Vários ativistas negros começaram a se posicionar através da internet sobre a importância da representação. Se as emissoras não se movimentarem, consequentemente começarão a perder audiência, pois a sociedade está em transformação", opina. 

Família Gusmão é "positiva e necessária"



Na obra, Taís Araújo, Cláudia Di Moura e Ícaro Silva compõem a família Gusmão, dona de uma siderúrgica e com riqueza passada de geração para geração.

Alberto lamenta que não é algo comum ver narrativas negras positivas na ficção ou no factual. "A indústria, com poucas pessoas negras em postos de comando, se acomodou a falar de nós a partir das faltas, sob o viés das nossas dores e problemas sociais estruturais. Falta interesse real em olhar as pequenas, mas importantes, mudanças que aconteceram nos últimos 20 anos", afirma. 

O apresentador analisa que a novela traz protagonismo, mas também "reapresenta a possibilidade de uma família preta estruturada, um núcleo que discute avanços científicos, tecnologia, riqueza. É uma vitória", pontua. 

Luana pensa que é preciso ampliar histórias como a de "Cara e Coragem". "Precisamos normalizar personagens negras e indígenas tendo narrativas mais complexas, tempo de tela e da trama. E isso certamente vai ajudar a normalizar em nossos imaginários o lugar irrestrito para pessoas negras e indígenas fora do audiovisual também", analisa. 

Valter relembra como eram retratados os negros no audiovisual brasileiro. "Geralmente os únicos personagens destinados a pretos eram serviçais, malandros e perfis sexualizados. Inverter essa ordem e colocar os personagens em representações mais positivas tem que se tornar normal", indica. 



Para a população negra, Luana pontua que é importante o reconhecimento nas telas, mas que é preciso uma mudança coletiva para que se desenvolva o audiovisual negro e indígena no Brasil, para que a população esteja também nos bastidores. "Quando vemos personagens que se assemelham com a gente de alguma forma é mais fácil nos conectarmos com a história que está sendo contada. Vejo uma novela como 'Cara e Coragem' como um belo avanço, para que em um futuro próximo a gente não tenha mais tanta dificuldade para achar obras que nos represente".

As laces de Anita e Clarice

Clarice e Anita usam tranças e laces
Reprodução/Globo 19.05.2022
Clarice e Anita usam tranças e laces


Na novela, apesar das diferenças entre as personagens de Taís Araújo, já que uma é da família Gusmão e a outra é uma massoterapeuta de classe média, há algo que as une: as laces. A peruca confeccionada em telas é utilizada principalmente por mulheres negras. 

Em entrevista, Taís Araújo afirmou que isso mostra a conexão entre elas. "A gente construiu duas mulheres negras com laces diferentes, uma que custa uma fortuna e outra mais barata. Usamos basicamente as mesmas coisas. Por mais que as duas tenham origens diferentes, têm lugares de encontro", comentou. 

Luana, como mulher negra, sente que as laces na novela são representativas. "Precisamos lembrar de que a mulher negra brasileira não tem somente uma curvatura de cabelo e também temos a liberdade de transitar por diversos estilos, se assim quisermos", analisa.

Para ela, as mulheres negras podem usar o cabelo natural, apostar em penteados e se aventurar com laces e tranças, como Clarice e Anita. "Devemos naturalizar que nossos crespos e cacheados são lindos em suas formas naturais, mas que é absolutamente possível transitar em outros estilos", pontua. 

Globo faz um bom papel em trazer representatividade às telas

Ícaro Silva atua em
Reprodução/Globo 19.05.2022
Ícaro Silva atua em "Cara e Coragem"

Para os especialistas, a emissora fez um acerto na evolução da representação de negros no audiovisual, mas Alberto pensa que essa é uma obrigação da Globo neste ano. "É o único caminho possível para se manter competitivo num mundo cada vez mais consciente e exigente", explica. 

Valter analisa que a Globo segue a demanda do mercado, que, para ele, a internet trouxe. Ele espera que a emissora siga este pedido. "Sei que ela só permanecerá produzindo protagonismo preto enquanto a própria sociedade continuar absorvendo e reproduzindo a necessidade de representação", pondera.

Já para Luana a Globo é responsável por boa parte da construção da sociedade brasileira, além de ser uma das maiores produtoras audiovisuais do país. Ela afirma que a emissora foi corajosa de mudar o modo de construir uma narrativa. "Questionar o imaginário que vinha sendo construído e modificá-lo é um ato de coragem que precisa ser celebrado, sobretudo expandido e continuado. Críticas devem ser um motor para um constante aperfeiçoamento. Precisamos nos ver nas histórias", afirma. 

E no futuro?

Para as próximas novelas, os especialistas esperam que "Cara e Coragem" seja o início de um movimento inclusivo no audiovisual. Valter analisa que mais novelas, séries e filmes com temática negra vão surgir. "Mas o caminho ainda é longo, pois há uma resistência do mercado em contratar diretores e roteiristas negros. Recentemente foi exibida uma novela das seis onde a protagonista falava de racismo reverso ao tentar namorar um homem negro", afirma.

O cineasta faz referência à novela "Nos Tempos do Imperador", de 2021. Em uma cena polêmica, Pilar (Gabriela Medvedovski) lamenta para o ex-escravo Samuel (Michel Gomes) que sofria racismo reverso por parte de negros na novela. A autora Thereza Falcão teve de se retratar e pediu desculpas pela cena. 

Para Valter, isso só acontece porque roteiristas e diretores não estão atentos a falas que podem ser consideradas um desserviço para o movimento negro. "Fala-se do antirracismo no meio audiovisual, mas os diretores e roteiristas não abrem mão do privilégio para ceder espaço para pessoas pretas", lamenta. 

Alberto sente que mais projetos como “Cara e Coragem” e o programa que ele apresenta, “Trace Trends”, precisam existir. "Ele também mostra a potência da negritude brasileira em todas as áreas. O caminho é longo, mas a audiência tem cobrado mais e mais e as marcas e players estão entendendo o recado", finaliza.

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