Jove ensina Juma a ler e escrever utilizando partes do método Paulo Freire
Reprodução/Globo 25.05.2022
Jove ensina Juma a ler e escrever utilizando partes do método Paulo Freire


Protagonista em cenas românticas entre Jove e Juma em "Pantanal", a alfabetização da personagem de Alanis Guillen utiliza parte de um método de ensino famoso no Brasil: o método Paulo Freire. Nas cenas, o personagem interpretado por Jesuíta Barbosa tenta ensinar a amada a ler e escrever a partir de palavras do cotidiano, além de utilizar uma cartilha deixada por Maria Marruá (Juliana Paes). 


O método, utilizado para alfabetizar jovens e adultos, é parte do modo de ensino do educador. O iG Gente conversou com a psicopedagoga professora articuladora do Ensino de Jovens e Adultos, Analu Sampaio, e a psicopedagoga Dirce Tavares, que conviveu com Paulo Freire, para entender o processo. 

Nas redes sociais, fake news divulgam que o método traz 'comunismo para as escolas', mas as pedagogas explicam que Paulo Freire ficou famoso pelo modo de alfabetização de jovens e adultos. "Ele alfabetizava com a vida prática da pessoa, conforme o entorno", explica Dirce. 

"Paulo Freire estimula a alfabetização dos adultos mediante a discussão de suas experiências de vida entre si, através de palavras presentes na realidade dos alunos, decodificadas para a aquisição da palavra escrita e da compreensão do mundo", comenta Analu. 

Jove utiliza parte dessa lógica de Paulo Freire nas aulas para Juma. Ele resgata situações do dia a dia da personagem e usa a silabação para ensinar a formação das palavras para Juma e como funcionam as famílias silábicas. 



Analu conta que, diferente da cartilha que Juma deu para Jove, a proposta de Paulo Freire não se resume a repetir palavras. "Ela desenvolve a capacidade de pensar com base nas palavras retiradas do cotidiano dos alunos formando assim as palavras geradoras. Através dessas, conseguimos formar muitas outras diferentes", afirma. 

A psicopedagoga também explica os passos da proposta pedagógica de Paulo Freire que poderiam ser utilizadas por Jove. "É dividido em três etapas: investigação, tematização e problematização".

Na investigação, há a busca pelo universo vocabular do aluno. Na tematização, o aluno toma consciência do mundo, analisando significados de temas e palavras. Por último, a problematização é a etapa em que o professor inspira o aluno a superar a visão acrítica do mundo, para postura conscientizada. Assim, os alunos não aprendem apenas a ler e escrever, mas também a interpretar o mundo. 

Por desmistificar Paulo Freire, a novela acerta



Para as pedagogas, mostrar parte do método Paulo Freire é um serviço que a Globo faz para mudar a imagem negativa do educador. "Acredito que a novela possa dar visibilidade de garantir acesso para a educação aos que tiveram acesso a este direito privado na idade certa", avalia Analu.

A psicopedagoga também pontua que Jove está seguindo as etapas de Paulo Freire. "Considerando estes aspectos é possível afirmar que o roteirista se aproxima da proposta pedagógica", diz.  Ao ver uma das cenas em que Jove ensina Juma, Dirce explica que ele não faz o trabalho completo. "Essa é apenas uma partícula do trabalho de Paulo Freire, mas é uma ótima retratação", comenta. 

Dirce aponta que a novela pode ajudar a divulgar o trabalho. "Ele foi considerado o maior educador vivo no mundo até 1997, quando ele faleceu. Essa forma de divulgar é importante, porque a filosofia dele, mesmo que o método já tenha sido ultrapassado, a filosofia vai ficar para sempre porque a visão dialógica de ensino, o questionamento, é uma necessidade contínua", analisa. 

"Toda forma de educar tem lado político"

Paulo Freire foi alvo de fake news
Reprodução: ACidade ON
Paulo Freire foi alvo de fake news


Paulo Freire foi colocado no centro de polêmicas no mundo da educação. Grupos de extrema direita associam o educador à doutrinação e o culpam por problemas da educação no Brasil. Mas segundo Analu, Paulo Freire não é nada disso e só mudou a alfabetização. 

"Na realidade, a genialidade de Paulo Freire está em cedo ter descoberto e nos ter ensinado que não existe educação neutra, que todas as propostas e práticas educativas são inerentemente ideológicas. Ou seja, toda forma de educar 'tem lado' político, mesmo que não queiram assumir isso", pontua.

"E ele mostrou, ainda antes do golpe de 1964, que podemos e precisamos lutar por uma educação que assuma a defesa de um país mais justo. Isso se aplica não só para a educação de jovens e adultos, mas a todos os níveis da escolarização, do berçário ao doutorado", finaliza.

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