Elenco faz parte da família Gusmão, núcleo negro e rico na obra
Reprodução/Globo 16.05.2022
Elenco faz parte da família Gusmão, núcleo negro e rico na obra


Prestes a estrear nas telas da Globo, 'Cara e Coragem' já ganha destaque pelo protagonismo negro. No núcleo principal, a família Gusmão, composta por Taís Araújo, Ícaro Silva e Claudia Di Moura, é rica, dona de uma siderúrgica e traz uma representatividade negra que poucas obras no audiovisual brasileiro têm. 


Em entrevista coletiva da nova novela das 19h, que estreia no próximo dia 30, os atores e a autora da novela, Claudia Souto, comentaram a importância em ter um núcleo no Brasil, país com maioria negra. Claudia Di Moura, que interpreta Marta, comentou da importância da personagem para o público negro. 

"A Marta é um aperitivo do que o povo preto tem de direito negado ao longo desses séculos. Ela tem riqueza material, empoderamento emocional, oportunidade de desenvolvimento pessoal, é uma mulher que vive sem medo. Que bom que essa narrativa chegou pelas mãos de uma mulher", comentou, agradecendo a Claudia Souto pela personagem. 

A atriz também falou da diversidade que a novela trouxe. "É uma novela que se você abrir a cortina a diversidade aparece, nós temos lá um núcleo preto e poderoso, com poder de comando na mão", afirmou.

Para ela, a história da família Gusmão pode parecer até inverossímil, por ser rica de nascença. "Quando a gente vê um núcleo preto, com três gerações de dinheiro, pessoas que não conheceram a pobreza, a dor, isso sim, é representatividade. 56% do meu povo vai poder dizer 'sim, é possível', 'eu quero estar refletido nessa mulher'", pontua. 

Claudia também comentou que a cena mais difícil, para ela, foi uma em que Marta esbanja a riqueza da família. "Tem uma cena que a Marta chega, em um jatinho próprio, foi difícil de fazer porque daquele jatinho, desceram 56% do meu povo, preto, pardo autodeclarado e toda uma nação indígena. É por isso que eu digo que a família Gusmão é a encarnação da justiça social que a gente não vê, mas que estamos gritando e reivindicando", contou.



Taís Araújo, que interpreta Clarice e Anita, a dona da siderúrgica e uma personagem misteriosa que irá surgir na novela, comentou da importância das laces usadas pelas duas personagens. "A gente construiu duas mulheres negras com laces diferentes, uma que custa uma fortuna e outra mais barata. Usamos basicamente as mesmas coisas. Por mais que as duas tenham origens diferentes, têm lugares de encontro", comentou.

"A questão do cabelo, que é séria para mulheres negras, foi um dos encontros que achamos. A Claudia escreveu uma cena linda das duas falando de cabelo, a caracterização para mim, enquanto atriz, é fundamental para minha composição", afirmou Taís. 

Para ela, Claudia Souto fez um ótimo trabalho escutando a realidade do elenco negro para compor os personagens. "É muito bom uma autora que não brinca de Deus, apesar de estar no papel de Deus da novela. Em 25 anos de TV Globo, eu nunca tive tanto diálogo de dizer como é a minha realidade, é a primeira vez e é um grande passo na dramaturgia, na nossa história. Isso é possível porque são duas mulheres no comando", celebrou Taís. 

Já Ícaro Silva, falou de como o personagem dele, Leonardo, se apresenta na novela. "Esse personagem deseja assumir o controle da empresa da família. Ele se apresenta como um personagem interessante, é jovem, preto, bilionário, ele tem um Porsche, ele está em uma empresa de muito sucesso, nasceu rico, não sabe o que é pobreza", contou. 

"São camadas, no meu entendimento como brasileiro, que o Leo nem tem e várias outras que criamos a partir do estudo do personagem e uma delas é justamente como a família enxerga o poder. O poder também é um lugar de afeto e a Clarice sempre foi mais poderosa e o afeto sempre foi mais direcionado a ela", afirmou Ícaro. 

A autora, durante a entrevista coletiva, se emocionou com as falas dos atores e agradeceu a oportunidade de aprender com o núcleo negro da novela. "Eu como autora, eu abro um espaço, ok. Mas eu não entendo muito, eu sou fruto de uma dramaturgia que eu assisti desde pequena do patriarcado branco, assim, é tudo muito novo para mim", começou. 

"Eu agradeço muito ao elenco com a generosidade de vocês me ensinarem, porque a gente está construindo isso junto. Todos nós achamos absurdo, a fala da Claudia me tocou muito fundo, porque é absurdo a gente ver o nosso país e eu seguir aprendendo, eu não ter aprendido antes de escrever, por isso é bom ser uma obra aberta", agradeceu. 

"A gente espera mudar essa visão, a gente não quer revolucionar nada, é só dar um passo. Os atores em geral me inspiram, é muito difícil escrever uma novela saindo da pandemia. Eu coloco coisas que eu aprendo todos os dias com os atores", comentou. 

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