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Personagens machistas e homofóbicos não ensinam nenhuma lição e só empobrecem tramas que poderiam ser mais criativas para contar histórias

Que “O Sétimo Guardião” não emplacou não é novidade, mas além do casal principal não ter química e a história se perder constantemente, as tramas paralelas também são problemáticas.

Divulgação
"O Sétimo Guardião" presta um desserviço com narrativa sobre marido machista e não consegue fazer história com novo conceito

A pior de todas as histórias de “ O Sétimo Guardião ” fica a cargo de Nicolau (Marcelo Serrado) e Afrodite (Carolina Dieckmann). O casal tem quatro filhos e toca uma lanchonete. Mas Nicolau é o típico machista que não tem nenhum respeito pela esposa. Ele quer ter mais um filho homem para ser jogador de futebol e fica forçando a esposa a fazer sexo mesmo quando ela não tem vontade.

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Ele também não está interessado se ela quer ter outro filho (o que ela não quer), pois para ele a opinião de mulheres não vale nada. Quando ela declara uma greve de sexo, a primeira atitude de Nicolau é ir a um bordel e quando ela ameaça não deixa-lo voltar para casa, ele se desfaz em um discurso sobre quem manda na casa e quem provê para a família, mesmo a esposa trabalhando lado a lado com ele na lanchonete.  

É possível argumentar que esse é um retrato de muitos homens Brasil afora, e isso não é mentira. Mas, ao ser retratado em uma novela sem propósito além de ser engraçado, acaba prestando um desserviço .

Normatizar esse tipo de atitude, ou transformá-la em uma tira cômica vai contra o que as novas narrativas tentam buscar para se adaptar ao mundo sempre em busca de transformação. “A Força do Querer”, de Glória Perez, foi bem-sucedida pois se dispôs a tratar de maneira adequada de assuntos pouco comentados.

Os homens machões estão presentes nas novelas tanto quanto estão no dia a dia, mas com o alcance dos folhetins, tratar de situações de violência e desrespeito sem o devido cuidado se torna um desperdício de tempo.

Essa, porém, não é a primeira vez que um assunto é “jogado” em cena em uma novela este ano. “O Outro Lado do Paraíso” fez algo similar com alguns assuntos, principalmente a violência doméstica. A história também, infelizmente, é conhecida: uma mulher se apaixona por um homem e, depois de um tempo, conhece seu lado violento e não consegue se separar.

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Reprodução/Globo
"O Outro lado do Paraíso"

Isso acontece com Clara (Bianca Bin) que casa com Gael (Sérgio Guizé) e é estuprada na lua de mel, além de sofrer diversos tipos de violência, inclusive durante sua gravidez. O personagem, no entanto, nunca sofre uma consequência real de seus atos. Ele chega a ficar detido, mas depois a vida segue a mesma e ele, inclusive, volta a fazer isso com a próxima namorada. A novela lidou tão mal com isso que no último capítulo os dois acabam trocando um abraço carinhoso, como se tivessem relembrando os bons momentos vividos juntos.

Ainda na novela de Walcyr Carrasco, outro núcleo sofreu com as más decisões do autor. Samuel (Eriberto Leão) é gay, mas segue “no armário”. Vivendo em uma cidade pequena e com uma mãe conservadora, ele mesmo tem preconceito e é incapaz de admitir sua sexualidade. Mas, ele se casa com uma mulher e mantém um amante. Claro que a história degringola e a esposa, ao descobrir o amante, o tira do armário na frente de todos. Esse fato, extremamente constrangedor e desrespeitoso se fosse na vida real, é tratado como uma nota de rodapé na novela, como se não fosse nada demais.

Depois disso, o que parecia impossível acontece e a história de Samuel piora. Ele começa um relacionamento com o amante, mas não abandona a esposa e os três vivem juntos com sua mãe preconceituosa. Uma chuva de erros e uma trama que – além de ruim, não traz nenhum benefício e nenhum propósito narrativo.

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Nem " O Sétimo Guardião " ou qualquer novela tem obrigação de fazer ações sociais ou alertas de qualquer tipo mas, sendo um reflexo da sociedade, acabam pro fazê-lo. Porém, sem a responsabilidade e o respeito por pessoas reais que se veem refletidas nessa situação, é melhor nem entrar nesse tipo de assunto e, ser optar por seguir com temáticas delicadas, tem a obrigação de ser plural e respeitosa, permitindo que esses grupos marginalizados, oprimidos ou pouco representados, se sintam legitimados na televisão.

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