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Dentro de um saco preto e com uma etiqueta escrito "Este livro é impróprio", 14 mil exemplares foram distribuídos na Bienal do Livro

A Praça Central se tornou um dos pontos mais concorridos da Bienal do Livro neste sábado. Pouco depois das 12h, começou a distribuição dos 14 mil livros com temática LGBTQI comprados pelo youtuber Felipe Neto após atentativa do prefeito Marcelo Crivella de censurar um gibi da Marvel que traz uma cena de beijo entre dois personagens masculinos.

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Reprodução/Instagram/@intrinseca
Bienal do Livro faz sucesso com distribuição de livros LGBTQ+


Usando uma camiseta preta com um significativo arco íris no bolso, o superintendente de marketing Allan Guimarães enfrentou o sol em uma fila de aproximadamente meia hora. "Eu já planejava vir à Bienal, mas fiz questão de participar dessa ação. A gente meio que já esperava essa mistura de política e religião do Crivella, mas essa guerra foi uma bobagem em torno de uma imagem sutil, que não agride ninguém."

A área próxima ao ponto de entrega ganhou ares de Copa do Mundo: como as obras vinham embaladas em um saco preto, o momento de rasgá-lo lembrava abertura de um pacote de figurinhas, com comemorações diante de livros desejados — ou a busca imediata pela troca. Na primeira hora foram distribuídos cerca de cinco mil livros .

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A estudante Fernanda Rangel foi uma das que aderiu ao escambo para conseguir o livro que queria, "Me chame pelo meu nome", levado às telas em 2017. Ela ainda não viu o filme, e pretende ler a obra antes. "Achei bacana o Felipe Neto usar a influência dele para ajudar a causa", diz ela, que não se identifica como LGBT. "Com tanta coisa para se preocupar no Rio, a atitude do prefeito ainda foi imprópria."

Segundo a agente literária Alessandra Ruiz e amiga do youtuber, a ideia de fazer alguma coisa em resposta ao prefeito começou com a compra da revista censurada. Mas como a HQ era antiga e tinha poucos exemplares, logo eles desenvolveram a ideia. Ela ajudou o Felipe a organizar a compra de todos os títulos LGBT da Bienal.

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Divulgação
Livros com temática LGBTQ+ foram distribuídos na Bienal do Livro do Rio

Para a ideia ganhar forma, houve um mutirão envolvendo voluntários da Bienal, das editoras e autores para embalar as obras. A gráfica ficou rodando as etiquetas ao longo de toda a madrugada.

Na noite desta sexta-feira, Felipe Neto anunciou em um vídeo a compra de 14 mil obras com temática LGBTI e sua distribuição gratuita ao público presente à Bienal do Livro, neste sábado, ao meio-dia.

A ação é uma resposta ao vídeo publicado na quinta por Marcello Crivella contra o beijo gay da HQ "Vingadores: A cruzada das crianças" , e à ação da prefeitura de sexta, quando dez funcionários da Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEOP) foram à Bienal do Livro, para identificar e lacrar livros considerados "impróprios".

No vídeo, que foi um dos assuntos mais comentados de sexta-feira e chegou a ser compartilhado por Caetano Veloso em seu perfil no Instagram, o youtuber informou que os livros serão embalados em plástico opaco, lacrado com a seguinte mensagem: "Este livro é impróprio para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas".

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No vídeo, Neto também ressaltou que "nunca incomodou ao prefeito que as HQs historicamente tenham cenas de violência, sangue, guerra, tiro, porrada, bomba, isso não importa. Só o que incomoda é o amor entre pessoas do mesmo sexo".

As publicações, estão sendo distribuídas na Praça Central da Bienal e foram negociados pela equipe do youtuber diretamente com as editoras participantes da Bienal. Alguns exemplares saíram dos estandes e outros tiveram de ser trazidos dos estoques das editoras.