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Ator conta que Tiago Abravanel, que fez testes para o musical, olhou para ele nas audições e disse: "É você, eu nem sei o que eu estou fazendo aqui"

Com o rock na veia desde criança, o ator Arthur Berges lembra que seus olhos brilharam quando ele assistiu ao filme “Escola do Rock”, de 2003. O longa estrelado por Jack Black colocou esse expressivo gênero musical em evidencia em uma época em que boa parte dos jovens curtiam outros ritmos musicais. “Era meu filme referência”, comenta o ator que viverá Dewey Finn no musical inspirado no filme que marcou sua infância.

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Escola do Rock arrow-options
Divulgação
Arthur Berges é Dewey Finn no musical "Escola do Rock"


Quando foi anunciado que “ Escola do Rock ” seria montado no Brasil, existia uma forte teoria nos bastidores de que Tiago Abravanel pudesse assumir o papel do músico que se finge de professor. “Eu encontrei o Tiago na época das audições e quando ele olhou para mim ele falou: ‘É você, eu nem sei o que eu estou fazendo aqui’”, lembra Arthur Berges.

Na fase final dos testes, o ator imaginou que pudesse alternar o papel principal com Tiago, mas o martelo foi batido e Arthur foi o escolhido para assumir o protagonismo desse espetáculo com músicas de Andrew Lloyd Webber. “O Tiago Abravanel teria feito muito bem [o Dewey Finn], mas fico feliz que a produção do espetáculo não usou o artifício de colocar alguém mais famoso na mídia só para atrair mais público”, enfatiza.

Arthur até cogitou não fazer o teste para o musical, mas não teve como fugir. “Quando eu soube da audição eu fiquei meio assim porque eu não queria continuar gordinho, queria emagrecer, mas me convidaram para fazer o teste e vi que era uma ótima oportunidade porque minha essência estava ali: o rock e o teatro”, afirma o artista que, além de atuar, dançar e cantar, toca mais de um instrumento ao vivo em cena.

“Escola do Rock” faz parte do mainstream, mas Arthur não foi engessado e isso o conquistou. O diretor Mariano Detry criou em cima do espetáculo da Broadway e o ator, que se inspirou muito em Jack Black, conseguiu adicionar sua energia – que não é pouca – em Dewey Finn e isso coloca o espetáculo nacional em outro patamar. “Sinceramente, eu acho que deveria ser um padrão das montagens brasileiras, não mudar completamente, mas ter um olhar diferente da Broadway.”

Amor pelo teatro e pela música

Arthur Berges arrow-options
Divulgação
O ator começou a tocar guitarra por volta dos 10 anos e, nessa época, já fazia teatro

O primeiro contato de Arthur com o teatro foi por volta dos 10 anos na escola em que estudava. Inspirado por uma professora, ele entrou para o grupo de teatro e se apresentou em todas as peças estudantis. Aos 17 anos, surgiu aquela velha dúvida de que carreira seguir e, como ser ator parecia algo incerto, prestou vestibular. “Cheguei a cursar publicidade um tempo, fiquei meio perdido, comecei a trabalhar em loja de roupa em shopping, foi um ano difícil.”

Com 18 anos, ele decidiu enfrentar a pressão externa que vinha sofrendo e se dedicar ao teatro. “Foi um acerto imenso, quando eu voltei já fiz um teste para um espetáculo musicado”, lembra o ator. O contato com a música também aconteceu por volta dos 10 anos. Arthur foi arrumar sua bicicleta e um homem que trabalhava na oficina falou que ele parecia o Kurt Cobain, vocalista do Nirvana.

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“Ele perguntou se eu tocava guitarra e eu disse que sim. Tinha uma guitarra em casa do meu pai, mas na verdade eu não tocava nada”, revelou aos risos. Arthur foi convidado para tocar na banca cover de Nirvana do homem da oficina e, adivinha, ele aceitou. No dia do ensaio, seu pai descobriu a mentira, ficou bravo, mas falou que ele iria tocar.

“Meu pai perguntou qual era a música do Nirvana e o cara da oficina mostrou. Meu pai deu uma bronca e depois me ensinou a tocar. Fiz o show com 11 anos de idade para um monte de roqueiro, a galera pirou quando me viu subindo no palco. Quando dei o primeiro rife a galera começou a gritar, eu senti um arrepio e pensei: ‘é isso que quero fazer da minha vida’.”

O amor pela música e pelo teatro cresceram em paralelo, com 14 anos Arthur já tocava com sua banda em pubs e barzinhos acompanho dos pais. “Com 18 anos, a gente conseguiu um ritmo legal de shows, mas acabei pendendo mais para o teatro”, explica. A vontade de fazer teatro musical surgiu ao assistir a montagem brasileira de “Miss Saigon”, em 2007. “Foi ali que percebi que poderia unir minhas duas paixões.”

Experiências desafiadoras

Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812 arrow-options
Arquivo pessoal
Arthur esteve no elenco do musical "Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812"

O primeiro grande musical que Arthur participou foi “Um Violinista no Telhado”, em 2012. “A primeira experiência em um musical foi algo muito louco, eu sempre tive uma intimidade muito grande com o palco, eu gostava de deitar, de me aquecer, gostava desse contato prévio com o palco e em um musical de grande porte é difícil disso acontecer porque você chega lá e já tem a equipe técnica montando cenário, testando som, marcando luz”, explica.

Independente do porte do espetáculo, a missão dele como ator é sempre se reinventar no seu trabalho e evitar produções que possam o engessar para ser seguir uma fórmula da Broadway: “No Brasil, a gente tente a cair na mesmice, a gente tende a ceder ao enlatado”. Como exemplo, ele cita que “O Fantasma da Ópera” precisa ser idêntico ao que é feito lá fora e que o lustre recebe muita ênfase. “Isso de certa maneira me incomoda”, expõe.

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Atualmente em “ Escola do Rock ”, Arthur carrega no currículo musicais que fogem do tradicional, como o imersivo “Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812” e o nacional “Se Essa Lua Fosse Minha”. “Eu acho que como artista eu tenho que me desafiar, eu tenho que me jogar num lugar em que não sei onde vou cair”, conclui.