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Inglesa mergulhou nos "mundos dos autores" incentivada pelo escritor

Só uma pessoa nesta Flip pode dizer que enveredou pelo grande sertão incentivada por Guimarães Rosa em pessoa: Maureen Bisilliat, fotógrafa que participa nesta quinta (11)  da mesa “Serra Grande”, às 19h, onde contará essa e outras histórias.

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Maureen Bisilliat arrow-options
Reprodução/Instagram/@carolinadaffara
Maureen Bisilliat é destaque na Flip


Nascida na Inglaterra, em 1931,  Maureen Bisilliat rodou o mundo com o pai diplomata até se fixar em São Paulo, em 1957, e se naturalizar brasileira. Em 1962, ganhou uma edição de “Grande sertão: veredas”, obra-prima de Rosa e, após vencer a prosa sui generis , impôs-se outro desafio: queria fotografar as paisagens atravessadas por Riobaldo, Diadorim e bandos de jagunços. Decidiu consultar o próprio autor mineiro que, sim, lhe encorajou a meter o pé na estrada.

"Trabalhar com essas grandes obras foi para mim uma introdução ao Brasil", diz Maureen, hoje com 88 anos. "Não fiz esses livros de fotos porque queria ilustrar esses clássicos, mas para entender a relação desses escritores com seus territórios, seus mundos. Como morei em muitos lugares, talvez anseie por estar com quem tem raízes profundas."

Descobrindo Brasis

Maureen descobriu o Brasil lendo e viajando pelo país como fotojornalista das revistas “Realidade” e “Quatro Rodas”, da Editora Abril, de 1964 a 1972. As fotos de “O cão sem plumas” eram, inicialmente, parte de uma reportagem da “Realidade”.

"Fotografar para revistas me possibilitou ir a lugares que eu jamais conheceria sozinha",  conta. "Sempre me vi como uma fotógrafa tecnicamente pouco ousada, o que me ajudava era a cumplicidade que se formava entre mim e as pessoas. Tenho raras fotos espontâneas e nunca soube fotografar paisagem."

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No começo dos anos 1980, Maureen reuniu fotos tiradas nos sertões do Ceará, Alagoas e Bahia para um livro. Pediu que Ariano Suassuna escrevesse uma introdução — e ele entregou 214 páginas datilografadas! Era texto demais, e Maureen precisou recorrer a outro autor. Pensou em Euclides, porque os sertanejos que fotografou viviam de forma semelhantes aos moradores do arraial de Canudos.

Da foto ao vídeo

Selecionou os trechos “mais exaltados” da primeira e da segunda parte de “Os sertões”, “A terra” e o “O homem”, para costurar texto e imagem em “Sertões: luz & trevas” (1982). O livro acaba de ser reeditado pelo Instituto Moreira Salles (IMS) com posfácios da crítica Walnice Nogueira Galvão, estudiosa de “Os sertões”, e do escritor Miguel Del Castillo.

Os retratos sertanejos de Maureen brincam com luzes coloridas, formas pouco nítidas e enquadramentos inesperados. Alguns deles estão expostos na Casa do IMS em Paraty. “Sertões: luz & trevas” foi publicado na Alemanha em 1984, com tradução de Berthold Zilly e posfácio de Mario Vargas Llosa, o que incentivou a aparição da primeira edição alemã de “Os sertões”, uma década depois.

Maureen, que chegou a estudar Artes Plásticas em Paris e Nova York, abandonou a fotografia nos anos 1980 e passou a fazer vídeos, pois “sentia falta do gesto e da palavra”. Ela, inclusive, confessa que gosta mais dos processos de revelação fotográfica em laboratório do que de bater retratos.

Há seis anos, com a ajuda do editor de vídeo Felipe Lafé, ela se dedica ao documentário “Equivalências: aprender vivendo”, que repassa sua trajetória fotográfica e familiar. Nas palavras dela, o filme é “a síntese de uma vida desconexa em uma hora e meia”.

Desde o início de 2019 Maureen está atrás de autorizações para o uso de músicas na trilha sonora, que vai misturar Thelonious Monk, Gustav Maher, Benito de Paula e canções bregas que ela ouvia em suas incursões pelo Brasil. Arrumar as autorizações têm dado mais trabalho do que imaginava.

Estética do frio

Maureen admitiu ao GLOBO que há um pedaço da geografia literária brasileira que ainda não conseguiu registrar em seus livros fotográficos: o Rio Grande do Sul de Erico Verissimo, autor da trilogia histórica “O tempo e o vento”.

Recentemente, ela resolveu aplicar a “mágica da arrumação” da mega-seller japonesa Marie Kondo para botar ordem na papelada acumulada em um dos cômodos de sua casa. No meio da faxina, encontrou um telegrama de Erico Verissimo que mencionava um possível livro de retratos gaúchos, mas o escritor morreu antes do início do projeto.

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"Eu o visitei em Porto Alegre, nos anos 1970", relata Maureen Bisilliat . "Lembro dele, no frio, sentado perto de uma lareira, apontando a biblioteca e falando dos autores que ele admirava. Era uma pessoa de uma modéstia sem igual."