“Adoro essa palavra, protagonista”, comenta Gilda Nomacce, atriz paulistana com trânsito no teatro, na televisão, mas fundamentalmente no cinema. A conversa que tive com ela foi no fim de uma tarde chuvosa, dessas que São Paulo oferta com frequência nos dias outonais que teimam em se enunciar como os de verão.

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Gilda Nomacce
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Gilda estava acompanhada de sua assessora e de Julia Katharine , que a dirigiu no curta “Tea for Two”, o último trabalho que vi dela antes de nossa entrevista, e com quem está desenvolvendo uma série de outros projetos. “Vem cá Julia, senta aqui com a gente”, intimou a amiga para participar da entrevista. “Mas é sobre você”, interrompeu a assessora. Todos riram. Nossa protagonista estava desconcertada com seu protagonismo naquela tarde.

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Gilda é um nome essencialmente cinematográfico. Quem não se lembra do filme de 1946 estrelado por Rita Hayworth? A referência pode ser pedestre, mas Gilda, uma leonina, de cabelos negros, olhar firme e presença magnética, nasceu atriz. Digo isso porque minha primeira pergunta para ela, que tem mais de 65 créditos como atriz no cinema, foi justamente sobre quando se deu conta de que era atriz de fato. “Sempre tive a sensação de já ser atriz”.

Gilda Nomacce
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Ela sentiu a necessidade de elaborar. Desde menina dizia que queria ser atriz. Fazia teatro em Ribeirão Preto, vivia em Ituverava. Aos 16 anos partiu para São Paulo, ao 18 já tinha partido para a Inglaterra se achando uma fracassada. Nesse meio tempo, um teste ruim para a Globo teve um efeito perverso. A velocidade com que Gilda vivia tudo aquilo, e recordava no contexto de nossa entrevista fez com que eu voltasse àquela fase com alguma insistência.

Isso porque hoje alguns dos mais promissores diretores de cinema do Brasil escrevem papéis especificamente para ela. A tem como uma referência de cinema autoral no País, como uma musa a agregar valor a projetos que se já eram difíceis de sair do papel em um contexto pré-Bolsonaro, agora são ainda mais por conta do desmonte da estrutura produtiva que a política cultural do novo governo propõe.

A personagem diante de meus olhos era fascinante. Na franqueza, mas também na vulnerabilidade. Na hesitação, mas também no entusiasmo. Antunes Filho, que a ajudou a desenvolver suas ferramentas (“essas coisas são muito subjetivas”) e Patrícia Aguille, a quem conheceu no vestibular e que, ali, no contexto de nossa conversa, percebeu que “teve uma importância na minha vida maior do que já parei para pensar”, foram essenciais para que a vocação para ser atriz se materializasse em fato.

Aos 23 anos, Gilda já havia protagonizado uma peça em Lisboa e viajar, no sentido estrito, mas também figurado, é algo importante para ela. Ainda que naquela época, ela admite, não identificava a diferença entre ser “atriz e ter sucesso”.

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Antunes e a primeira indicação ao prêmio Shell acalentaram aquela insegurança, mas foi por meio de Lourenço Mutarelli, outro autor que frequentemente escreve para Gilda, que ela chegou ao cinema. Ela estava em uma peça que atraiu muitos cineastas. O primeiro a convidá-la foi Caetano Gotardo e quando ela se deu por si era peça-chave do Coletivo Paulista Filmes do Caixote, que reunia além de Gotardo, Sérgio Silva, João Marcos de Almeida e Juliana Rojas e Marco Dutra, cujo “Um Ramo” (2007), primeiro filme de Gilda, a levou para Cannes.

“Entrei no mundo do cinema com pessoas muito apaixonadas. Ao contrário do que foi a TV Globo para mim, o cinema me deu abertura total. Eu comecei a ver que aquilo me queria e o cinema para mim foi natural”, observa.

Processo obsessivo

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Dona de uma “cabeça muito dramatúrgica”, a atriz diz ter mais disponibilidade do que disciplina. “Eu não sei qual é a palavra”, continua o raciocínio. “Eu sei me colocar na situação. Não interfiro em nada. Maquiagem ou não maquiagem. Da relação com o tudo é que eu vou compondo”, observa. Mais tarde ela se refere a si mesma como uma “presença política”, algo que faz todo o sentido tendo em vista sua rica e plural filmografia.

Gilda, aliás, está sempre recorrendo aos filmes para cavar lembranças de sua vida e não faltam exemplos de sets ou memórias para tangenciar seus comentários. “Eu não tenho isso de emoção é para um take só. Meu organismo é inteligente em relação à filmagem”. Apesar disso, ela confessa ser obsessiva com os takes.

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É natural supor que um ator seja obsessivo sobre si e sobre seu trabalho e Gilda me dá outra pista dessa obsessão ao comentar sobre a fotografia. “Eu tenho uma relação forte com os fotógrafos. Você é olhada por ele”.

Ela me conta que sempre foi “muito sensível, mas que não tinha expressão” e que isso provavelmente foi uma questão a lhe prejudicar naquele teste tão traumático, mas recebo isso com estranheza. Afinal, ela é tão marcante. Tão imperiosa diante de nossos sentidos! Não fosse assim, figuras como Plínio Marcos, Lourenço Mutarelli, Marco Dutra e a própria Julia Katharine, que seguia pontualmente como objeto e sujeito da entrevista, não escreveriam para ela.

Gilda Nomacce
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Gilda Nomacce em "Tea For Two"

Um tanto comovida com minha estranheza ela me conta de um filme que ainda está para sair. Um “filme fora do universo dela”, com Monica Iozzi como protagonista e no qual ela faz uma mulher sem brilho, que “a sociedade diz ser comum e minhas personagens sempre carregam alguma loucura”. Ela comenta que “ficou sem referência”.

Essa é uma questão interessante para alguém que já viveu um homem (sem maquiagem, só acessando a psique masculina), uma ninfeta em um filme 3D, uma mulher trans, mas que recentemente recusou a oportunidade de viver outra para “que as pessoas possam ocupar seus legítimos espaços”.

“Cinema é uma ferramenta de resistência”

Peço para que ela elabore sobre essa relação apaixonada que mantém com o cinema. A franqueza é cativante. “Eu tava fazendo teatro até agora. Há duas semanas fazendo a Blanche (da peça “Um Bonde Chamado Desejo”) que é um sonho de todas as atrizes (novamente a afirmação como atriz se manifesta). Mas peça eu preciso estar todos os dias naquele lugar, enquanto em três meses eu posso fazer dois, três filmes e eles estão andando”, conta. “Eu criei obsessão por estar em festival. O máximo que estive em um foi com seis filmes. Certa vez tive dois filmes em Berlim. Quando tenho um acho pouco” ri antes de emendar que criou obsessão por estar “no imaginário dos jovens diretores”.

Essa obsessão fez com que ela “quisesse fazer parte da luta”, mesmo sem se classificar como uma pessoa política. “Você ser artista e não ter um posicionamento é algo esvaziado, sabe?”.

 No ar em “A Garota da Moto”, Gilda diz que encontra fãs e que sente respaldo a seu trabalho na TV, sempre muito mais orientado para a TV paga, mas que é apaixonada pelo cinema porque ele a recebeu. “Ele me deu importância”.

Ela diz querer continuar fazendo filmes e promovendo debates sobre temas importantes e que a suspensão de patrocínios pela Petrobras ameaça. Ela observa que já fez ótimos filmes porque “não soube dizer não” e que não se deixará abalar pela falta de interesse do governo em “veicular a arte”, pois o “cinema sempre foi uma ferramenta de resistência”.

“Lugares catárticos”

Gilda Nomacce
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Gilda Nomacce em “Meu Amigo Hindu”

Depois de atuar em produções como “Ausência” (2014), de Chico Teixeira, “Trabalhar Cansa” (2011) e “As Boas Maneiras” (2017), de Juliana Rojas e Marco Dutra, “Califórnia” (2015), de Marina Person, “Como Nossos Pais” (2017), de Laís Bondasky, entre tantos outros, os protagonismos começam a aparecer. Isso porque a relação com o cinema está mais umbilical. Gilda produz “Família Valente”, primeiro longa de Julia Katharine, e “Ivan”, de Daniel Manzini.

Antes dessa nova fase de resistência que a faz arrepiar, voz e linguagem corporal ganham nova intensidade quando ela fala do cinema nacional, a atriz teve que enfrentar sua morte no cinema.

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"No 'Duplo' (curta de 2012) eu morro né? Como você se prepara para morrer?”, pergunta e sem saber me impõe certa angústia. “A Flora Dias (fotógrafa) preparou uma luz linda pra mim. Aí eu pensei: ‘Vou ficar bastante nessa luz antes de morrer’. Na hora que eu começo a morrer, vem o ressentimento, a nostalgia das coisas que eu não fiz...”

 Ela conta que precisou de 40 minutos para se recuperar depois que viu a cena pela primeira vez. “Foi horrível me ver morrer”. Hoje ela já vê a cena normalmente, mas sempre se indaga porque não aproveitou aquela luz. “O ator passa por experiências que não viveu, mas ele tem aquela experiência. Eu não trabalho com representação. Eu passo por experiências”.

Gilda Nomacce
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Gilda Nomacce

Uma atriz que acessa a psique masculina, que quando está chorando uma tragédia atenta para a maneira como o corpo se comporta porque “é tudo matéria-prima” (“é terrível, eu sei”) é uma atriz plena, o tempo todo e em tempo real. Gilda é aquilo que se vê.

Ela me disse que é “assustador” quando as pessoas escrevem para ela. Algo que apenas as grandes atrizes podem reclamar. “Eu descubro coisas sobre mim que chocam muito. Eu vejo facetas que eu não percebo naturalmente, mas lendo percebo que a pessoa desdobrou aquilo de mim”.

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Esse perfil não é uma ficção. É a Gilda Nomacce que se deixa revelar, mas também meu olhar sobre ela. Sobre uma mulher que é atriz. Para mim a atriz veio antes, mas a mulher que vislumbrei se mostrou ainda mais fascinante. Entendi porque tantos escrevem para ela. Saí naquela noite sem um texto pronto, mas decidido a iluminar essa protagonista de um cinema tão à flor da pele quanto a mulher que o acolheu. 

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