Tamanho do texto

Agência Nacional de Cinema (Ancine) diz que vai 'monitorar a questão'; Cineastas falam sobre como a estratégia dos cinemas afeta os demais filmes

Lançado nesta quarta-feira (25), "Vingadores: Ultimato" ocupou mais de 2.700 das 3.300 salas do circuito cinematográfico e causou indignação de parte do setor audiovisual brasileiro. Para efeito de comparação, até esta quarta (25), "Shazam!" e "Capitã Marvel", estavam sendo exibidos em 975 salas. 

Leia também: Entenda porque "Vingadores: Ultimato" não tem cena pós-créditos

Vingadores
Divulgação
Cineastas protestam contra estreia expasiva de "Vingadores: Ultimato"

Segundo alguns cineastas, "Vingadores: Ultimato" teria sido favorecida, principalmente, pela ausência da cota de tela para este ano, que espera para ser assinada pelo presidente Jair Bolsonaro, e por regras de controle do setor criadas pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) que não estão mais em vigor.

Leia também: Por que "Guerra Infinita" é um filme melhor que "Vingadores: Ultimato"?

Em sua coluna, o jornalista Ancelmo Gois aponta que, por causa da estreia massiva do filme da Marvel, a comédia brasileira " De pernas pro ar 3 ", com mais de um milhão de ingressos vendidos em duas semanas, perdeu 300 salas do circuito.

Mariza Leão, produtora do filme, argumenta ainda que o título ficou em 524 salas de 484 cinemas, dos quais apenas 132 colocam-no em salas com três a quatro sessões durante o dia:

"Em 153 cinemas, o filme é colocado em duas sessões diárias, e em 199 cinemas, fica em apenas uma sessão diária. Isto é uma perversidade do ponto de vista cultural e econômico".

Mariza enviou uma carta à diretoria colegiada da Ancine protestando justamente contra a falta de regras reguladoras do mercado cinematográfico. Além da ausência da cota de tela, ela menciona no texto a regra da "dobra", segundo a qual os exibidores eram obrigados a manter o filme em cartaz se ele atingisse uma média de público.

"Filmes com performance acima de média saem de salas sem nenhuma explicação, sem nenhuma defesa. Tal fato gera prejuízos incalculáveis a investimentos tanto públicos quanto privados", disse ela.

Outra regra da Agência de Cinema, derrubada pela Justiça Federal em novembro do ano passado, limitava a ocupação de 30% de um complexo por um único título. Em seu perfil no Facebook, o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, cujo filme "Bacurau" foi selecionado para a mostra competitiva do Festival de Cannes, publicou um comentário em que faz menção à regulamentação agora extinta.

"'De pernas pro ar 3' estava dando dinheiro. Quando o mercado corre sem lei, sua lógica é a de subtrair para ganhar, e não a de somar com diversidade. Os dois filmes poderiam ir bem, sem desequilíbrio", comentou.

O gaúcho Ricardo Difini Leite, presidente da Federação Nacional das Empresas Exibidoras (Feneec) e diretor da rede de cinemas GNC, diz que é preciso cautela para analisar o caso. Segundo ele, não é possível afirmar com certeza que a ocupação do filme da Marvel corresponde a 80% das salas brasileiras, porque muitas delas são compartilhadas com outros filmes. Além disso, trata-se de um caso excepcional.

"Estamos falando de um lançamento, que é o maior do ano e que teve uma procura fenomenal. É um tanto precipitado dizer que um filme como "Ultimato" vai prejudicar a performance do filme com Ingrid Guimarães. O filme brasileiro continua em muitas salas, mas teve diminuição da média de forma natural. O mesmo vai acontecer com o filme da Marvel, que deve cair um pouco na segunda semana. Isso é um caso isolado", diz Leite.

Em nota, a Agência Nacional de Cinema disse que vai "monitorar a questão": "O assunto é pauta da Câmara Técnica de Salas de Exibição, que conta com representantes de associações de distribuidores, exibidores e produtores do audiovisual".

Daniel Caetano, presidente da Associação Brasileira de Cineastas (Abraci), delcarou que a regulação é necessária e ajuda o mercado a funcionar, sendo construída em conjunto com os agentes desse mercado.

Leia também: "Vingadores: Ultimato" ultrapassa interações de "Guerra Infinita" na web

"Eu entendo que o mercado tenda a esse modelo, mas acredito que faz parte das funções do governo criar mecanismos regulatórios que evitem que as leis de mercado acabem canibalizando o próprio mercado", cometnou ele sobre a situação causada pela estreia de " Vingadores: Ultimato " no Brasil.