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Diretor mantém estética, mas busca novos caminhos para impressionar com novo filme, “Clímax”, se reinventando e se adaptando à novos tempos

Gaspar Noé não cansa de incomodar. O diretor, conhecido pelas cenas explícitas e perturbadoras em filmes como “Irreversível” e “Love” retorna com “ Clímax ”, que tem um pouco de tudo que ele já fez antes, mas com novo olhar. “Tem muitas coisas que copio de meus próprios filmes. Por falta de ideia ou por urgência”, brinca o diretor.

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"Clímax"

As referências a filmes anteriores de Gaspar Noé vêm principalmente na cor vermelha e na câmera inconstante. Mas mesmo assim, no longa essas características ganham novos sentidos. O vermelho, que cresce ao longo do filme, tem seu ápice no clímax, enquanto a câmera, que surge de cima, dos lados, acompanhando os atores, se aproximando e se afastando demais, servem como um complemento para que o espectador tenha uma experiência similar a dos personagens.

O longa tem dois atos, e Noé conta que se inspirou em “filmes catástrofe” americanos dos anos 1970, e longas como “Nascido Para Matar”, de Kubrick. Com essa ideia em mente, ele escreveu um roteiro com cinco páginas, e deixou o elenco – composto por bailarinos e apenas duas atrizes com experiência (Sofia Boutella e Souheila Yacoub) – livre para improvisar.

Gaspar conta que deixava os atores à vontade para falar o que quisessem e agir como quisessem. “Eu falava para eles ‘testem e a gente vê se funciona ou não’”, explica. Antes de gravar uma cena, o diretor, que operou a câmera na maior parte do filme, fazia o caminho das lentes e estabelecia onde cada um iria ficar. Mas nem isso, ele confessa, era muito marcado, para não correr o risco dos atores se sentirem presos.

Além dos bailarinos, o elenco conta com uma criança, que só podia gravar por três dias. Para resolver a questão, eles sugeriram prender o personagem em um armário e na maior parte do filme o que se ouve é só a sua voz. Esse tipo de solução criativa, Gaspar explica, foi pensada pelo grupo conforme o filme progredia. “Eu não sabia como terminar (o filme) por que queria que os atores me propusessem soluções”, explica.

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A má reputação de Gaspar Noé

Souheila Yacoub e Sofia Boutella são as únicas atrizes profissionais de
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Souheila Yacoub e Sofia Boutella são as únicas atrizes profissionais de "Clímax"

Por conta de seus filmes, Noé já foi chamado de muitas coisas: machista, misógino e até, veja só, budista. As alcunhas não parecem incomodá-lo, mas o filme com certeza é um passo em uma nova direção. O diretor nega ter tido qualquer agenda na escalação do filme, que conta com um grupo diverso de pessoas, entre negros e brancos, heterossexuais e LGBTs, mas “ Clímax ” tem uma cara moderna (o que é irônico, já que o filme se passa nos anos 90).

Sem nenhuma cena explícita de sexo, o filme ainda transborda sensualidade, mas de maneira diferente, incluindo a dança do início. A reputação do diretor alcançou Sofia Boutella, uma das protagonistas do filme, que tinha suas dúvidas em relação à produção. Noé comentou que a atriz ficou receosa com a possibilidade de ficar nua, e ele a tranquilizou: “se quiser ficar nua fica, se não quiser não fica, se quiser estar com um homem ou uma mulher, você decide”, contou. Ele fala, inclusive, que entende a preocupação dos atores, mas pontua que seu objetivo sempre foi criar uma relação de confiança com o elenco.

Bad trip

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"Clímax"

Apesar do filme descrever o grupo sob o efeito de drogas, Noé não admite que eles estão drogados: “não é uma viagem de ácido, é uma psicose coletiva”, descreve. Ele cita os atentados recentes na França que deixaram a população alerta e tensa, como uma espécie de manifestação sentimental coletiva. A ideia era pegar uma tragédia, isolá-la em um lugar, e analisar como um grupo reage a isso.

Mas quem quiser chamar de “a pior bad trip” da história também pode, por que os eventos são altamente relacionáveis com alguma experiência real usando drogas, porém potencializados para além do imaginável.

Depois de exibir o filme em Cannes em 2018, Noé admitiu que esperava uma reação ruim da imprensa, e foi encontrado com boas críticas. Talvez por esse ser seu filme mais “comportado”, sem deixar de carregar as qualidades que, por bem ou por mal, o diferenciam de outros diretores.

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Gaspar Noé sabe usar artimanhas para chocar o público e estampar manchetes. Agora, ele choca sem precisar desses artifícios e, em seu filme mais simples, gravado em 15 dias e completado em quatro meses, faz um de seus melhores trabalhos.