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Até que ponto a retirada de Do What You Want das plataformas digitais é efetivo em termos de boicote a Kelly? Como ficam os fãs da música?

Em meio às polêmicas acusações que pesam contra o músico e produtor R. Kelly, Lady Gaga anunciou na semana passada que retiraria das plataformas digitais Do What You Want , música que fez em colaboração com o multi-instrumentista e lançou em 2013.

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Lady Gaga e R.Kelly no clipe de Do What you Want
Reprodução/Youtube
Lady Gaga e R.Kelly no clipe de Do What you Want

A estrela, notória ativista em prol das vítimas de abuso sexual, já fora cobrada no ano do lançamento da música pela colaboração com R. Kelly , que já havia, inclusive, sido julgado em 2008 por 14 acusações de pornografia infantil – as quais ele foi inocentado.

Em uma coletiva de imprensa no Japão em 2013, Gaga defendeu a colaboração. "R. Kelly e eu temos coisas que não são verdadeiras escritas sobre nós, então, de alguma forma, temos uma conexão”. Pesavam contra ele à época denúncias de sex tape com menores e de cultos em que mantinha mulheres escravizadas em cativeiros sexuais. Tudo reavivado em um documentário de seis partes exibido pelo canal americano Lifetime que está gerando comoção e clamores por boicote ao músico nos EUA.

Agora, em plena campanha pelo Oscar, em que alimenta chances como atriz e compositora, e na esteira de movimentos concentrados de empoderamento como o #metoo, Gaga voltou a se manifestar a respeito.  “As alegações contra R. Kelly são absolutamente horríveis e indefensáveis. Enquanto vítima de assédio sexual, fiz tanto a música quanto o clipe num momento sombrio da minha vida. Meu objetivo era criar algo extremamente desafiador e provocativo porque eu estava com raiva, e ainda não havia processado o trauma que ocorreu na minha própria vida”, dizia parte do comunicado que ela postou em suas redes sociais.

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Lady Gaga e R.Kelly no clipe de 2013
Reprodução
Lady Gaga e R.Kelly no clipe de 2013

Do What You Want já foi retirada das principais plataformas de streaming nos EUA e o clipe já não está mais no YouTube, mas ainda está disponível no resto do globo, inclusive no Brasil, em plataformas como Spotify, Deezer, Google Play e YouTube Music. Antes da retirada da faixa das lojas digitais nos EUA, no entanto, a música experimentou um boom de vendas incomparável mesmo com cenários de morte de artistas como recentemente o DJ Aviici.

Para se ter uma ideia, nos dias seguintes à morte do artista sueco, suas principais músicas registraram alta de 6000%. O dueto de Gaga e Kelly disparou 13.200%. Certamente o receio de não encontrar mais a faixa em suas plataformas de streaming preferidas fez com que o público patrocinasse o vistoso recorde.

O fato gera reminiscências curiosas. A explosão de vendas fatalmente gera vultosos royalties para Kelly, o que depõe contra o gesto de Gaga que idealmente retiraria a canção para evitar que o artista continue a ganhar pela colaboração entre eles, já que a música e a parceria não podem se apagadas da história. Mais eficiente seria Gaga ter retirado a música sem fazer qualquer aviso ou, então, avisar apenas após a ação. Do jeito que foi conduzido o caso, fica difícil argumentar que não havia interesses midiáticos e profissionais envolvidos.

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R.Kelly, acusado de violência sexual por diversas mulheres, é alvo de movimento crescente de boicote na indústria da música
Divulgação
R.Kelly, acusado de violência sexual por diversas mulheres, é alvo de movimento crescente de boicote na indústria da música

Gaga, afinal, se beneficia de uma agenda social relevante e lucra bastante com uma música antes de coloca-la para dormir definitivamente, o que é plenamente de seu direito. Ainda que, também aí, suscite outra questão. Os fãs que gostam da música devem ser penalizados? Seis anos após seu lançamento a música ainda é mais de Lady Gaga e R. Kelly do que dos fãs? A retirada unilateral da música é realmente efetiva de um ponto de vista pedagógico e mercadológico da perspectiva de um boicote massificado ao cantor ou é meramente marqueteira? A decisão não implicaria em anuência, pelo menos por parte de Gaga, à pirataria, único refugo para os apreciadores da música em tempos digitais?

Como se vê, ainda que no limiar a decisão seja única e inteiramente de Lady Gaga, ela atinge muito mais do que R. Kelly e gera um debate de profundas reminiscências que talvez a indústria da música ainda não esteja preparada para assumir.

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