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Eleito o melhor filme no Festival do Rio em 2018, longa estreia nesta quinta (6) em São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba e outras grandes cidades

A ideia do corpo traduzir os labirintos emocionais de um personagem é perseguida com alguma frequência por diretores entusiastas de um cinema afeito a experimentalismos e sensações e esse é o caso de “Tinta Bruta”, eleito melhor filme no último Festival do Rio, de Felipe Matzembacher e Marcio Reolon.

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Shico Menegat em cena de Tinta Bruta, que estreia nesta quinta-feira (6) em diversos cinemas do País
Divulgação
Shico Menegat em cena de Tinta Bruta, que estreia nesta quinta-feira (6) em diversos cinemas do País

Pedro (Shico Menegat) é um jovem que tenta sobreviver em meio a um processo criminal, à partida da irmã e única amiga e aos olhares que recebe sempre que sai na rua. Tudo contribui para uma Porto Alegre sufocante, algo que “Tinta Bruta” é muito efetivo em rapidamente tangenciar.

Sob o codinome GarotoNeon, Pedro se apresenta no escuro do seu quarto para milhares de anônimos ao redor do mundo, pela internet. Suas performances eróticas se destacam justamente pelo uso da tinta. Este é o Pedro que conhecemos, mas não exatamente o que deixamos ao fim do filme. Isso porque o tempo que passamos com ele se prova fulgurante.

Tudo começa quando ele descobre que tem um imitador no universo cam. Com Leo (o ótimo Bruno Fernandes) ele estabelece uma dinâmica intensa e carnal que diretores e atores abordam com naturalismo cênico e sensibilidade dramática.

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Cena de Tinta Bruta: naturalismo e sensibilidade
Divulgação
Cena de Tinta Bruta: naturalismo e sensibilidade

São muitos os olhares conjugados aqui. Há o pendor social sobre um jovem introspectivo e raivoso, há o inconformismo do marginalizado, há o entorpecimento emocional em contraposição ao alvoroço do desejo e tudo isso organizado narrativamente com muita imaginação e esmero.

Este é um filme que trata do seu personagem – um francamente fascinante – mas que adensa o estado de espírito de um perfil muito específico de jovem. É um filme que assume um lugar de fala remoto dentro do cada vez mais plural universo cinematográfico LGBT e o faz com uma propriedade argumentativa ímpar.

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Pedro sente-se vilipendiado pela existência e a maneira como reage a esse sentimento no curso do filme – e a forma específica com que sua relação com as tintas se encaixa neste comentário – galvaniza um dos maiores trunfos de “Tinta Bruta” , que é revelar o mais íntimo de seu personagem por meio de seu corpo. A gestualidade se descobre metafísica.

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