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Longa que estreia nesta quinta-feira (6) traz uma mensagem de tolerância muito forte, além da desconstrução de toda uma sistemática de ódio

Baseado no best-seller homônimo de  Angie Thomas , “O Ódio que Você Semeia” é um filme de rara inteligência emocional que consegue desconstruir a sistemática que bombeia o  preconceito  sem perder de vista o fato de ser um filme sobre uma menina que está se tornando mulher, aprendendo a pensar por si mesma e preocupada com a impressão que o namorado vai causar na família.

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“O Ódio que Você Semeia” acredita que o amor é capaz de vencer o preconceito
Divulgação
“O Ódio que Você Semeia” acredita que o amor é capaz de vencer o preconceito

O Ódio que Você Semeia ” começa com uma cena e tanto. A câmera flagra uma família à mesa. O patriarca exorta a duas crianças que não tem mais de dez anos sobre como elas devem reagir quando forem paradas pela polícia. A mãe, com uma criança de colo, ouve tudo hesitante, com alguma frustração, mas não contradita o marido. É um prólogo forte e impactante que demonstra tanto a eficácia dessa adaptação como sua força narrativa.

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Starr, vivida pela espetacular Amandla Stenberg, vive dois mundos completamente diferentes. O do bairro em que vive, de baixa renda e dominado por uma gangue, e o da escola de classe média que seus pais pagam para que “ela tenha uma chance na vida”. É justamente Starr quem direciona o olhar da audiência para essa rotina em que ela precisa alternar entre “não soar muito negra” e “não soar muito branca”.

“O Ódio que Você Semeia” acredita que o amor é capaz de vencer o preconceito
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“O Ódio que Você Semeia” acredita que o amor é capaz de vencer o preconceito

Esse conflito interno que está prestes a explodir, implode quando um amigo de infância que a acompanhava após uma festa é morto em uma ação caracterizada por muita brutalidade policial. Starr, que estava presente no momento do ocorrido, se descobre no epicentro de uma grande polêmica racial envolvendo violência policial, preconceitos e um sistema corroído.

A maneira como George Tillman Jr. (“Uma Longa Jornada” e “Homens de Honra”) desenvolve a história é a mais acertada possível. Ele tem um ponto de vista muito forte e bem estabelecido, que pauta toda a narrativa, mas não permite que nenhuma agenda se sobressaia ao drama que vive aquela personagem. Inteligentemente ele vincula ao desabrochar de Starr sua consciência social e não há como não se encantar por sua família. O pai, um ex-membro de gangue que se tornou um homem melhor por virtude do amor por Lisa (Regina Hall), que encara as tentações sem desviar os olhos e busca fortaleza na sua família. E mesmo Lisa, uma bússola moral e emocional para seu marido e filhos, e um tesouro de sabedoria e resiliência.

Uma atriz em estado de graça

“O Ódio que Você Semeia” acredita que o amor é capaz de vencer o preconceito
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“O Ódio que Você Semeia” acredita que o amor é capaz de vencer o preconceito

É bem verdade que Tillman Jr. se excede aqui e ali, mas não há nada que comprometa a boa costura narrativa que ele pincela entre o olhar crítico, mas esperançoso sobre o estado das coisas na América, e o amadurecimento de uma menina que sente, com todo o direito, muita raiva, medo, nojo, tristeza, mas que escolhe semear a luz e cultivar a felicidade.

Esse vaticínio não seria possível sem a atuação francamente iluminada de Stenberg, uma atriz que talvez entenda por demais sua personagem ou que talvez seja das mais intuitivas e capacitadas de sua geração. Certo é que aos 20 anos e sem muitos créditos de destaque, ela mesmeriza a audiência.

Sua Starr é um bálsamo de humanidade. Não apenas para o filme, mas para o público.

“O Ódio que Você Semeia ” talvez seja o filme americano mais importante dos últimos oito anos, o que não implica em classifica-lo como o melhor. Há melhores filmes sobre as tensões raciais na América lançados em 2018, como “Infiltrado na Klan” , mas nenhum deles computou de maneira tão orgânica, tão suave, e ao mesmo tempo tão veemente, a maneira desencontrada com que tentamos resolver problemas históricos como o preconceito institucionalizado. Ao evocar Tupac como mantra, Angie Thomas e agora o filme baseado em sua obra, o fazem com humildade e abnegação. 

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