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Filme é atração do Festival Mix Brasil, que ocorre até 25 de novembro, e entra em cartaz comercialmente no dia 13 de dezembro. Leia a crítica

Keira Knightley é veterana de filmes de época. Estão aí “Orgulho & Preconceito” (2005), “Desejo e Reparação” (2007) e “A Duquesa” (2008), entre outros, para provar. Não deixa de ser impressionante, no entanto, a desenvoltura e aptidão da estrela para trafegar neste subgênero. “Colette” soma-se a esse vistoso plantel, mas também se distingue por ser aquele que mais confia nos predicados de Keira como atriz.

Keira Knightley brilha intensamente em Colette, destaque do Festival Mix Brasil
Divulgação
Keira Knightley brilha intensamente em Colette, destaque do Festival Mix Brasil

Dirigido por Wash Westmoreland (“Para Sempre Alice”) a partir de um argumento desenvolvido por ele seu marido Richard Glatzer, morto em 2015, o filme reconstitui a trajetória de Sidonie Gabrielle Colette , garota provinciana e filha de um veterano de guerra que se tornou a escritora mais influente da sociedade francesa do século XX.

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O roteiro assinado a seis mãos dá saltos temporais e se vale de elipses e diálogos tão sofisticados quanto sedutores para dar conta de uma vida tão rica e reverberante como a da biografada. O grande trunfo do texto, no entanto, é abraçar um feminismo que não é panfletário e resistir às tentações de vilanizar Willy (vivido com misto de canastice e fragilidade por Dominic West), bem como de convencionar a natureza da relação afetiva entre eles.

Amor e investimento

Dominic West e Keira Knightley em cena de Colette, que estreia comercialmente no Brasil em 13 de dezembro
Divulgação
Dominic West e Keira Knightley em cena de Colette, que estreia comercialmente no Brasil em 13 de dezembro

Willy vê na jovem Colette uma mulher à frente de seu tempo e vaidoso e intelectual que é decide toma-la para si, mas logo descobre que a relação com ela não será nos termos que ele estabelecer e que algum nível de concessão terá de ser feito. Willy publica romances e é figura colunável em uma Paris intelectualizada e boêmia, mas enfrenta profunda crise financeira.

A personagem Claudine chega ao teatro
Divulgação
A personagem Claudine chega ao teatro

Essas circunstâncias favorecem uma experiência. Sem poder pagar pelos escritores que habitualmente colaboram com sua editora, ele resolver escalar sua mulher como ghost writer.

A personagem Claudine, seus anseios e elaborações sobre a sociedade francesa, bem como suas picardias sexuais, calam forte junto a um público cioso por uma literatura escandalosa e instigante.

O inesperado sucesso, claro, promove Willy e Colette a outro patamar naquela cena burguesa, mas estabelece também outra dinâmica entre marido e mulher, uma que Wash Westmoreland desvela com apreço e minúcia revestindo seu filme de um delicado erotismo, mas também de um crescendo dramático consciencioso.

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Os trunfos de Colette

A maneira como o longa aborda a emancipação criativa, sexual e social de Colette em relação não só a seu marido, mas às amarras culturais da época é o aspecto mais entusiasmante de um filme repleto de pequenas delícias e sutis apontamentos, como a personagem de Denise Gouh. Sua Missy é um transgênero antes da formulação do conceito e sua importância para o amadurecimento intelectual, mas também emocional da protagonista constitui um comentário valoroso sobre o valor de se pensar uma agenda enquanto comunidade.

Keira Knightley em cena de Colette
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Keira Knightley em cena de Colette

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Em um filme sem acontecimentos cataclísmicos, que se organiza como uma biografia e em que a sexualidade é um elemento tão latente quanto banal, seria natural uma recepção desentusiasmada. Mas é aí que Keira Knightley muda os sinais da equação. Sua atuação incisiva nos detalhes, absoluta nos olhares e gestos, e generosa nas sugestões dá ao filme outro tipo de materialidade, algo transcendental. O filme acaba, mas é impossível despedir-se de Colette .

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