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Franquia acidental foi ficando mais política a cada novo capítulo e se dirige frontalmente aos EUA de hoje em seu mais recente e perturbador capítulo

Mais do que em qualquer outra época, Hollywood se agarrou às franquias como se sua sobrevivência dependesse disso. Para cada franquia detalhadamente calculada como “Animais Fantásticos e Onde Habitam” surge uma série acidental como “Uma Noite de Crime”, The Purge (expurgar, purgar) no original.

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Material promocional de
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Material promocional de "12 Horas para Sobreviver - O Ano da Eleição", terceiro filme da franquia Uma Noite de Crime

A sériem que ganha nesta semana o seu quarto volumem mostra um EUA pacificado, com índices de criminalidade baixíssimos e com a extrema direita no Poder. Tudo graças a implementação da noite do expurgo. O primeiro “Uma Noite de Crime” , lançado em 2013, tinha Ethan Hawke e Lena Headey como principais vértices de uma abastada família atacada nessa noite em que é permitido cometer todo e qualquer tipo de crime.

Cena de A Primeira Noite de Crime
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Cena de A Primeira Noite de Crime

O filme, produzido pela emergente Blumhouse, principal curadora do terror arthouse atualmente, com produções como “Corra!” e “Fragmentado”  e dirigido por James DeMonaco , que já havia roteirizado bons policiais como “A Negociação” (1997) e “Assalto à 13ª Delegacia” (2005), tinha nítido elemento distópico, mas não era um filme que pretendia qualquer comentário político mais robusto.  Assim como sua sequência, estrelada por Frank Grillo (“Capitão América: O Soldado Invernal”) e lançada em 2014, “Uma Noite de Crime 2: Anarquia”.

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Os dois primeiros longas não foram sequer lançados nos cinemas brasileiros, mas foram hits no homevídeo e nas plataformas on demand. O terceiro filme, batizado no Brasil “12 Horas para Sobreviver – O Ano da Eleição” (2016), já foi lançado nos cinemas. A exemplo do que acontece nesta quinta-feira (27) com “A Primeira Noite de Crime”, que como entrega o nome se dedicará a mostrar como tudo começou.

Uma Noite de Crime e o status quo

Cena de Uma Noite de Crime
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Cena de Uma Noite de Crime

A partir do exemplar lançado em 2016, ano da eleição de Donald Trump como presidente dos EUA, a franquia começou a se redesenhar. Em “O Ano da Eleição”, Elizabeth Mitchell (“Lost”) faz uma senadora contrária à noite do expurgo e toda a sua plataforma gravita em torno disso. Quando criança ela viu sua família ser assassinada durante uma noite em que os americanos exercem seu direito constitucional de purgar. Ela compete contra um pastor, o candidato da NFPA (associação nacional do direito às armas de fogo), e precisa sobreviver a noite do expurgo se quiser chegar ao dia da eleição.

O terceiro volume da série já se viabiliza como um comentário político-social poderoso e um reflexo da guinada à direita nos EUA e no mundo. Mais especificamente, um comentário sobre o livre trânsito e acesso a armas de assalto nos EUA contemporâneo.

Já “A Primeira Noite de Crime” (2018) busca deliberadamente mais paralelos com a América de Trump. O total desprezo por minorias, adoção de um discurso pró-armas mais hostil e desembaraçado, o racismo institucionalizado e outras medidas narrativas menos sutis e dramaticamente muito eficientes ganham forma.

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Ethan Hawke e Lena Headey em cena do primeiro Uma Noite de Crime
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Ethan Hawke e Lena Headey em cena do primeiro Uma Noite de Crime

Embora mantenha-se como produtor e roteirista, James DeMonaco não dirige este quarto exemplar, que ficou a cargo de  Gerard McMurray. A capacidade de se erguer como um espelho fissurado da América de Trump revigorou a franquia que chega a seu quarto capítulo sem sinais de esgotamento. “Uma Noite de Crime” avança à catarse simplória e propõe uma experiência mais aguda e perturbadora do que o espectador se propõe ao pagar o ingresso.

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