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Projota, Feijão, do "Ao Cubo", e DJ Cia, do "RZO", falaram sobre massificação do gênero, que não é muito bem aceita por parcela do público fã

O rap surgiu no final do século XX entre comunidades afrodescendentes nos Estados Unidos e, apesar de não ter nascido no Brasil, faz muito sucesso por aqui. Tanto que vem se consolidando cada vez mais no mercado musical, o que não necessariamente agrada a todos os fãs do gênero. Os rappers, no entanto, veem isso como o crescimento do estilo da música que nasceu com o obejetivo de emanar protestos.

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Projota e mais rappers falam sobre as variações do rap no Brasil
Pedro Dimitrow
Projota e mais rappers falam sobre as variações do rap no Brasil


Grande parte do público do rap se apega a raiz , as origens e acredita que os rappers não precisam estar na televisão e, de fato, é bem difícil ver os artistas participando de programas em rádios e na TV, ou pelo menos era muito mais difícil antes, já que agora as coisas estão mudando.

Um exemplo de que o gênero musical já começou a mudar há algum tempo é o Projota, que tem suas músicas tocadas em rádios, em trilhas sonoras de novelas e participa de programas na TV. De fato, as músicas do rapper sofrem algumas variações: ao mesmo tempo que elas têm suas letras mais "românticas", ou mais comercial , como Linda e Ela Só Quer Paz , ele também protesta em suas canções e seu último lançamento, Sr. Presidente , é uma prova disso.

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"Eu sempre busquei desmistificar o rap através de letras politizadas e que mostrem a realidade do nosso dia a dia", explicou Projota em entrevista ao iG Gente. Para ele, sua música é um desabafo e uma válvula de escape para falar sobre as coisas que ele sente e vive.

Para Feijão, do grupo "Ao Cubo", não se pode mais definir o gênero como comercial ou raiz, já que ele hoje tem muitas vertentes, principalmente com a chegada do trap. "Hoje o mesmo cantor que faz uma música comercial, em seguida faz uma old school ou arrisca novos formatos".

O rapper ainda acredita que seu grupo seja "raiz" apenas pelos fatos de já terem 15 anos de carreira e por usarem pick-ups até hoje. "Somos ecléticos na sonoridade", completa ele.

Feijão, do
Reprodução/Instagram
Feijão, do "Ao Cubo" concorda com opinião de outros rappers sobre as variações do rap


DJ Cia, integrante e produtor do grupo "RZO", opina que o estilo musical ainda precisa crescer muito, mas concorrda que o momento é melhor, apesar de ainda não ser o ideal. "Ele [rap] vem tomando espaço e ganhando cada vez mais público, e quando esses números acabam crescendo, essas mídias acabaram querendo, é lógico, participar disso".

O DJ aprova o rap comercial, e diz que isso é muito bom, pois independente do estilo, é a bandeira do rap sendo levantada. "Eu não faço parte dessa parcela de público que não curte rap comercial, porque eu acho que o mais importante é a música, independente do estilo, a música tem que ser boa, apesar de o mercado hoje não ligar muito para isso,  pois só enxergam números, e não estão ligando muito para a música, e isso é muito bem visível, basta olhar o que está nas playlists e nas rádios, infelizmente", conclui.

Projota, criticado por essa parcela do público que não aprova essa variação do gênero, acredita que as opiniões são variadas; de fatos elas são, e isso não significa que ele precise lutar contra. "É algo normal, e que eu trato dessa forma, com naturalidade. Sempre respeitando a opinião das pessoas", explica. "Tudo que posso fazer é continuar fazendo música".

Ainda de acordo com o rapper, todos os estilos musicais passam por isso e pelo rap ser um dos mais jovens estilos, é necessário que passem por essa fase, como vem acontecendo nos últimos anos. "É uma fase de adaptação, as mudanças surgem naturalmente, e creio que hoje já estamos num ponto de assimilação dessas mudanças".

O preconceito no rap

DJ Cia, do
Reprodução/Instagram
DJ Cia, do "RZO" e mais rappers falaram sobre o preconceito do rap


A opinião de que o rap e os rappers sofrem preconceito é quase que unânime entre Projota, Dj Cia e Feijão, apenas o compositor de "Ao Cubo" diz que isso faz parte do passado. "Hoje não mais. Já sofremos muito, pela linguagem e danças. E no circuito gospel pelas roupas, cabelos, linguagens", conta ele.

O DJ acredita que o estilo ainda é vítima do preconceito, mesmo não aparentando. "Posso destacar alguns pontos: o rap não toca na programação diária de rádios no Brasil, o rap não esta diariamente em programas de televisão, as grandes marcas não estão apoiando eventos de rap, elas dão brindes, tênis, roupas, mas elas não investem dinheiro da mesma forma que para festivais de sertanejo ou outro estilo musical, por exemplo", acredita.

"Preconceito sim, porque o rap é uma música de protesto, e ainda mais no Brasil, que já é um país cheio de falhas dos políticos. O rap faz o papel do Governo, ele instrui para ajudar a auto estima de algumas pessoas, ele diz pro moleque procurar informação, comportamento, atitude, cultura , o rap acaba não tendo a liberdade apenas de ser arte , ele se preocupa com a condição das pessoas mais desfavorecidas, e isso acaba levando algumas pessoas a se incomodar com a forma que a letra é expressa na música", finaliza o DJ.

Projota também é vítima de preoconceitos e recebe muitas críticas, o que é encarado com tranquilidade pelo rapper. "Acredito que é impossível você colocar na rua qualquer trabalho artístico e não receber críticas", conta. "Sei aprender com as críticas construtivas e sempre procuro melhorar, mas sem fugir da essência da minha arte, do meu instinto artístico".

De fato, o estilo musical pode estar dividido em raiz e comercial, mas é interessante reparar que todos têm a mesma essência, a mesma origem. Quando é perguntado quais rappers que inspiraram cada um deles, todos dão a sua lista de artista, mais o nome dos "Racionais Mcs", aparece para todos, por exemplo. 

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Todos os rappers também se apaixonaram pelo rap ainda quando eram jovens e, apesar de cada um ter a sua história para contar, foi ouvindo e se encantando pelo gênero musical que resolveram seguir o caminho que faz parte de suas vidas até hoje.

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