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Tradicional estilo teatral se reinventa para buscar identificação com o público e deixa de ser só uma declamação para ganhar novas identidades

Como mostrar, em sua totalidade, o trabalho de uma mulher pouco conhecida, mas cuja vida é envolta em arte ? Ou extrair de si as dificuldades e dores de uma separação? As artes possibilitam muitas formas de contar uma história, e o monólogo é uma delas.

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Divulgação
Banner da promoção do desconto para "Silêncio.doc"

Em tese, o  monólogo  é definido por uma pessoa sozinha no palco, declamando o texto. Na prática, é muito mais do que isso. “A dramaturgia tem sido construída de outras formas, a partir de relatos, releituras de contos, imagens, enfim, são muitas as possibilidades de se montar um trabalho solo”, explica Camila Fontes, atriz e autora da peça “Sobre Letras e Gritos para Salvar o Mundo”.

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Nesse trabalho, Camila foi responsável pela pesquisa, texto e atuação, baseada na obra de Jardelina da Silva, figura pouco conhecida de Bela Vista do Paraíso (PR), mas cuja história é repleta de interpretações artísticas, desde a criação de peças de roupa, passando pela fotografia até as declamações faladas pelas ruas da cidade.

Se uma personagem desconhecida pode mexer com o imaginário do espectador, por que não uma separação, acontecimento tão relacionável na vida das pessoas? Foi baseado em sua própria experiência que Marcelo Várzea escreveu “ Silêncio.Doc ”, atualmente e m cartaz em São Paulo .

“Eu escrevi a peça por que queria desabafar”, conta Marcelo. Na época, logo após a separação da primeira esposa, ele confessa que sua motivação principal era mostrar o texto para ela e ver se a obra a convenceria a retomar a relação. Incentivado por amigos, ele acabou levando suas angústias para o palco na forma de um monólogo.

Para Marcelo, a opção pelo formato veio do fato de saber exatamente quem era esse personagem, e como interpretá-lo: “Todas as histórias podem ser contadas de várias maneiras. Eu poderia ter dois atores – um mais engraçado um mais deprimido. Mas, como o personagem era muito parecido comigo, o melhor era eu mesmo fazer”, explica.

O monólogo moderno

Camila Fontes a criadora do monólogo “Sobre Letras e Gritos para Salvar o Mundo”
Divulgação/Camila Fontes
Camila Fontes a criadora do monólogo “Sobre Letras e Gritos para Salvar o Mundo”

O monólogo, diferente de das peças com diálogo, promovem uma interação do ator diretamente com o público. E esse é o desafio, tanto de quem faz, como de quem assiste. “Quando acende a luz eles têm medo que eu exponha eles, mas não falo diretamente com ninguém”, comenta Marcelo. Ele criou o hábito de conversar com o público após o espetáculo, já que o tema que trabalha é tão universal. “Quero que quem nunca levou um pé na bunda levanta a mão”, pede para a plateia, quebrando o gelo.

Atualmente, Marcelo recebe convidados depois da peça, que se propõe a falar sobre os mais distintos temas. Leopoldo Pacheco, Marcelo Tas e Leandro Karnal são alguns dos nomes que já prestigiaram o espetáculo e ficaram para esse bate-papo que, Marcelo conta, a maior parte dos presentes permance para acompanhar.

“O jogo com o espectador é essencial para manter-se presente e trabalhar as nuances no momento do acontecimento”, comenta Camila. “É bem desafiador se colocar neste lugar desde o começo da proposta de se dispor a trabalhar sozinha em cena”, completa.

Eis a questão

Marcelo Várzea criou monólogo com temática universal em
Willian Aguiar
Marcelo Várzea criou monólogo com temática universal em "Silêncio.doc"

O tradicional “ser ou não ser” já não é o foco de um monólogo. Se antes esse era o ponto principal do formato, Camila conta que muita coisa mudou ao longo do tempo. Ela explica que o texto já não é o pilar mais fundamental, mas sim um dos aspectos da produção: “No século passado o teatro passou por muitas desconstruções no que diz respeito a montagem de espetáculo, pesquisas com foco no trabalho do ator mais especificamente,  e ainda estamos nessa era com bastante força”, esclarece. “Declamar texto já não é mais a única perspectiva de criação ou da peça finalizada”.

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Com isso, o  monólogo  se reinventa. De Hamlet, passando por Jardelina até um divórcio, o tradicional formato teatral ganha novos contornos e novos adeptos, se reinventando para buscar a conexão com o público e explorando essa arte de uma nova maneira.