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Filme trata dos amores líquidos nos tempos modernos e da capacidade de empatia. Longa-metragem estreia no Rio de Janeiro e em São Paulo

Raras vezes o cinema que se vale da oposição entre as culturas ocidental e do Oriente Médio foi tão feliz na manipulação de arquétipos como em “Olhos do Deserto” , filme do canadense Kim Nguyen que causou ótima impressão no Festival de Toronto em 2017 e chega agora aos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro.

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Gordon em cena de
Divulgação
Gordon em cena de "Olhos do Deserto", uma das estreias da semana nos cinemas

Gordon (Joe Cole) é um operador de robô de segurança em Detroit. Ele não gosta do emprego dele que o priva das noites e dos fins de semana e é caracterizado pela inação. Ele acaba de ser dispensado de uma relação amorosa e está um poço de tristeza. Um amigo tenta fazer com que ele caia no Tinder, mas ao invés disso ele cria uma relação com Ayusha (Lina El Arabi), uma jovem do norte da África que está tentando escapar de seu noivado arranjado com um homem muito mais velho do que ela. Os dois se conhecem através de um “robô espião”, equipamento que ele utiliza para monitorar o oleoduto de sua empresa. 

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A matéria-prima aqui não é essa história de amor, embora ela seja um elemento importante no desenvolvimento da trama. Nguyen está preocupado, em um primeiro momento, com a liquidez do amor nesses tempos de imperatividade tecnológica. O cineasta também se ocupa de dimensionar como um rapaz solitário de coração partido em uma cidade desenvolvida dos EUA pode se identificar com o sentimento que uma jovem de classe baixa em um lugar remoto da África está vivendo.

Lina El Arabi em cena de Olhos do Deserto
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Lina El Arabi em cena de Olhos do Deserto

É uma mensagem de empatia poderosa, de grande humanidade e com um viés fascinante. Há um momento no filme em que o supervisor de Gordon o repreende porque seus relatórios não costumam apontar “ameaças”. “São tempos difíceis”, ele diz. “Sem ameaças esse país não vive”. Nguyen não precisa de tanques de guerra ou de salas de situação para fazer um diagnóstico forte e ruidoso das relações entre EUA e o Oriente Médio. Assim como não precisa de grandes elaborações para fazer um filme incrivelmente original a partir desta perspectiva, sem deixar de ser simples e minimalista.

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“Olhos do Deserto” é filmado de maneira quadrada e o ritmo lento por vezes incomoda, mas a força da história e as boas atuações de Cole e Arabi compensam a inadequação de algumas opções narrativas de Nguyen.

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