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Afinal, Paulo Coelho é um autor ruim ou essa é uma visão pré-concebida?

Quando se fala nas obras de Paulo Coelho no Brasil , a reação automática de muitas pessoas é torcer o nariz. No País, ele é considerado por muitos como um dos piores escritores da atualidade - apesar de ter diversos best sellers em sua bagagem. Já no exterior , sua literatura é vista como um símbolo inegável de cultura internacional - visto que a literatura tem a característica de atravessar fronteiras e não se prender à nacionalidade de origem.

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Paulo Coelho é um autor, no mínimo, polêmico; o iG Gente decidiu investigar para descobrir porque se fala tanto dele no país - mas se lê pouco suas obras
Reprodução/Facebook
Paulo Coelho é um autor, no mínimo, polêmico; o iG Gente decidiu investigar para descobrir porque se fala tanto dele no país - mas se lê pouco suas obras

Diante dessa disparidade de concepções acerca das mesmas obras, e de um mesmo autor, o  iG Gente decidiu investigar a fundo e descobrir se Paulo Coelho é, de fato, um autor ruim ou se tudo isso não passa de algum tipo de pré-conceito sobre as obras do autor brasileiro radicado na Suíça.

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A primeira coisa a se perceber nessa literatura é a linguagem empregada. Coelho é muito simples em sua escrita, quase como se estivesse explicando algum fato cotidiano para uma criança pequena. E isso pode soar bobo ou estapafúrdio à primeira vista. Mas, em um segundo olhar, o leitor pode perceber que esse tipo de escrita, limpa e simples, sem floreios ou figuras de linguagem rebuscadas, é, possivelmente, o tipo mais difícil de escrita. Essa característica lembra, ainda que vagamente, " Vidas Secas ", do consagrado  Graciliano Ramos .

Boa parte das críticas que o autor sofre provém desse estilo nada rebuscado, mais didático e direto ao ponto, além de não praticar nenhum tipo de técnica avançada e aprofundada para escrever seus livros. E isso não pode, de forma alguma, ser considerado como um defeito nas obras do autor - embora, em um primeiro olhar, esse ponto pareça uma desvantagem para quem não gosta de suas obras. Ao ver essa linguagem com um olhar mais cuidadoso, é possível perceber que há muito empenho naquelas linhas, para não se perder de sua essência e fazer uma literatura acessível, que possibilite a compreensão por todos os tipos de leitores.

Essa, porém, não é a única crítica que os leitores fazem à sua literatura. Para a jovem Letícia Cabral, de 22 anos, que não é fã do autor - mas já leu duas obras de sua autoria -, ele peca em sua escrita em vários aspectos diferentes. "A escrita dele é falha em diversos sentidos, principalmente em verossimilhança com os locais nos quais ele decide ambientar seus livros, como descrições inacuradas com os reais espaços geográficos, por exemplo", explica.

O Best-Seller
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O Best-Seller "O Alquimista" é um dos livros mais famosos de Paulo Coelho e foi traduzido para 56 línguas, além de ter inspirado um filme

Enquanto para a jovem, a falta de verossimilhança com a realidade incomoda, para os fãs de Paulo Coelho, essa "viagem" é um ponto positivo. É o que conta Enedina Vidaurre, de 60 anos. "Acham que ele é meio lunático viaja muito em seus livros. Eu gosto de viajar com ele, mas não sei como as pessoas veem isso", afirma. "Posso tudo acreditando no pensamento positivo."

Alta e baixa cultura

Alta e baixa cultura, dentro da literatura, são os termos usados pelos críticos para dividir os autores em eruditos e produtores da indústria cultural. Baseando-se nessa classificação, a crítica insiste em desqualificar suas obras. Contudo, nem sempre pelo conteúdo: muitas vezes, a questão é a temática - a literatura esotérica não vive seus melhores dias no País. A despeito do desinteresse pelo tema apresentado por ele, há sempre um romance como pano de fundo para suas histórias - o que atrai muitos leitores mundo afora.

E aceitar críticas não é, necessariamente, um ponto forte do autor. Coelho costuma rebatê-las à altura, até com certa arrogância - como se ele estivesse acima de todos os mortais e não fosse mais passível de cometer alguns erros. Por conta desse seu temperamento difícil, ele passou a ser tachado de polêmico. "É sabido que ele não lida gentilmente com críticas negativas e acaba rebatendo-as publicamente de forma entusiasmada", comenta Letícia.

Contudo, há de se reconhecer que Paulo Coelho conseguiu uma façanha pouco vista para os autores brasileiros: fora dos ambientes universitários estrangeiros, onde se reconhecem nomes como Clarice Lispector e Machado de Assis, ele é um dos poucos autores que fazem sucesso - tanto entre leitores quanto com a crítica. "O Alquimista", por exemplo, é um de seus livros mais famosos e já foi traduzido para 56 idiomas, além de estar disponível em português e ter inspirado um filme homônimo.

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Para se ter uma ideia do sucesso que ele faz, já teve seus livros traduzidos para dezenas de idiomas, chegando até ao Oriente Médio (sim, existe um fã-clube de Paulo Coelho no Azerbaijão), um mercado costumeiramente mais fechado para os produtos de cultura ocidental, que busca preservar suas tradições. Pois bem, as obras do autor estão lá, traduzidas para o árabe e conquistando milhares de leitores, tornando-se best-sellers e criando fã-clubes em países quase totalmente desconhecidos no Ocidente.

Existe preconceito?

Há um certo preconceito contra o autor, não se pode negar. Se não houvesse, pessoas que nunca abriram um livro de Coelho não diriam que não gostam e defenderiam essa posição de forma tão veemente. Contudo, é válido analisar de onde surgiu esse preconceito: como definiu Nelson Rodrigues, o brasileiro sofre de um "Complexo de Vira-Lata", onde os autores nacionais têm menos valor que os estrangeiros - e, por isso, ele é considerado um literato ruim até mesmo por quem nunca sequer abriu uma de suas obras.

Dessa forma, há uma espécie de opressão higienista contra os leitores de Paulo Coelho. Ainda que sem perceber, as críticas ferrenhas ao autor desqualificam e anulam a identidade daqueles que gostam das obras, subjugando-os como se fossem "pobres de intelecto". Dessa forma, os maniqueísmos de "literatura boa" e "literatura ruim" servem apenas para criar mais preconceitos do tipo e se fundam no que os críticos - sejam profissionais ou leitores - acreditam que deveria ser o cenário da literatura no Brasil, imaginando um mundo mais "intelectualmente evoluído".