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Quatro transexuais abrem o coração sobre seus medos, histórias e militância em um livro em que a humanidade surge travestida de informação

Se há consenso que a leitura contribui para a formação cultural e a visão de mundo do indivíduo, poucos livros contemporâneos são mais urgentes, necessários e inseridos nessa lógica do que “Vidas Trans – A Coragem de Existir” (176 páginas, R$ 34,90), que a editora Astral Cultural lançou em junho último.

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Os autores do livro Vidas Trans: Amara Moira, João W. Nery, Márcia Rocha e T. Brant
Montagem/Reprodução
Os autores do livro Vidas Trans: Amara Moira, João W. Nery, Márcia Rocha e T. Brant

Com prefácios da cartunista Laerte e da pesquisadora Jaqueline Gomes de Jesus, “Vidas Trans” traz quatro relatos de pessoas trans sobre a descoberta de como realmente são. As angústias que pavimentaram mudanças profundas no íntimo, no convívio familiar e no tecido social. São relatos distintos, no tom e na forma, mas irmanados na militância, na dimensão humana e no poder de análise.

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Amara Moira abre o livro. Travesti, bissexual e feminista, a colunista da Mídia Ninja apresenta em cerca de 50 páginas o relato mais pulsante do livro. O que tem como objetivo primário não só fisgar, mas introduzir o leitor em um universo marcado por estigmas e preconceitos, sem abdicar da assertividade de quem não tem tempo a perder, mas valorizando a generosidade que tantas vezes lhe é negada.

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Há a preocupação de Amara, repetida em diferentes escalas pelos outros autores, em conceituar o universo transgênero. "É ofensivo dizer 'o travesti', por exemplo, já que é uma identidade feminina", nos exorta a doutoranda em teoria e crítica literária. Ela observa, ainda, que é necessário pararmos de falar em mudança de sexo quando remetemos à cirurgia de redesignação sexual.  

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Capa do livro Vidas Trans - A Coragem de Existir
Divulgação
Capa do livro Vidas Trans - A Coragem de Existir

Amara tem um texto envolvente que sabe conciliar muito bem a agenda do livro, das mais bem-vindas e necessárias, com uma catarse muito particular. Como quando relata a hesitação em permitir que pessoas de quem gosta expressem carinho por ela em público. Ela nos conta que está acostumada com a violência nas caras tortas, dos olhares invasivos e até mesmo nas ofensas verbais, mas quem quer que esteja com ela está plenamente desprotegido.

Há cenas de grande impacto dramático ou regozijante valor narrativo – como a referência em Roberta Close ou a inspiração em uma ex-namorada para compor um poema libertário que depois descobriria ser sobre ela mesma.

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Talvez Amara seja a melhor escritora, na acepção clássica do termo, entre os quatro. E o fato de abrir o livro, e cada leitor fará seu juízo, pode ser a maior benção ou maldição do livro que, ainda que equânime do ponto de vista antropológico – vai perdendo força narrativa.

João W. Nery, primeiro homem trans a ser operado no Brasil em 1977 e cuja história foi emprestada por Glória Perez para narrar a transição de Ivana em “A Força do Querer”, é o segundo autor a ter voz em “Vidas Trans”. Além dos bastidores do contato com Glória Perez, o relato de João é pautado por sua generosidade ímpar. Ele abre seu relato para causos de pessoas trans que ajudou e o ajudaram a ser quem é. Faz de sua narrativa a narrativa de sua militância, que nele existia antes mesmo dele se dar conta.

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A viagem a Santos a bordo de um Gordini é uma passagem especial do relato de João. Ali afirmou-se homem perante as circunstâncias e outras palpitações internas. Há outras passagens que João, que tem certo gosto em se mostrar como um homem das antigas, ainda que sua condição trans o revista de modernidade, cativa o leitor – como o episódio em que sofreu um infarto.

A advogada Márcia Rocha logo chama a atenção por ausentar-se de sua narrativa enquanto conta a história de Marcos. É uma forma interessante de olhar para essa confusão identitária – a repressão identitária, um problema tão distante de homens e mulheres cis é outro aspecto comum entre os autores abordados por eles de maneira diversa. No livro e na vida.

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Divulgação/TV Globo
EM "A Força do Querer", Glória Perez explora tema social pouco debatido em novelas: transexualidade

Assim como nos autores anteriores, o ativismo de Márcia Rocha é elemento importante de seu relato tão logo ela passa a protagonizá-lo. É um relato delicado, pautado por muitas inflexões e devaneios. Márcia se mostra tão vulnerável quanto convicta e uma presença irresistível à admiração e ao afeto do leitor.

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O último relato é de Tereza Brant, que hoje se define como um homem trans depois de resistir a pressões até mesmo da comunidade transgênero para se definir. Durante muito tempo preferiu classificar-se como não binário (quando há caraterísticas tanto do gênero masculino como feminino e não há a opção definitiva por nenhum deles). Aos 24 anos, o modelo e ator irá integrar o elenco da novela “A Força do Querer”. Ele será uma espécie de mentor de Ivana durante sua transição. Tereza faz um relato radicalmente diferente dos demais autores. Talvez por ser de duas ou três gerações posteriores, talvez porque sua percepção de que não era uma mulher tenha vindo mais rapidamente.

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Fato é que o relato de Tereza converge problemas familiares que pouco tinham a ver com sua transgeneridade, conflitos em relação a sua orientação sexual e seu próprio lugar no mundo. Um turbilhão de emoções que acusa sua juventude, mas também que talvez estejamos no caminho certo – como o tom otimista de todos os autores corrobora.

“Vidas Trans – A Coragem de Existir” é um livro cativante, pela forma, vocação e narrativa. Uma leitura que provê informação, acesso, mas principalmente uma aula de humanidade.

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