Tamanho do texto

A nova temporada também traz as histórias dos prédios da cidade de São Paulo como cenário das íntimas conversas de Laerte com as personalidades

Uma conversa íntima exposta para as lentes das câmeras define o programa “ Transando com Laerte ”, do canal Brasil , que chega a sua terceira temporada nesta terça-feira (06) à meia noite. Com diversos convidados, Laerte não limita seus assuntos a um tema específico e tenta extrair do outro toda a sua complexidade. De cineastas como Anna Muylaert à amigos íntimos, o programa também é uma forma da cartunista reconhecer e mostrar um pouco mais de si própria.

Laerte em entrevista com Tulipa Ruiz no programa
Reprodução
Laerte em entrevista com Tulipa Ruiz no programa "Transando com Laerte"


Leia também: Dos quadrinhos ao protagonismo LGBT: A vida e obra de Laerte

“O verbo transar quando apareceu lá pelos anos 1960, 1970 tinha outras conotações, como troca, troca de ideias – e também fazer sexo, com o tempo essa outra foi pegando valor”, comenta Laerte sobre o nome provocante do seu programa. “Eu sugeri que fosse ‘Transando com Laerte’ por acusa da raiz trans, que está presente na transgeneridade. São ideias interessantes que não tem a ver só com sexo, tem a ver com transpor, cruzar fronteiras em nomes de trocas, em nome de projetos introspectivos diferentes”, completa a cartunista.

Leia também: Cauã Reymond e mais famosos dividem opiniões nas redes ao defender direitos LGBT

As personalidades que tomam conta dos episódios, por sua vez, são muito bem pensadas. O ponto de partida que a motiva a convidar alguém é o fato de conhecê-la ou ter uma afinidade pessoal, como ela própria define. “Eu não quero expor diversidade de opiniões no sentido de entrevistar pessoas de direita. Eu estou pensando em convidar pessoas com as quais me identifico”, explica. Apesar de algumas vezes ter entrevistado pessoas cujo trabalho não conhece muito bem, as indicações da produção são sempre pensadas em alguma conexão com a realidade de Laerte: “alguma ponte tem”, afirma.

Leia também: Poético e sutil, “Moonlight” mostra tragédia surda de jovem negro e gay

Nesta nova temporada, apesar do clima descontraído permanecer o mesmo, o cenário está um pouco diferente. Com um eixo temático conceitual, os lugares onde foram gravadas as conversas apreciaram a história da cidade de São Paulo por meio de seus prédios. “Procuramos contemplar lugares que contam histórias do tempo, prédios que já tiveram uma determinada existência e que hoje tem outra. São prédios que são cenários de ocupação, que estão abandonados, que foram transformados em museus”, comenta Laerte. Entre os convidados estão o músico Nando Reis, o escritor Nei Schimada, a psicanalista Maria Rita Kehl, o jornalista Leonardo Sakamoto e outras personalidades.

Laerte ao dobro

Laerte em cena do documentário
Divulgação
Laerte em cena do documentário "Laerte-se"

Em clima de estreia de mais uma temporada de seu programa, Laerte entra nos holofotes novamente depois de ter seu documentário lançado pela Netflix, “Laerte-se” em maio, resultado de alguns anos de produção. “Eu não sei os meus sentimentos de ter sido filmada. Ter a minha vida retratada está diluído nesse trabalho ao longo desse tempo tão grande e está no fato de que a equipe é feita de amigas minhas, a gente se encontrava em outros lugares e estávamos fazendo um filme e ao mesmo tempo não fazendo-o”, comenta Laerte.

Para ela, o trabalho é uma ressonância das discussões sobre transgenieridade que há anos envolvem os debates na sociedade. Descobrir-se como mulher, por exemplo, aconteceu graças às discussões que envolveram a publicação de uma tirinha em que seu personagem Hugo se travestia como uma. “Quando eu produzo um trabalho ele tem a origem no campo das coisas que me preocupam e que me ocupam a cabeça e os sentimentos, mas ele também acaba revelando coisas”, comenta Laerte. “Então é um processo dialético a relação da pessoa com aquilo que ela produz: ela também é formada por aquilo que ela está formando”, completa.