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Série da HBO chega ao fim depois de seis temporadas e deixa legado ímpar na cultura pop. Texto contém spoilers do último episódio de “Girls”

“Sabe quem mais está com problemas emocionais, Hannah?”, pergunta retoricamente a mãe (Becky Ann Baker) da personagem principal de “Girls” em um dado momento do décimo episódio da sexta temporada do programa, que marca o fim da série. “A porra de todo mundo”, responde para uma ainda, depois de seis anos, arredia e imatura Hannah (Lena Dunham).

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Lena Dunham em cena de
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Lena Dunham em cena de "Girls", que chegou ao fim após seis temporadas

Muito se falou sobre o anticlimático derradeiro episódio da série. “Girls” terminou fiel aquilo que sempre foi. Uma série potencialmente subversiva, frequentemente irritante, mas sempre aguda no diagnóstico que fez da chamada geração millennial. No epílogo que foi ao ar sob pretexto de ser o ponto final do show que capilarizou a HBO em sua era pós-Sopranos, a criação de Lena Dunham olhou com afeto e esperança para a geração que enxergou ao longo de seis anos com tanto pessimismo e ranço.

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O sexto ano da série não flagrou suas personagens principais ás voltas com as dores do amadurecimento. Isso veio antes. E mesmo antes. No sexto ano, Dunham mostrou que repetir os mesmos erros cansa – não só o público que por vezes encara com desdém e tédio as recaídas de Marnie(Allison Williams) e Desi (Ebon Moss-Bachrach), a postura passivo-agressiva de Jessa (Jemima Kirke) ou o egocentrismo encardido de Hannah sempre dando seu jeito de aparecer. A série rachou com suas personagens com uma singeleza atroz. Do penhorista que proveu uma epifania a Marnie em “Goodbye Tour”, 9º episódio e para muitos fãs o que deveria ter fechado a série, à brilhante cena em uma lanchonete em que Adam (Adam Driver) e Hannah percebem que simplesmente não é para ser, a série oxigenou suas personagens e seus conflitos.

Hannah e Marnie em cena de Girls
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Hannah e Marnie em cena de Girls

O grande legado de “Girls” é ter problematizado a tal geração millennial como nenhum outro produto pop o fez. Com honestidade e crueza. Mas não foi só isso. “Girls” deu ar pop à cena hipster. Promoveu debates importantes sobre empoderamento e diversidade, abrindo-se para as críticas que recebeu e levou o sexo como ele é para o horário nobre da TV americana. Corpos em desconformidade com os padrões socialmente aceitos, fetiches e até beijo grego apareceram e ganharam repercussão na internet. A forma como a série abordou os relacionamentos amorosos, a nudez e até mesmo a amizade nesses tempos modernos a colocam em um patamar diferenciado. É impossível estar entre os 20 e 30 e poucos anos e não se identificar com a série em algum nível.

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As quatro protagonistas de Girls, cuja sexta temporada será a última
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As quatro protagonistas de Girls, cuja sexta temporada será a última

Esse status quo fica, a despeito do término do show. Nesse sexto e derradeiro ano, Lena Dunham recuperou aquela vertente poderosa e ácida que valeram prêmios à série nos dois primeiros anos. Passa por aí o pouco espaço dado a Shoshanna (Zosia Mamet) no 6º ano e de como essa condição influiu na virada que a personagem provoca em “Goodbye Tour”.

 Inspirada pelo fim, Lena Dunham soube subverter o que se espera de um episódio final de uma série que ocupa um espaço proeminente na cultura pop. “Girls” acabou, mas a vida daquelas garotas – que finalmente perceberam que precisam viver e isso não necessariamente implica em viver juntas – continua. Com erros, acertos, crises, etc. 

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