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“Eu vou sentir falta do que sinto quando sou aquela personagem”, disse Lena Dunham que criou o programa com 24 anos e viu o mundo confundir sua personagem com ela mesma

Lena Dunham virou rapidamente uma referência cultural e feminina potente e reverberante na América na esteira do sucesso de público e crítica de “Girls”, série que está de volta a HBO para sua sexta e última temporada. Personalidade ativa nas redes sociais, autora de livro e criadora e protagonista da série que melhor pensou a mulher moderna, mas também a tal geração millennial, ou Y, para uma definição menos digital.

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“Eu vou sentir falta do que sinto quando sou aquela personagem”, observa Duhnam nessa entrevista veiculada com exclusividade pelo iG . “É como deixar a universidade, o ensino médio e se divorciar – é tudo de uma vez”, reitera sobre o processo de abandonar “Girls” , que depois dos dez episódios dessa temporada – o segundo vai ao ar às 0h de domingo (19) para segunda (20) – vai definitivamente entrar para a galeria de grandes criações da HBO juntando-se a “The Sopranos”, “Six Feet Under” e “Sex and The Ciy”, a qual foi prematura e equivocadamente comparada lá em 2012, quando estreou.

A protagonista, criadora, roteirista e diretora de Girls, Lena Dunham
Divulgação
A protagonista, criadora, roteirista e diretora de Girls, Lena Dunham


Nesse bate-papo realizado em janeiro, antes do lançamento da última temporada, mas já com ela toda gravada, a atriz e escritora reflete sobre como a atual conjuntura política dos Estados Unidos impossibilitaria que ela se inspirasse para conceber o programa, fala sobre os atores convidados do sexto ano e de como lida com todo o ódio que desperta nas redes sociais. “Eu apenas me delicio nas redes que eu gosto porque a vida é muito curta. Então a ideia de pessoas que vão em multidão à sua página dizer que você é um pedaço de merda estão desperdiçando seu tempo comigo”.

Você começou escrevendo “Girls” quando você tinha apenas 24 anos e tinha acabado de sair da universidade. Como você está lidando com a perspectiva de dizer adeus à sua criação?

Lena Dunham: Não tem uma maneira de isso não ser triste. É a sua vida, seus amigos, sua identidade – é muitas coisas em uma única. É como deixar a universidade, o ensino médio e se divorciar – é tudo de uma vez.

Eu completei 30 anos no mesmo ano que estávamos terminando o programa, então tem muito simbolismo nisso.

Eu simplesmente amei completar 30. Eu sei que idade não é nada além de um número, mas muito do programa é sobre o quanto os 20 anos são exaustivos. Tem algo sobre ter 30 anos em que de repente você é um membro respeitado em uma sala e você pode dizer: ‘Não, não, eu tenho um pouco de experiência de vida’, ou ‘Eu me oponho a isso’.

Eu sei que isso também foi um trabalho intenso incrível – teve algum tipo de sensação de alívio que tempera a tristeza?

LD: Eu acredito que teve uma sensação de alívio – a carga de trabalho foi muita, mas quando você se acostuma a isso e depois isso acaba, você percebe, oh, é assim que é viver em um ritmo humano.

Eu vou sentir saudades dos aspectos saudáveis do programa – a conexão e a criatividade – mas eu também vou sentir falta da parte onde você não dorme o suficiente; a parte onde você está constantemente estressada – e isso é provavelmente um pouco como sentir falta de crack quando você para de usá-lo. É provavelmente uma coisa não muito saudável de sentir falta.

Enquanto “Girls” sempre foi um programa pós-recessão, e seus personagens tivessem lutado com as oportunidades limitadas por conta disso, sempre nos sentíamos muito esperançosos, de muitas maneiras, sem preocupações. Você acredita, dado ao clima político atual, que seria possível sentar e escrever “Girls” agora?

LD: Não, eu não acredito. Nós tivemos que fazer todo o programa nesse mundo em que nós tínhamos essa figura de pai na forma de Obama. No fim do dia, nós realmente sentimos o que estaria certo seria protegido.

Eu acredito que estar chocada pela eleição de Donald Trump é um grande privilégio. Se você conversar com pessoas de cor, pessoas trans, pessoas queer, imigrantes, eles estão tipo: ‘bem vindo ao sistema que definiu a minha vida’. Como uma pessoa branca, nós tivemos que nos sentir salvos em uma bolha democrática. Donald Trump não é novo, ele é somente uma lembrança do que está acontecendo. Ele é uma horrível lembrança do que sempre foi o caso para muitos americanos.

Eu também penso que eu estaria muito assustada para escrever “Girls” agora. Eu penso que se eu fosse uma jovem que estivesse observando a cultura da internet, seria muito profundo no meu cérebro para eu me sentir livre para escrever isso. Eu não me sentiria possibilitada para sentir como eu não estivesse tentando representar todo mundo e não estaria – ignorância é uma alegria. Mesmo se não golpeasse todo mundo diretamente, ignorância é uma alegria.

Lena Dunham e Patrick Wilson em cena da segunda temporada de Girls
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Lena Dunham e Patrick Wilson em cena da segunda temporada de Girls


Como a dramática mudança nas circunstâncias externas mudou como você sentia sobre os próximos projetos que você escolheu seguir?

LD: Eu tenho dito isso para muitos amigos e eu penso que o que realmente importa é continuar fazendo a sua arte. Continuar fazendo a sua arte em uma maneira que sinta privada e sagrado. Não precisa ser toda política ou que faça afirmações – apenas fazer arte é um ato radical. Ela não tem que ser toda designada para destronar Donald Trump. Ótimo se isso acontecer de maneira acidental, mas eu penso que nós temos apenas que fazer o trabalho que seja importante para nós, e deixar isso falar sobre os tempos que estamos vivendo. Em seguida, envolver e compartilhar nossos recursos, para o melhor de nossas habilidades.

O que você aprendeu com Hannah nesses seis anos?

LD: Algo que eu amo sobre Hannah e algo que eu espero que eu agarre é que ela realmente se defende. Ela não permite ser desrespeitada. Ela reage e ela tem a última palavra nisso. Ela pede por aquilo que precisa – ela não precisa sempre fazer isso de maneira graciosa, mas ela não está fingindo, ela não evita uma questão e essa honestidade é algo que eu invejo. Foi realmente divertido e inspirador para atuar.

Quais foram os seus momentos, cenas ou situações favoritas que ela se envolveu para atuar?

LD: Eu sempre amei quando a encontramos em algum lugar inesperado. Seja na primeira temporada, em casa em Michigan, ficando com um farmacêutico, ou a sua pequena relação com Patrick Wilson, ou nesta temporada, com ela indo surfar em um acampamento em Montauk – Eu amo quando Hannah encontra ela mesma como um peixe fora d’água, e tem que navegar diante desses espaços. Ela é uma pessoa tão caseira e uma espécie de criatura da sua cama, que quando ela está no mundo, tem algo muito engraçado sobre isso. Ela tem problema – a menos que ela esteja no seu apartamento, ela não está no seu habitat natural, com o que eu me relaciono plenamente.

Minha amiga Durga Chew-Bose tem um livro saindo, um lindo livro, chamado “Too Much and Not in the Mood”, e nele ela identifica algumas pessoas como “pessoas de canto” – pessoas que sempre querem estar em um pequeno canto. Eu estava tipo, ‘ah, é isso que eu sou – não sou uma eremita, eu não sou antissocial, eu sou uma pessoa de canto’.

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Do que vai sentir mais saudades em relação a ela?

Eu amo o jeito de falar da Hannah. A maneira divertida com que ela olha para as pessoas com seus olhos arregalados e a terrível maneira como as roupas servem. Ela é divertida para atuar, é divertido estar em seu corpo. Eu acho que eu só vou sentir saudades de colocar alguns figurinos e sentir ela comandar. Eu vou sentir falta do que sinto quando sou aquela personagem, quem, por mais que as pessoas achassem que fosse, não era eu.

O que você vai se sentir grata de deixar em relação a ela?

LD: Tem sido um desafio às vezes que o show não poderia ser avaliado com base em seus próprios méritos por causa do ruidoso, crítico diálogo em torno dele. Eu não vou me sentir triste de deixar isso para trás. Ninguém precisa viver desta maneira por anos.

Tinha muito mais acontecendo quando “Girls” saiu e muito era esperado. Foi suposto que representasse tudo e suposto para representar nada. Todo mundo tinha uma opinião, mesmo se eles não tivessem assistido e isso é muita energia vinda diretamente para você.

Eu também estou cansada. Eu destruí meu próprio corpo fazendo esse programa. Eu vou recuperar – tenho apenas 30 – mas eu fui de baladeira para a meia idade.

Eu lembro da primeira temporada, eu fui em um encontro com um cara, bebi uma garrafa inteira de vinho e vomitei em uma van no caminho do trabalho. Eu lembro de sentir o vinho esparramar em todo o meu estômago no set – gemendo e bebendo gatorade. Mas eu consegui ter um dia de trabalho feito. Isso me colocaria por debaixo de uma mesa por seis dias agora.

Como sempre, você teve um incrível elenco de estrelas nesta temporada – particularmente Riz Ahmed e Matthew Rhys nos primeiros episódios. O que fez com que você decidisse elencá-los?

LD: Riz é um ator incrível e eu acredito que nós pegamos ele exatamente no momento antes das coisas simplesmente explodirem totalmente para ele. Ele estaria sem agenda duas semanas depois. Foi muito difícil saber quem chamar para o elenco para o papel de Paul Louie – nós estávamos tendo um tempo muito difícil decidindo, então eu vi “The Night Of” e eu estava tipo ‘Oh, é esse o cara’. Foi realmente um papel diferente para ele. Inicialmente, ele disse ‘Por que vocês estão oferecendo isso para mim?’ e eu estava tipo ‘porque você é um ator muito foda e você é charmoso e você vai trazer humor e energia e emoção para isso’.

Ele realmente era uma parte especial da temporada. Ele na realidade filmou esse episódio por último, então esse foi o nosso grande final poder trabalhar com ele. Nós tivemos cinco dias na praia em Montauk e era um prazer dirigi-lo, apenas tão pensativo e talentoso. Ele é tão transformado em cada papel que faz. Mesmo ele sendo apenas o seu eu britânico no jantar, você realmente não reconhece a pessoa que poderia desempenhar esses outros papéis.

O episódio com Matthew Rhys, Eu não vou dizer que foi realmente bom, porque eu escrevi, mas eu estou muito orgulhosa disso. Eu amo os episódios em que é como nós estivéssemos fazendo um filme. E é isso o que eu sempre faço com Richard Shepard – eu dou para ele o script que saiu de um estado de sonho e eu vou, apenas pegue isso. Ele tem uma visão tão clara.

Isso realmente depende em ter o parceiro de cena mais forte, então Allison precisava de Chris Abbot e eu precisava de Patrick Wilson e Matthew Rhys.

O que eu realmente amei é que muitos homens querem desempenhar o herói. Eles querem viver o bom moço e eles querem atuar como cara bonitão. Matthew é o único ator que eu escutei dizer: “Por favor, faça-me parecer mais careca”. Como se ele quisesse realmente ir até lá e realmente incorporar o personagem de uma maneira profunda. Eu simplesmente não posso imaginar ter feito isso sem ele, eu realmente não posso.

Aquele episódio é realmente divertido, mas também traz algumas questões muito sérias.

LD: Sim, isso é tão pessoal. Foi realmente sobre aqueles dois, mas depois também foi sobre uma questão muito maior, não somente em Hollywood, não somente na academia, mas no mundo. Como os homens usam seu poder, o que justifica uma troca igual e o que não justifica. Nós não estávamos tentando dar a ninguém respostas; nós estávamos apenas tentando começar um diálogo e contar uma história realmente pessoal.

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Isso nasceu de alguma história particular sua?

LD: Isso foi muito uma ode às pessoas que eu conheço e foi escrito mais para alguns amigos que tenho que tiveram essas experiências, quem tem sua inteligência, sua gentiliza e seu brilhantismo aproveitado.

Lena Dunham e Riz Ahmed em cena do primeiro episódio do sexto ano de Girls
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Lena Dunham e Riz Ahmed em cena do primeiro episódio do sexto ano de Girls


O episódio também levanta a questão do poder das mídias sociais e responsabilidade online. Você está constantemente surpresa pelas reações das pessoas em seus posts nas mídias sociais?

LD: Sim, é psicótico. Se eu disser algo inadvertidamente intolerante, transfóbico, racista, perpertuando estereótipos negativos de mulheres cujas identidades eu não compreendo, venham a mim – eu vou ouvir você, eu vou pedir desculpas. Mas se eu estiver urinando ou  escrevendo um post em que eu me refiro a Donald Trump como um Pai, ou um tweet no qual eu fale sobre um sonho erótico que tive, então... por que eu?

Eu nunca fui uma fã da agenda de ódio, do ódio propagado, do ódio lido – Eu apenas me delicio nas redes que eu gosto porque a vida é muito curta. Então a ideia de pessoas que vão em multidão à sua página dizer que você é um pedaço de merda estão desperdiçando seu tempo comigo.

Uma vez uma pessoa me deixou uma nota na frente do meu trailer, como um recibo de um restaurante e simplesmente disse: eu sou um escritor melhor que você. Em um recibo. E eu estava tipo, ‘bem, estou no meu trailer e você escreveu isso em um recibo, então, eu não sei. Talvez você seja. Talvez eu apenas tivesse mais pressa. Eu não tenho certeza’.

Esse tipo de coisa já te motivou alguma vez a querer tomar outros rumos?

LD: Eu costumava amar isso – Eu fiz tantos melhores amigos através das redes sociais.

Eu tive um brunch no domingo e eu olhei ao redor e eu estava tipo, oh meu Deus, esses são três dos meus melhores amigos e eu conheci todos eles pelo Twitter. Mas eu encontrei todos eles no Twitter antes de 2008, antes de eu ser famosa, quando eu estava cativada por pessoas que eram apenas outras garotas legais em Nova York pensando sobre problemas.

As quatro protagonistas de Girls, cuja sexta temporada será a última
Divulgação
As quatro protagonistas de Girls, cuja sexta temporada será a última


O quanto você ficou feliz por poder postar sobre a capa da Glamour e sua foto sem retoques?

LD: Isso foi realmente importante para eu poder expressar, pessoalmente, a importância de estar autorizada a manter o meu corpo intacto em uma capa de uma revista. Mesmo aos 30 anos, isso teve um grande impacto na minha autoestima por ter tido a chance de olhar uma capa de revista e ver o meu corpo sem edições.

Representação importa – e todos sabemos disso. Esta foi a primeira vez que eu publiquei cliques de eu mesma, porque foi a primeira vez que eu senti como eu mesma. É ótimo olhar uma fotografia sua e pensar: oh, essa sou eu. E eu gosto da maneira como eu aparento.

A última temporada de “Girls” está em cartaz na HBO, onde todo episódio inédito é apresentado aos domingos, e na HBO GO, plataforma digital do canal em que o espectador pode ver tanto esta como as temporadas anteriores.