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Rodrigo Lombardi lidera elenco luxuoso de produção nacional que busca reverberações filosóficas ao discutir certo ideal de masculinidade

"O Olho e a Faca" começa com uma citação explícita referente ao título enquanto a câmara flagra o mar. Não há relação aparente entre esse momento e tudo o que vem a seguir, mas o ato de enxergar volta à baila no epílogo com a ideia de que somos responsáveis pelo que enxergamos, pela forma como enxergamos.

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Rodrigo Lombardi
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Rodrigo Lombardi em cena de O Olho e a Faca, uma das boas estreias do cinema neste final de semana

Pode parecer autoajuda, mas incorrer nesta certeza seria simplificar por demais o tento de Paulo Sacramento , documentarista de mão cheia, aqui em sua segunda incursão pela ficção. "O Olho e a Faca" aborda a ebulição da masculinidade nas frentes mais notórias: trabalho, vida afetiva e a inevitável bifurcação dos dois.

Roberto ( Rodrigo Lombardi ) trabalha em uma plataforma de petróleo. Ele hesita sobre uma promoção que está na mesa. Intui que pode se tratar de uma armadilha e não quer colocar um colega, que também é parente, em posição delicada na empresa. O desenrolar dessa trama é o fio condutor do filme, que também mostra o protagonista ensimesmado com problemas de foro mais íntimo, a dificuldade de fazer às pazes com o pai, no leito de morte, a proximidade do filho mais novo e a distância do mais velho, a amante, a mulher...

O Olho e a faca
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Rodrigo Lombardi e Maria Luiza Mendonça em cena de O Olho e a Faca

Sacramento revela gosto especial por enigmas e isso vai desde a maneira como a narrativa se desenvolve, inclusive com os personagens propondo problemas de lógica, à montagem e fotografia. 

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O elenco luxuoso conta com participações de Maria Luiza Mendonça, como a esposa desasistida, Débora Nascimento, como a amante fogosa (há uma cena de sexo especialmente potente), Luís Melo, como o chefe sem tempo a perder de Roberto, e Caco Ciocler, como uma figura que parece saída de um filme de David Lynch. Mas o filme depende mesmo do talento de Rodrigo Lombardi, que parece ter se especializado em descortinar tipos melindrados (para usar uma palavra que está na moda), cuja masculinidade parece desordenada, ainda que insinuante.

Débora Nascimento
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Débora Nascimento em cena de O Olho e a Faca

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"O Olho e a Faca" trabalha com a ideia de ilusão de controle que temos sobre as nossas vidas - e isso é até mesmo verbalizado em um certo momento - e como todo filme que propõe certo questionamento filosófico irá ressoar de forma distinta na audiência.