A história política recente do País tem rendido uma boa safra de documentários, como “Excelentíssimos”, “O Processo” e “O Muro”.   “Democracia em Vertigem” , exibido em Sundance e disponibilizado na última semana na Netflix , chega para agregar valor e perspectiva a esse recorte histórico feito com certa dose de urgência e incredulidade.

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Lula no último dia como presidente em cena de Democracia em Vertigem
Reprodução/Netflix
Lula no último dia como presidente em cena de Democracia em Vertigem

O filme de Petra Costa (“Elena”) é mais uma reflexão de cunho pessoal do que um documentário que se fia no rigor histórico e analisa-lo fora desse contexto seria um exercício de desonestidade intelectual.

Todos esses documentários citados acima ostentam alguma pretensão jornalística e muitos formalismos do gênero documentário porque, ainda que defendam em maior ou menor grau certo ponto de vista, buscam se viabilizar como documentação desse período de intensa efervescência política.

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Não é este o caso com o filme de Costa que propositalmente pula o impeachment de Collor, que se deu em um contexto ainda mais precoce da redemocratização do Brasil, e episódios controversos e difíceis de defender do ponto de vista de partidários de Lula. E não há nenhum problema nisso, já que a proposta do filme é arredar o raciocínio da cineasta, a maneira como ela pessoalmente se engaja e se deixa impactar pela ascensão e queda de Lula e como entende ser este movimento um sinal de alerta para os brasileiros.

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Cena do filme Democracia em vertigem
Divulgação

Cena do filme Democracia em Vertigem

O sentimento de desalento de Petra é o sentimento de desalento de uma esquerda que não aceita o que entende ser a partidarização da maior operação de combate à corrupção já impetrada no Brasil e está carente de novos líderes capazes de mobilizar massas, algo que a direita vê emergir com alguma preponderância na figura de Bolsonaro.

Se é difícil, nesse escopo, ler “Democracia em Vertigem” como algo que não esteja inserido em uma máquina de propaganda da esquerda, tradicionalmente mais eficaz e híbrida no Brasil, também é imperativo reconhecer que o filme é muitíssimo bem sucedido em capturar o ódio como commodity política. Algo que, ainda que a realização ignore, foi tangenciado por muito tempo pelo discurso de “Nós contra eles” tão martelado pelo PT e por Lula e que hoje parece dominado pelo bolsonarismo. O filme de Petra é sagaz ao sublinhar os efeitos, dados e ainda passíveis de acontecer, dessa realidade.

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