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Visualmente exuberante, "Suspíria" é mais do que uma refilmagem. Longa de Guadagnino propõe um olhar hermético sobre o feminino e seus instintos

As expectativas em torno de “Suspiria” de Luca Guadagnino sempre foram exaltadas. Primeiro porque o cineasta é um dos autores mais interessantes e auspiciosos do cinema moderno. Filmes como “Um Sonho de Amor” (2009) e “Me Chame pelo Seu Nome” (2017) são atestados dessa realidade. Segundo porque o longa original de Dario Argento, de 1977, é um cult inovador e que ajudou a redimensionar o horror em sua década mais prolífera.

Cena do filme Suspíria
Divulgação
Supíria - A Dança do Medo

Suspíria: A Dança do Medo” finalmente chega ao Brasil após ter estreado no festival de Veneza em 2018 e ter sido solenemente ignorado na temporada de premiações. O “ Suspiria ” de Guadgnino é radicalmente diferente do de Argento. Na forma, no ritmo e mesmo nos objetivos dramáticos.

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Essencialmente feminino – até mesmo o único personagem masculino recorrente é interpretado por uma mulher, no caso a excepcional Tilda Swinton -, na superfície o filme aborda uma confraria de bruxas na Berlim pós-Segunda Guerra Mundial. Dividido em seis atos, o filme se beneficia muito desse clima de paranoia e do fantasma do nazismo. O cineasta italiano é mestre na criação e manipulação de atmosferas e essa arte é elevada à décima potência aqui.

Da trilha sonora rebuscada e gradativa de Thom Yorke, que vai deixando seus vestígios na audiência conforme o filme avança até que a apoteose chegue com Unmade , à fotografia de Sayombhu Mukdeeprom, o mesmo de “Me Chame pelo Seu Nome”, o longa é esteticamente expansivo, sem deixar de ser minimalista. Filmado como uma obra dos anos 70, o longa é mais uma metonímia do que uma refilmagem.

“Alucinações são mentiras que contam verdades”

O cineasta não se furta à transgressão. Depois de subverter a narrativa e as expectativas em torno dela a todo o momento, ele leva seu filme para um lugar onde não mais parecia possível e se abre para o gore e o trash de forma bela e operística.

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Este é um filme em que a fisicalidade importa tanto quanto a sensibilidade. A instintividade daquelas mulheres é tão importante quanto a intuição do espectador. É a esta sinergia que Guadagnino se devota e o desenvolvimento de “Suspíria – A Dança do Medo”, esse gótico e soberano conto de horror peculiarmente europeu, privilegia essas circunstâncias.

Há grandes cenas, como quando Susie (Dakota Johnson) dança e Olga (Ela Fokina) é despedaçada a partir daqueles movimentos tão primais quanto bem coreografados. A sensorialidade é cultivada ao extremo aqui, em parte pela inteligentíssima arquitetura visual, e se torna uma das grandes armas narrativas do filme e também aquilo que melhor o define. Talvez por isso provoque reações tão distintas de quem se predispuser a assisti-lo.

Dakota Johnson em Suspíria
Divulgação
O remake do clássico de terror "Suspiria" teve seu primeiro trailer oficial completo lançado na web

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Em um elenco em grande forma, Tilda Swinton reluz como o ouro que é, mas é mesmo Dakota Johnson, em seu papel mais complexo e desafiador, quem torna essa experiência tão magnânima. Entre o abstrato e o concreto, entre o que se pode revelar e o que se deve sugerir, entre o físico e o místico, a atriz sobeja com graciosidade e um erotismo doce e contribui para que “Suspíria” seja algo tão especial e singular.

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