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Editor recorda minúcias e sensações da cobertura da trágica morte do ator Domingos Montagner e do frenesi que tomou a redação naquela tarde

Era uma quinta-feira particularmente pouco agitada na redação. Eu voltava de uma reunião, não me lembro para qual propósito, e fui parado pelo estagiário de redes sociais. “Tá rolando um boato de que o ator de ‘Velho Chico’ (Domingos Montagner) se afogou no Rio São Francisco. Tá sabendo de alguma coisa?’. Não dei muita importância ao fato, mas me dispus ao fact-checking, ferramenta do jornalismo tão importante em uma era moldada pelas famigeradas fake news.

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O ator Domingos Montagner
Divulgação
O ator Domingos Montagner

Naquela tarde de 15 de setembro tudo escalaria vertiginosamente. A internet estava em transe. A Globo , muda. Já se sabia que Domingos Montagner , o tal do ator de “Velho Chico”, havia mergulhado nas águas do São Francisco em um intervalo das gravações. Mas o mergulho teve fim? Houve um resgate? A apuração era complicada. Entramos em contato com as autoridades policiais, com os bombeiros de Sergipe, de Alagoas... Como moradores da região... A demanda por informação era monstruosa.

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A essa altura, a Globo News já dizia que “o ator Domingos Montagner desaparecera nas águas do São Francisco”.  Na redação, coordenava em pé nossa intermitente cobertura, intermitente porque era assaltada por rumores, expectativas e não sabíamos como ou quando ela iria terminar. Falava alto, gesticulava e orientava a equipe, já bem reduzida, que reagia com frenesi e devoção aquele momento histórico.

A despedida de Domingos Montagner
reprodução / Intagram
A despedida de Domingos Montagner

Veio a notícia de que ele havia sido resgatado com vida. Veio de um veículo das organizações Globo. Ao mesmo tempo, uma jornalista da Globo News tuitava que em breve a emissora teria uma notícia muito triste para anunciar. Em tempos de profusão de informação, o bom jornalismo se faz necessário e o iG filtrou e levou a seu leitor a informação na temperatura correta e com o devido contexto. Não deu barriga (e foram algumas durante aquela frenética tarde na imprensa brasileira) e cobriu os eventos daquela tarde terrível com dignidade e correção. Ofertou ao seu leitor em busca de informação e memória exatamente o que ele buscava em um fluxo compatível com o tamanho do espanto que tomava o Brasil.

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O Brasil não tem o histórico de grandes tragédias envolvendo suas personalidades, mas nos últimos anos elas foram assustadoramente frequentes. Vale mencionar aqui as tragédias aéreas envolvendo o presidenciável Eduardo Campos, o ministro do STF Teori Zavascki, além do ocorrido com aquele fatídico voo da Chapecoense. Domingos Montagner, no entanto, estava na casa das pessoas todos os dias. Foi um baque de outra natureza.  E aquela tarde particularmente pouco agitada marcou para sempre.