Alexandre Avancini diz ao iG que se inspirou em "Game of Thrones" e explica detalhes da 1ª novela bíblica da TV brasileira


A novela “Os Dez Mandamentos” deixou a Record com o segundo lugar isolado no Ibope no horário em março, mês da estreia. E engana-se quem pensa que a novela, primeira com temática bíblica da TV brasileira, é feita para um público mais religioso. Usando os dramas familiares como base, a obra ultrapassa barreiras da fé. Essa é a opinião do diretor-geral, Alexandre Avancini

“A gente fez uma pesquisa e descobriu que só 20% dos espectadores das produções bíblicas eram evangélicos. É bem pouco. O resto eram outras religiões e o público em geral”, disse em entrevista exclusiva ao iG . "A novela cativa por ter muitos dramas familiares que são absolutamente contemporâneos. A gente vê muito a história da mãe que teve que entregar o filho para adoção e depois o procura, tem o drama da mulher que é espancada pelo marido... E o que emociona o espectador é essa relação familiar", defende.

Avancini ainda explica as inspirações para contar a história de Moisés na tela, fala da concorrência com "Babilônia", da Globo, e dá detalhes da produção da Record.

iG: Por que a Record escolheu usar um tema bíblico para a primeira novela de época da emissora?
Alexandre Avancini: A empresa percebeu que a temática bíblica tem um tipo de base de dramaturgia que permite desenvolver um excelente folhetim. Além de estar inserido um contexto épico supergrandioso, ele retrata relações familiares. Essa temática sempre tem um grande apelo junto ao público.

Alexandre Avancini, diretor-geral de 'Os Dez Mandamentos', durante gravações no Chile
Divulgação/Record
Alexandre Avancini, diretor-geral de 'Os Dez Mandamentos', durante gravações no Chile

iG: Na sua opinião, a que se deve o sucesso da novela?
Alexandre Avancini: A novela cativa por ter muitos dramas familiares que são absolutamente contemporâneos. Todas as relações humanas são inseridas em um contexto de muita disputa de poder e na teledramaturgia isso se repete muito com a história do grande empresário. E na nossa novela é diferente, a gente fala de rei, de rainha. E a Record enxergou com as novelas situadas neste contexto bíblico algo diferenciado. O espectador é muito volátil e se você tiver um produto de qualidade e diferente, ele vai atrás.

iG: “Os Dez Mandamentos” é divida em quatro fases e segue o formato mais próximo a um seriado. Isso também ajuda a conquistar o público?
Alexandre Avancini : A Vivian (de Oliveira – autora da novela) acertou no texto e conseguiu imprimir, desde os primeiros capítulos, uma dinâmica de minissérie e isso é um diferencial. A dramaturgia brasileira continua incorrendo em um erro que a história não anda. Em “Dez Mandamentos”, a história já está escrita, todo mundo sabe o final e, mesmo assim, a história tem que andar. A Vivian conseguiu imprimir um ritmo mais ágil e, com isso, o público fica curioso para acompanhar esse movimento. São quatro fases, e a cada uma muda o cenário, muda o foco dos personagens. O próprio Ramsés (personagem de Sérgio Marone ), que por enquanto é bem simpático ao público, vai virar o grande vilão da novela.

iG: “Os Dez Mandamentos” é exibida às 20h30, enquanto “Babilônia” vai ao ar por volta de 21h. As duas produções são concorrentes?
Alexandre Avancini: São faixas diferentes, mas são produtos que estão na mesma época no ar e, de certa forma, é uma concorrente.

iG: A temática das duas novelas é completamente diferente e enquanto a global conta com duas vilãs e outras histórias densas, a da Record, como você disse, aposta no drama familiar. Você sabia que “Babilônia” seria assim e que “Dez Mandamentos” poderia acabar como uma alternativa?
Alexandre Avancini: Eu, pelo menos, não sabia de 'Babilônia'. Estava pensando no nossos projeto (as primeiras reuniões aconteceram em fevereiro de 2014).

iG: Pode se dizer então que foi uma coincidência duas novelas em horários parecidos com tramas tão distintas?
Alexandre Avancini: Sim, foi uma feliz coincidência.

iG: Você já tinha dirigido outras produções na Record, entre elas a minissérie José. Isso ajudou para “Os Dez Mandamentos”?
Alexandre Avancini: Me deu muita segurança quando surgiu a ideia de fazer uma novela bíblica. O mais difícil, além de retratar um período bem mais rico do Egito, é ser uma novela. Em José a gente gravava oito cenas por dia e agora tem que gravar 20. É o projeto mais difícil que eu já fiz, sem sombra de dúvida. A gente vive no Rio de Janeiro e a novela se passa no Egito. Se estou fazendo um empresário, você compra um terno em uma boa loja e pronto. Aqui não. Absolutamente tudo tem que ser produzido. O que me ajudou na reconstrução dessa história é que eu estive em Israel na época de José e agora fui ao Egito. Isso é muito bom para o diretor. In loco você vê a cara das pessoas, sente.

iG: Alguma produção o inspirou para essa novela?
Alexandre Avancini: Eu peguei todos os filmes sobre os Dez Mandamentos, mas a maioria deles está muito antiga. O “Êxodo”, de Ridley Scott, por exemplo, vai para uma praia muito diferente da nossa. Mas no filme, os eventos naturais são enormes e isso vai nos guiar também, na grandiosidade dos efeitos. O filme da década de 60, de Charlton Heston, marcou muito. A gente é mais esse estilo, nesse conceito.  A gente usou também “Game of Thrones” muito como referência, primeiro para “José” e agora também.

iG: Mas “Game of Thrones”, apesar de também ser de época, não tem nada a ver com um tema bíblico. Como relacionar as duas?
Alexandre Avancini: A gente usava em “José” o mesmo equipamento que eles para captação. Agora a gente usa uma câmera que é muito parecida e usamos as mesmas lentes que (são usadas) em “Games of Thrones”. E a série não é só referência em fotografia, mas também em estilo de produção. Uma coisa é ver como espectador e a outra é entender como eles viabilizam uma produção deste tamanho, com vários cenários diferentes como o nosso caso.

iG: Como tornar uma história conhecida, como a de Moisés, atraente?
Alexandre Avancini: A trajetória do nosso herói é muito detalhada e as viradas são muito importantes e emocionais. O grande diferencial é esse grau de detalhamento nas relações humanas, de poder, de religião.

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