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Atriz vive uma viciada soropositiva em “Uma Noite Não é Nada”. Contracenando com Paulo Betti, ela fala das dificuldades de viver o papel

Em “Uma Noite Não é Nada”, Luiza Braga vive a jovem Márcia, que enfrenta diversos traumas, e encontra conforto em Agostinho ( Paulo Betti ). A personagem é soropositivo e viciada em cocaína injetável, que acaba se envolvendo com seu professor no supletivo que faz para completar os estudos.

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Luiza Braga

Desinibida sexualmente, ela não tem medo de instigar o docente a se envolver com ela. Com todas essas características, foi muito o trabalho que Luiza Braga teve para criar a personagem. “A Márcia é uma personagem extremamente complexa, cheia de cenas difíceis de serem feitas: consumo de drogas, abuso, sexo”, explica.

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A atriz fez uma extensa pesquisa, que contou com a colaboração da preparadora de elenco Nara Sakarê. A primeira etapa do processo foi a vivência em abrigos, que Luiza relembra, foi intenso: “Eu visitava duas vezes por semana e passava o dia com elas. A ideia era entender o que leva essas pessoas ao consumo desenfreado da droga a ponto de perderem sua própria identidade”, explica.

Para ela, essa convivência foi necessária para criar a personagem o mais real possível. O que significa desenvolver uma moça sem perspectiva, sem sonhos, assim como as mulheres com quem ela conviveu.

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Como Márcia em "Uma Noite Não é Nada", ela vive uma viciada em drogas

Como viciada e portadora do vírus HIV, ela buscou em universidades conhecimento teórico sobre o assunto. “A minha pesquisa iniciou com um médico, professor da Unicamp, que é especialista no vício de cocaína injetada - como a personagem usa - e que também me deu as primeiras informações acerca do vírus e de como os estágios de degradação do organismo vão acontecendo”, conta.

Conhecer esse mundo também a fez se deparar com outra realidade: “elas são quase uma bomba relógio. E esse estado de iminência de explosão, de transbordamento, foi o que eu mais busquei trazer para a personagem”, completa. O fato do filme se passar nos anos 1980 ajuda a expandir esse conceito de morte iminente, conta Luiza. “Ser soropositivo na década de 80 era bem diferente do que é hoje”.

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No set

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Com Paulo Betti em cena do filme

Com tantos conceitos para explorar, Luiza explica que era essencial ter um set onde ela se sentisse segura. “Era preciso construir um ambiente de segurança no set para que a gente conseguisse filmar e chegar num resultado bacana”. Ela elogia o parceiro de cena, Paulo Betti, por ajudar a criar este ambiente: “O Paulo realmente me acolheu no set e acho que esse trabalho só foi possível porque conheci um parceiro de cena e amigo que trocou comigo (...) me ajudou a ter segurança para dar vida à Márcia”, enaltece a atriz.

A experiência no cinema fez Luiza conhecer um novo mundo, mas não o suficiente para migrar para outras funções. Perguntada se ela se vê como diretora ou em outros cargos, ela diz que “se vê muito atriz” para isso.

Ainda assim, ela não descarta contar sua própria história, e diz que tem “rabiscado algumas coisas”, sem entrar em detalhes sobre qual história gostaria de contar.

No teatro, ela se uniu a um grupo de mulheres para lançar uma peça, NINHO, que deve estrear no começo de outubro. A produção é dirigida por duas mulheres, Fernanda Viacava e Chris Ubach, e tem, além de Luiza, Fran Lipinski e a Patricia Cretti no elenco.

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Luiza Braga

Luiza se alegra no encontro com outras mulheres, e conta que isso permite debater sobre assuntos antes deixados de lado: “Nós falamos sobre o ambiente supostamente seguro da família e sobre as violência e opressões, muitas vezes veladas, que acontecem aí. Abusos, pedofilia, violência”. Ela diz que um dos objetivos do espetáculo é abrir a cabeça das mulheres para conceitos estereotipados de família e as muitas violências que isso às vezes pode esconder.

Luiza ainda tem grandes planos para o teatro, como a Casa Laço, projeto que ela criou com uma amiga há cinco anos, e que em 2019 ganhou espaço físico em São Paulo: “lá oferecemos aulas de teatro, dança, música e yoga para crianças e adultos. Temos programações aos finais de semana e saraus”, conta.

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No cinema, ela estreia outro filme em 2020, “Helen” e não descarta participar de projetos na TV aberta: “adoraria trabalhar em uma novela. A televisão é o veículo mais popular no Brasil. É o lugar onde qualquer artista consegue atingir um público grande”, conclui Luiza Braga , que ainda tem um projeto misterioso que começa a ser gravado no começo de 2020.