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Rita Ribeiro, curadora da mostra de Stephen King, fala sobre a relevância do escritor no terror e em como é difícil adaptar as obras para as telonas

Tudo começou com uma garota solitária, filha de uma fanática religiosa, vítima de humilhações na escola e dotada de poderes paranormais. A história de “Carrie, a estranha” (1976), dirigida por Brian De Palma e encarnada pela atriz Sissy Spacek, aterrorizou uma geração de espectadores — desde então, foram muitas as versões para cinema e televisão de obras do americano Stephen King, hoje um dos mais populares autores de terror (embora ele não se restrinja ao gênero).

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Stephen King terá ciclo de filmes exibidos no CCBB do Rio de Janeiro arrow-options
Reprodução/Instagram/@stephenking
Stephen King terá ciclo de filmes exibidos no CCBB do Rio de Janeiro

Mais de 40 adaptações compõem a mostra “  Stephen King  : O medo é seu melhor companheiro”, em cartaz até 19 de agosto no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro — do clássico “O iluminado” (1980), de Stanley Kubrick, ao mais recente “Pacto maligno” (2014), de Peter Cornwell.

Coordenadora de pós-graduação em Design da Universidade do Estado de Minas Gerais e curadora da mostra com Breno Lira Gomes, Rita Ribeiro vai ministrar a masterclass “O horror que nos rodeia: da literatura para o cinema” terça (6) e quinta (8), das 14h às 16h, com inscrições gratuitas pelo email stephenkingccbb@gmail.com.

Estará também no debate “A literatura de terror no cinema”, que acontecerá em seguida à exibição de “Louca obsessão” na próxima quinta-feira (15) às 17h30, ao lado da tradutora Regiane Winarski, do escritor Raphael Montes e do cocurador Lira Gomes. Este último ministrará ainda a palestra “Construindo a retrospectiva Stephen King: curadoria e produção”.

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Divulgação
Rita Ribeiro, curadora da mostra "Stephen King: o medo é o seu melhor companheiro"

Durante entrevista, a curadora Rita Ribeiro explica como King continua sendo tão fascinante. "'Carrie, a estranha' é essencialmente uma história sobre bullying. Muitos de nós já passamos por humilhações parecidas na escola. No final do livro, quando Carrie finalmente se vinga dos colegas, você também não se sente vingado?", questiona.

"King entende a psique humana e usa isso como ferramenta. Ele se sobressai na literatura do gênero porque seu foco não está nos monstros que cria, e sim nos medos e incômodos do ser humano. É um observador de pessoas e já foi professor, profissão que exige uma dose extra de generosidade", conclui.

O bullying é tema recorrente também em "It, a coisa", que foi publicado em 1986 e o escritor mostrou o palhaço como um medo: "O interessante é que o palhaço nunca é chamado de palhaço, mas de 'a coisa'. Ou seja, é um monstro demoníaco, uma manifestação de um medo primário e infantil".

"As crianças que combatem Pennywise são conhecidas como 'perdedoras', então aí também há o componente de revanche com o qual nos identificamos. Elas são aterrorizadas por outras pessoas, até que se juntam para derrotar um mal maior. Existem monstros dentro dos nossos armários, aqueles embaixo da cama. Com o tempo esquecemos deles, mas isso não significa que foram totalmente embora. Às vezes, afloram", explica.

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Divulgação
"It: A coisa"

Rita é questionada se o cinema de terror seria a mesma coisa sem os livros de King. "Nem o cinema, nem a TV. 'Stranger Things', com aquele clube dos meninos , é basicamente um 'It' com outro tipo de monstro. Agora, adaptar os livros dele é muito difícil. Considero 'A torre negra' uma obra-prima, mas o filme lançado em 2017, com Idris Elba, é um demérito, ruim mesmo, inclusive deixamos fora da mostra de propósito", conta.

Sua resposta instiga a curiosidade em saber o motivo de ser tão difícil adaptar os livros de Stephen para o cinema. "Quando se preocupam em fazer um filme somente de susto ou medo, a essência da obra desaparece", conta. 

Em setembro a segunda parte de "It" chega aos cinemas e no mês de novemrbo "Doutor Sono", que é a sequência de "O iluminado", assusta a todos em novembro. Rita é questionada se o escritor estaria na moda: "Tanto está que a gente idealizou essa mostra em 2016, mas só agora foi possível realizá-la". 

"Dez anos atrás nossa referência ainda era José Mojica Marins , o Zé do Caixão , mas isso mudou. Por fim, o desencantamento das pessoas diante do mundo faz com que elas busquem refúgio no gênero, porque lá encontram histórias ainda piores, digamos assim", conclui.

Rita também revela que seu primeiro contato com as obras de Stephen King faz alguns anos e que isso aconteceu durante uma aula, quando citou o filme "Um sonho de liberdade" (1994) e uma aluna questionou "se já havia lido alguma coisa dele": "Peguei 'Saco de ossos' (1998), apesar de achar o nome feio. Ele abre descrevendo o AVC da mulher do protagonista. Fiquei chocada com a intensidade do texto, enlouqueci. Comprei todos os livros, revirei sebos. Já li todas as obras lançadas no Brasil".