Tamanho do texto

"A Sombra do Pai" flagra família de classe baixa em fase de deterioração e apela ao sobrenatural de maneira lúdica. Veja entrevista com equipe do filme

É difícil dizer que o segundo filme de alguém é o mais pessoal. Até porque se supõe que, em um universo de dois filmes, essa honra caiba ao primeiro. Não é bem assim e Gabriela Amaral Almeida pode provar.

Leia também: Com deferência a Stephen King, "A Sombra do Pai" faz terror melancólico e social

Cena do filme A Sombra do Pai
Divulgação
A atriz Nina Medeiros em cena de A Sombra do Pai

“A Sombra do Pai” é um filme que a acompanha desde a escola de cinema. “Esse roteiro está em um lugar de experimentação e aprendizado”, informa a cineasta. “Desenvolvendo a ideia tive a oportunidade de escrever para outros diretores (Walter Salles, Cao Hamburger e Marco Dutra, entre eles) e fazer ‘O Animal Cordial’”.

A diretora conta que decidiu que era o momento de filmar o projeto, “com essência ‘Stephen kingiana’” porque um artista não pode deixar que um projeto amadureça demais. Foram dez anos até que “A Sombra do Pai” começasse a ser rodado. O longa começou a circular por festivais de cinema no momento em que o primeiro filme de Almeida chegava ao circuito comercial.

Leia também: Kleber Mendonça Filho tem 30 dias para devolver R$ 2,2 milhões ao Governo

No longa, Julio Machado vive um homem que vai sendo dominado pela amargura e que se abala ainda mais após a morte de um colega na construção em que trabalha como pedreiro. Sua filha, papel de Nina Medeiros, é fã de filmes de terror e vendo o sofrimento e distanciamento do pai começa a acreditar que pode trazer a mãe de volta à vida.

Gabriela Amaral Almeida
Divulgação
A diretora Gabriela Amaral Almeida

“Nina era uma criança muito disposta ao jogo e muito resistente e isso era algo importante porque a personagem é o esteio do filme”, diz Almeida, que elogia a fisicalidade da menina. Fisicalidade é outra palavra que importa e foi algo que Machado buscou detidamente para seu personagem. “Que corpo exaurido era aquele? Que corpo oprimido pela mecânica do trabalho é esse? Ele não se afeta muitos pelos encontros. A gente se voltou para essa investigação”, relata o ator.

Machado observa que o que mais o atraiu em seu personagem foi justamente exercitar essa “questão para nós homens que é não se permitir sensível, não se deixar afetar por determinados encontros”. Investigar essa “masculinidade impermeável” dentro de um exercício de gênero foi sedutor para o ator, que atualmente está no ar em “Malhação: Toda Forma de Amar”.

Leia também: Keanu Reeves explica franquia "John Wick" em 60 segundos em vídeo bem-humorado

Almeida admite que “A Sombra do Pai” busca o contraponto entre essa feminilidade sensitiva e essa masculinidade refratária. A diretora acrescenta que o potencial alegórico do gênero é ideal para traduzir todo tipo de ansiedade.