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Legião Urbana, Raul Seixas e Queen continuam na mente e no coração dos brasileiros, que se mostram saudosos quando o assunto é rock’n’roll

A poesia de Renato Russo segue viva. Os vocais potentes de Freddie Mercury também. Há amor pelos Beatles e o Pink Floyd continua no coração dos fãs de rock. Pelo menos é isso que dizem os dados do Google, que mostram que artistas e bandas antigos se mantêm no topo das pesquisas do buscador. No Dia Mundial do Rock os dinossauros seguem imbatíveis como as maiores referências do gênero no Brasil.

integrantes do coldplay no palco arrow-options
Reprodução/Instagram/@coldplay
Coldplay é uma das poucas bandas ativas na memória dos brasileiros

O Google fez uma série de análises a pedido do iG Gente para verificar o interesse dos brasileiros pelo gênero mais barulhento da música. A conclusão é que quanto mais antiga a banda de rock , melhor. Artistas já mortos ou que não lançam nada há anos continuam somando fãs, principalmente o Legião Urbana , que tinha em Renato Russo um porta-voz de uma geração.

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Afinal, o Legião nunca esteve tão atual quanto em 2019. “Talvez não tenham musica mais simbólica que Que País é Esse ”, comenta Marcelo Costa, editor do site Scream & Yell. No entanto, ele lamenta a falta de novos artistas e frisa que os nomes mais buscados são todos da década passada. “Demonstra o quanto a gente se desconectou do rock”, acredita.

legiao urbana arrow-options
Divulgação
Amados! A banda de rock Legião Urbana é uma das mais pesquisadas pelos brasileiros no Google

Não que o movimento não tenha representantes nos dias de hoje. Tim Bernardes, junto com O terno, pode facilmente ocupar o posto de Renato, mas Marcelo acredita que as novas ferramentas e tecnologias para consumo de música afetam esse resultado: “Acho que é reflexo do mundo em que vivemos. O público novo consome muita coisa no randômico e vai pulando”, explica. Essa falta de foco, consequência da imensa quantidade de oferta, faz com que os jovens não tenham mais fidelidade aos artistas como antigamente.

*Metodologia: a partir da análise de 10 mil artistas brasileiros e internacionais, chegou-se a uma lista de 542 nomes com interesse mínimo de busca no Brasil nos últimos 12 meses. Essa lista passou então por uma curadoria da reportagem do iG, que selecionou 310 nomes para o ranking final por estado. Não inclui Queen ou Freddie Mercury, devido a interferência que o filme “Bohemian Rhapsody” teria no resultado

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Dinossauros

A expressão “dinossauros” é comumente usada para bandas do passado justamente pela questão temporal, mas há uma outra maneira de ver: muitos dos ídolos ainda pesquisados e admirados já se foram.

Ao todo, somente oito artistas ou bandas, quatro nacionais e quatro internacionais, ocupam as três primeiras posições da pesquisa em todos os 26 estados, além do Distrito Federal. Entre eles, apenas Coldplay, Nando Reis e Lulu Santos seguem na ativa. Beatles e Pink Floyd têm membros que seguem se apresentando, inclusive com shows no Brasil, como Paul McCartney e Roger Waters, mas não existem mais como banda. A lista inclui ainda Elvis Presley e Raul Seixas, já mortos, e Legião Urbana, cujo vocalista e principal compositor Renato Russo também já morreu.

Curiosamente, outro “dinossauro” não está na lista, a banda Rolling Stones. “O azar dos Stones é que eles não acabaram”, brinca Marcelo sobre o grupo que segue na ativa, lançado discos e fazendo turnês pelo mundo. Para ele, a nostalgia é parte importante do resultado, cheio de velharias.

Entre os nomes do século passado, porém, um reina absoluto: Queen. A banda, que ganhou um filme em 2018 sobre sua história, teve que ser excluída dos resultados do último ano, justamente porque “Bohemian Rhapsody” influenciou as pesquisas (tabela abaixo).

tabela com dados sobre pesquisas referentes a bandas de rock arrow-options
iG Gente/Google
Impulsionado por filme sobre a carreira, Queen foi a banda mais buscada em todo o Brasil entre 10/07/18 e 10/07/19


É do Brasil

Em geral, as bandas e artistas brasileiros estão em alta. Tirando parte da região Sul, São Paulo e o Distrito Federal, todos os outros estados têm brasileiros em primeiro na lista, seja Lulu Santos no Rio de Janeiro e Pernambuco, ou o Legião, líder de buscas em 13 estados, até Raul Seixas dominando outros oito. Curiosamente, a banda de Renato Russo aparece em alguma posição ao redor do Brasil, menos na região Sul e em São Paulo.

No nordeste, diversos estados privilegiaram apenas nomes nacionais e Maranhão, Piauí, Ceará Bahia e Alagoas só têm artistas brasileiros no ranking, inclusive Nando Reis, que aparece no Piauí e Ceará.

lulu santos cantando e tocando no palco
Reprodução/Instagram/@lulusantosoficial
Lulu Santos

Os Beatles, surpreendentemente, quase não lideram na lista. Eles surgem em primeiro apenas no Rio Grande do Sul, enquanto Pink Floyd é o favorito nas pesquisas do Distrito Federal. Elvis Presley é o outro nome internacional a ocupar o primeiro lugar em apenas dois estados: São Paulo e Paraná.

Rock adormecido

Todo ano, por volta do Dia Mundial do Rock , o debate sobre se o gênero acabou retorna. De fato, o estilo não é mais o mesmo, mas isso não significa decadência, mas sim transformação e estabilidade, ao mesmo tempo.

Transformação, pois o rock hoje, principalmente o nacional, agrega outros elementos e estilos musicais. É assim, por exemplo, com o BaianaSystem, um dos principais nomes a surgir nos últimos anos. Por outro lado, enquanto passa por rompantes a cada geração, o rock se estabelece como ritmo celebrado, assim como aconteceu com o jazz. “Sempre vai haver rock. De tempos em tempos vai surgir uma banda que vai representar aquele momento e trazer consigo outras bandas”, explica Marcelo.  

Ele exemplifica com o Strokes, símbolo no “novo rock” no começo dos anos 2000, e que marcou uma geração ao lado de Interpol e The Killers, entre outros. “O rock passa bem”, conclui o especialista em música.

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Se Renato Russo tinha sede de falar sobre um país em reconstrução, Russo Passapusso fala com maestria (e ginga) do Brasil de hoje. Se a banda, e suas contemporâneas do rock entrarão nessa lista nos próximos anos só o tempo dirá, mas talento para perpetuar a palavra dos que vieram antes não falta.