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Cantor marcou a história da música com sua brilhantina, mas acusações de abuso sexual e imagem bizarra tiram o foco e prejudicam seu legado

Depois que a gasolina do carro acaba, um casal é obrigado a continuar o passeio a pé através de uma floresta escura, um cenário sinistro em contraste com o romance anunciado. O jovem, empolgado com o momento a sós com a amada, confessa seu amor e pede a menina em namoro. Assim que ela aceita, porém, ele tem um segredo para contar: quando a lua fica cheia, ele se transforma em lobisomem. Poderia ser uma cena de filme de terror, mas são os primeiros três minutos de Thriller , videoclipe de Michael Jackson lançado em 1983.

michael jackson cantando
Reprodução/Youtube
Michael Jackson

O que vem a seguir o mundo já conhece: MJ se transforma em zumbi e, com seu conjunto de couro vermelho, dança uma das coreografias mais conhecidas e reproduzidas do mundo. Fazia pouco mais de um ano que o disco “Thriller” havia sido lançado, e a música que deu nome ao álbum foi o sétimo single a emplacar nas paradas. Mas foi também o que transformou a carreira de Michael Jackson para sempre.

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Antes disso ele já tinha produzido uma série de sucessos, como Beat It , Billie Jean , além de Don’t Stop ‘Til You Get Enough e Rock With You , do disco “Off The Wall”. Aliás, quando Thriller foi lançado, Michael já era um ícone desde sua infância, quando brilhava à frente do Jackson 5. O clipe, porém, elevou o artista a um novo patamar, um que o faz, 10 anos após sua morte, tão celebrado como foi em vida.

Trhiller: o primeiro legado do Rei do Pop

cena de thriller
Reprodução/Youtube
Thriller

“Visionário”, “o maior artista pop”, “herói”. São muitas as alcunhas que Jackson recebeu ao longo da carreira quando o assunto era música. Michael quebrou barreiras e somou competências nunca vistas antes em um único artista. “Não houve ninguém igual, que conseguisse somar tantas revoluções em um nome só”, comenta Pablo Miyazawa. O jornalista foi editor-chefe da Revista Rolling Stone e acompanhou de perto os passos do artista, desde o surgimento do ídolo, até o declínio e inesperado fim.

Pablo o choque ao ver Michael como um zumbi dançando ao lado de outros monstrosquando ainda tinha cinco anos: “ele era quase um herói”. Aquelas imagens, que fariam de Thriller um dos videoclipes mais icônicos da história, marcaram a infância de muita gente e, para muitos, significou o nascimento de um ídolo.

Cantar não era suficiente para Michael. Ele queria usar todos os recursos necessários para impressionar, encantar, chocar, escandalizar e, no fim, merecer o status de “herói”. “Eu lembro que minha mãe colocou um show dele e fiquei encantado de ver aquele homem. Pelos efeitos especiais, o moonwalk. Eu era fã dos super-heróis, Batman, Superman, por que tinham poderes, voavam. Quando eu vi um artista fazer todos os personagens no palco, perdi até o interesse nos super-heróis”, relata Jonathan Crociatti. Fã de carteirinha de Michael, escreveu “Michael Jackson: 50 anos do Rei do Pop” em 2009, pouco depois da morte do cantor.

Crociatti fala que Michael sempre buscou estudar os grandes, como James Brown e Fred Astaire, mas sem a prepotência de superá-los, mas sim conhecer seus métodos. Ele queria estar entre os melhores, e por isso dava tudo de si.

Se o trabalho com os irmãos na infância o colocou no mundo da música, a carreira solo o estabeleceu como o novo nome da música negra americana. Com Thriller , porém, ele quebrou essas barreiras. Dirigido por John Landis (“Os Irmãos Cara de Pau”), o videoclipe é considerado uma obra audiovisual e foi o primeiro clipe a ser incluso no Registro Nacional de Filmes da Biblioteca do Congresso americano.

A partir de então, muitos diretores apostaram seus dons com videoclipes, transformando os vídeos em uma indústria. Spike Lee, Spike Jonze, Martin Scorsese, James Cameron, Robert Rodriguez, Paul Thomas Anderson, Gaspar Noé, Tim Burton e David Fincher são alguns dos diretores que seguiram os passos de Landis nos anos seguintes e dirigiram clipes.

Estreando na tela pela MTV, Thriller foi responsável por quebrar barreiras raciais na emissora e estabelecê-la como um canal de videoclipes. Se hoje um videoclipe mostra marcas de produtos de tecnologia, camisinhas ou até cerveja, é tudo por que um dia MJ quis fazer algo nunca antes visto nos clipes.

Espetáculo

Hoje o Super Bowl é bastante conhecido, e o show da final gera curiosidade até mesmo para quem não é fã de futebol americano. Mas, para isso acontecer, a NFL contou com uma performance histórica de Michael em 1993, 10 anos após Thriller .

Até 1992 eram as bandas marciais que ocupavam os intervalos dos shows, mas após a baixa audiência, o Rei do Pop foi convidado para se apresentar. Em um show hoje icônico, ele transformou o espetáculo no negócio que é hoje, rendendo US$5 milhões a cada 30 segundos para anunciantes.

Nada disso seria possível se Michael, que não recebeu nada pela apresentação, não subisse na estrutura montada no intervalo para apresentar sucessos como Billie Jean e Black or White . Em 2016, 24 anos depois, Beyoncé surgia com um figurino inspirado em MJ para apresentar Formation no show protagonizado pelo Coldplay.

Curando o mundo

michael jackson cantando
john gunion/divulgação
Michael Jackson

Se ele não recebeu um centavo por sua apresentação no Super Bowl, ele pelo menos obrigou a organização a fazer uma doação de US$ 100 mil a Heal The World, sua instituição de caridade. “Ele tinha essa coisa de tentar mudar o mundo através da musica e através do dinheiro”, comenta Jonathan. Para ele, Michael queria, de fato, curar o mundo, e tentou fazer isso tanto por meio da filantropia, quanto com a sua música.

Eu vejo as crianças nas ruas / Sem ter o que comer / Quem sou eu para ficar cego / Fingir que não vejo suas necessidades ”, cantou em Man in The Mirror . No ano 2000 o astro entrou para o Livro dos Recordes como um dos artistas que mais doou em sua carreira, superando US$ 300 milhões.

“A única pessoa que posso realmente pensar quando penso em caridade é Michael Jackson”. A frase é de Chance The Rapper, de 26 anos. Natural de Chicago, nos EUA, ele citou o ídolo como exemplo depois de criar um fundo que em 2017 arrecadou US$ 3,2 milhões para escolas públicas de sua cidade natal.

Em 1985, Michael participou da gravação de We Are The World , ao lado de diversas estrelas. Ele escreveu a faixa com Lionel Richie e os dois recrutaram 45 artistas, como Stevie Wonder, Tina Turner, Diana Ross, Bruce Springsteen e Bob Dylan, para gravar a canção em prol da erradicação da fome no continente africano.

A filantropia, claro, não é uma invenção de Jackson. Mas ele foi um dos primeiros artistas a fazer grandes doações para diversas causas, que ele dizia ser consequência dos problemas que via ao viajar o mundo em suas turnês.

Carreira em jogo

michael jackson
Reprodução/Youtube
Michael Jackson colocou filho mais novo para fora de janela

Com a Heal The World, Michael pôde arrecadar milhões para ajudar pessoas, com o foco em crianças em situação de risco e doentes. Seria um legado imaculado não fossem as acusações de abuso sexual de crianças. Em 1993 veio a primeira acusação de abuso, mas ele não chegou a ser indiciado e um acordo extrajudicial foi feito.

A popularidade do astro estava mais alta do que nunca na época e, apesar de cancelar uma turnê depois que o jovem de 13 anos o denunciou, a acusação não chegou a afetar sua reputação. Foi só em 2003, 10 anos depois, que ele foi incriminado pela primeira vez. Dessa vez o cantor foi a julgamento e acabou inocentado.

Entre “Thriller” em 1982 e a segunda acusação de abuso sexual em 2003, a carreira (e a fisionomia) de Michael se transformaram muito. Em 1987 quando lançou o disco “Bad”, Jackson estava visivelmente mais claro. Ainda assim, sua personalidade mutante causou mais admiração do que estranheza.

Nesse período existiam muitas “lendas” sobre ele, coisas absurdas como o fato de que ele teria tirado um pedaço no nariz em uma cirurgia e o guardado em casa. Parte disso era pura exploração da mídia em cima de sua excentricidade, mas parte era alimentada pelo próprio. Enquanto sua pele clareava, ele só admitiu sofrer de vitiligo em 1992, cinco anos após sua aparição “branco” no clipe de Bad .

Para Pablo, essa figura do Michael exercia fascínio junto ao público e a mídia, mas isso não significa que o próprio não alimentava essa atenção. “Quando saíram acusações, demorou para acreditarem. Mas ele era de fato mais estranho que outras pessoas em evidência e a mídia se alimentou disso”, comenta o jornalista.

“Ele colaborava para a mídia e opinião pública ter interesse maior na vida dele. Vivia uma vida privada que era muito diferente de qualquer pessoa. Ele fazia coisas que atravessavam o limite do que a celebridade pode fazer. Na época que ele reinou só ele fazia essas coisas”, completa.

Pablo se refere, entre outras coisas, ao zoológico e parque de diversões que instalou em sua propriedade, a famosa Neverland, na Califórnia. Além disso, o artista estava sempre acompanhado de crianças, e a percepção geral era de que ele também era um menino que nunca conseguiu crescer.

A história de abuso de seu pai, Joe Jackson é conhecida. Tanto Michael como os irmãos já confessaram que o pai os forçava a ensaiar por horas e até batia nos meninos buscando perfeição. O resultado foi um dos artistas mais celebrados da época, e uma criança problemática que se tornou um adulto também problemático. As polêmicas, crises, doenças e atitudes questionáveis o cercaram por toda a vida adulta, e seguem chamando atenção até hoje, 10 anos após sua morte.

Em Thriller , como lembra Pablo, Michael já mostrava que era um ser em transformação. Como consequência, anos depois quando ele retornou com “Bad”, o cantor já havia se tornado outra coisa. Branco, com olhos claros e plásticas no nariz, ele encarnava uma nova persona: “Como se ele fosse um personagem dele mesmo”, comenta Pablo.

Mas essa pressão do pai também se transferiu para o Michael adulto: “o legado (dele) é o perfeccionismo para dar o melhor ao fã”, acredita Jonathan. Para ele, Michael acreditava em dar 100% a cada apresentação, garantindo shows perfeitos. A pressão para tanto, porém, foi desgastante para o cantor. Em meio a dívidas, as 50 apresentações de “This is It” que faria em Londres a partir de julho de 2009 o tirariam da crise financeira.

Peter Pan

“Peter Pan representa algo muito importante no meu coração: juventude, infância, magia, voar. Eu sou o Peter Pan”. Michael disse isso em uma entrevista para o documentário “Living With Michael Jackson”. O polêmico filme mostra o jornalista Martin Bashir acompanhando Michael por um período de oito meses entre 2002 e 2003.

Embora o filme seja controverso e sofra acusações de manipulação por parte do jornalista, acabou por aumentar ainda mais a imagem de excêntrico do cantor. Nessa época ele já tinha tido os três filhos, Prince e Paris com Debbie Rowe e o mais novo Blacket com uma mulher que serviu como barriga de aluguel.

Em novembro de 2002 ele virou notícia após segurar o filho mais novo para fora de uma sacada de hotel na Alemanha, com o objetivo de mostrar o filho (com o rosto coberto) para os fãs aglomerados abaixo. Na música, ele estava em uma disputa com a Sony e “Invincible”, primeiro disco de inéditas em 10 anos, foi um fracasso de críticas e vendas (comparado com os trabalhos anteriores).

Quem acompanhou o Michael de Thriller tinha uma percepção artística do cantor diferente das gerações seguintes, mais acostumadas as suas polêmicas. “Hoje as pessoas não lembram mais das músicas. Ele é mais lembrado pelo bizarro”, acredita Pablo. Sua opinião, porém, não é unânime: “Se pegar uma criança de seis anos de idade e colocar o show do Michael Jackson, muito provavelmente ela vai gostar do que estava vendo, e vai crescer querendo saber que música é aquela”, diz Jonathan.

Para ele, os fãs mais recentes podem até conhecer o bizarro, mas terão discernimento para separar isso da carreira artística. Ainda assim, a visão de Michael Jackson exposta na ficção nos últimos anos não é das melhores.

Deixando Neverland: além do bizarro

michael jackson
Divulgação/HBO
Michael Jackson em cena do documentário "Leaving Neverland", que aborda supostos abusos sexuais cometidos pelo Rei do Pop

O estilo de vida que Michael levava pode até ser considerado “bizarro”, mas são as muitas alegações que pesam sobre ele que podem de fato transformar seu legado. No começo de 2019, próximo de completar 10 anos de sua morte, Michael voltou a ser alvo da mídia, novamente por acusações de molestar crianças.

O documentário “ Leaving Neverland ” foca em dois homens que acusam Michael de abuso sexual. As alegações, assim como as anteriores, são questionáveis. Ambos já testemunharam em tribunal e negaram a acusação na época, e os dois são acusados por fãs de Michael de tentar abalar sua reputação: “eles tentam manchar o legado, mas não tem como”, acredita Jonathan.

Na prática, porém, o nome do astro está arranhado . Algumas rádios da Austrália e Reino Unido baniram músicas do cantor depois do lançamento do filme, e até uma estátua erguida em sua homenagem foi removida de um museu britânico. O produtor que trabalhou com Michael, Rudi Dolezal, deu entrevista a um jornal britânico dizendo que acreditava no conteúdo do filme e ainda acrescentou: “É difícil acreditar que um ícone não seja mais um ícone”.

Pablo Miyazawa concorda que o status de “ícone” de Michael perdeu validade: “O legado do Michael envelheceu mal por tudo que ele construiu ao longo da vida. Apesar do talento e das realizações artísticas, as outras coisas envelheceram mal”, analisa.

“É diferente falar do Michael hoje e falar em 2009. Os escândalos que vieram depois, a própria morte, a áurea negativa que a carreira teve, a transformação bizarra no final da vida, tudo isso contribuiu para afetar seu legado”, conclui.

Nova chance

Sem provas, a não ser que alguém do círculo de Michael mude seu depoimento, nunca saberemos o que realmente houve entre Michael e as crianças que o rodeavam. Também não saberemos se ele de fato conseguiria reerguer a carreira com “This Is It”.

“Um dia as pessoas ainda vão descobrir que o cara não fez nada daquilo que as pessoas imaginaram. Um dia vão aparecer as pessoas que vão mostrar o verdadeiro Michael e aí vão saber o bem que ele fazia para as pessoas, o quanto ele ajudava as pessoas”, deseja o radialista Silvio Ribeiro, que comanda o “Energia da Véia” da Rádio Energia 97 .

Silvio não está sozinho em seu desejo. Os fãs fieis sonham que as acusações fiquem para trás, e a brilhantina artística de Michael Jackson prevaleça. Para isso, porém, ele tem que “renascer”. Seja no imaginário das pessoas, ou até mesmo em sua representação artística, só um novo olhar e seu redescobrimento podem salvar seu legado de si mesmo.

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