Tamanho do texto

Série antológica da Netflix se despede revisitando seis tramas de anos anteriores para prover algum encerramento para aqueles personagens

Uma das melhores séries que ninguém vê na Netflix, “Easy” está de volta para sua terceira e última temporada. A antologia sobre relacionamentos afetivos, por força da nossa necessidade de rotular uma antologia tão diversa e multifacetada como esta criada por Joe Swanberg, se incumbe mais de prover algum fechamento para histórias iniciadas nas outras duas temporadas do que em ofertar novas – são apenas duas novidades.

Easy
Divulgação
Casal com relação aberta enfrenta problemas na terceira temporada de Easy

Os oito episódios que compõem o terceiro ano primam pela qualidade dos diálogos e são irmanados neste impulso de prover certo encerramento para as histórias que nos tocaram na primeira e segunda temporadas de “Easy” .

Leia também: Com muito sexo e DRs, "Easy" faz retrato sutil das relações amorosas modernas

É o caso de “Deslize para a direita” e “Deslize para a esquerda”, 1º e 5º episódio respectivamente do novo ano. O foco desses episódios são Andi (a excepcional Elizabeth Reaser) e Kyle (Michael Chernus), que ao diagnosticarem a decadência do desejo entre eles toparam abrir o casamento. Nos dois episódios os espectadores são guiados para polos diferentes com os personagens, mas tudo com muito cálculo.

É perceptível que aquela rotina não está produzindo os efeitos desejados no momento em que ela foi aventada. Mas os conflitos arejados, tanto intimamente para cada um desses personagens, tanto para eles como um casal que ainda quer ser funcional, são realmente ricos e bem desenvolvidos. Os atores apresentam rara e feliz compreensão do material escrito por Swanberg e ajudam a dimensionar uma resolução bem fora do lugar comum e francamente estimulante tanto nos eixos intelectual como emocional.

Cena da série Easy
Divulgação
Jacob tem problemas em encarar-se no espelho em episódio da nova temporada de Easy

Outros dois grandes episódios do novo ano trazem velhos conhecidos. Em “Blank Pages”, o egocêntrico e machista ilustrador Jacob (Marc Maron), que no segundo ano entrou em atrito com uma ex-mulher pela forma como ele a reproduzia em uma de suas obras, descobre que uma ex-aluna o retratou de maneira desfavorável em um livro que está para ser lançado. É uma problemática interessante para o personagem desconfortável com a pecha de abusador enquanto reproduz toda uma dinâmica de imaturidade e abuso em uma relação com uma velha amiga.

Leia também: Feminismo, casamento aberto e hipocrisia social são temas do novo ano de "Easy"

Há ainda o episódio final, intitulado “She´s back” com Jake Johnson e Gugu Mbatha-Raw. Ela faz Sophie, a atriz de teatro que encerrou o relacionamento com Drew (Johnson) para perseguir o sonho de virar atriz famosa em Los Angeles. Ela está de volta a Chicago para uma homenagem e um reencontro nada casual mexe com a perspectiva de ambos.

As angústias do fim de uma relação também são foco de “Spontaneous Combustion”. Quando o contrato do aluguel do apartamento em que Jo (Jacqueline Toboni) e Chase (Kiersey Clemons) está perto do fim, a primeira admite não estar preparada para uma relação séria. As reminiscências dessa decisão propiciam um potente comentário sobre os impulsos mais egoístas em uma relação amorosa e também sobre o resguardo necessário antes de se lançar em uma nova.

Alguns pontos baixos

Easy
Divulgação
Uma despedida singela em Easy: Como poderia ter sido?

Em uma temporada marcada por compassos finais, ainda que muito bem dimensionados por um texto tão sagaz quanto delicado, “Easy” também dá suas escorregadas. O retorno à trama dos irmãos cervejeiros é desnecessário e repisa conflitos já esgotados anteriormente. O episódio dedicado a um sujeito de boa lábia que vive entre o crime e o comércio ilegal também parece desconectado da estruturação dramática do restante da temporada, ainda que funcione isoladamente.

Leia também: Os problemas com Bran, o quebrado, como Rei ao fim de “Game of Thrones”

De proposta simples e execução sofisticada, “Easy” é um tipo de série cada vez mais rara na Netflix , alvejada por uma concorrência feroz e ciosa de retenção de um público diverso e de gostos rudimentares. É um produto de rara inteligência e lastro emocional, diferentemente de grande parte da produção audiovisual contemporânea. Sua despedida, altiva sem deixar de ser agridoce, mimetiza muitíssimo bem esse momento cultural.