No momento em que decidiu transformar em série de ficção a Operação Lava-Jato, o diretor José Padilha sabia que estaria diante do fogo cruzado de todos os espectros da política. Afinal, o escândalo de corrupção continua a deixar sequelas e divisões na sociedade brasileira.

Leia também: Selton Mello fala que qualidade do som é melhor na 2ª temporada de "O Mecanismo"

Coletiva
Divulgação
Coletiva "O Mecanismo"

Prova disso, “ O Mecanismo ” gera polêmica mesmo entre os que participaram da produção — no lançamento da segunda temporada, na última segunda-feira (06), no Rio, o ator Enrique Diaz afirmou que a série carregaria a “marca” do discurso antipetista, que determinou a última eleição. No evento, o próprio Padilha teceu críticas ao atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro.

Leia também: "O Mecanismo" dá ritmo de thriller policial à rotina política brasileira

O Mecanismo
Divulgação
Poster 2ª temporada "O Mecanismo"

Retratado na primeira temporada sob luzes positivas, o personagem inspirado em Moro, juiz Paulo Riggo, ressurge nos novos episódios, disponíveis a partir desta sexta-feira (10) na Netflix, seduzido pela fama. Inspirada nos eventos que vão da prisão de Marcelo Odebretch ao impeachment de Dilma Rousseff, a segunda temporada ainda exibe, brevemente, um personagem feito à semelhança do presidente Jair Bolsonaro.

Na conversa a seguir, José Padilha defende sua visão sobre a Lava-Jato e comenta as críticas feitas à série no passado (como a atribuição de uma frase de Romero Jucá ao personagem inspirado no ex-presidente Lula).

Mosca na sopa

“Tem um filósofo, o Ludwig Wittgenstein (1989-1951), que dizia que um pensador é alguém que não faz parte de uma comunidade de ideias. Eu adoro não fazer parte. O que acontece no WhatsApp hoje? Tem grupos de pessoas que pensam igual e ficam mandando mensagens um para os outros concordando. Eu não faço parte de nenhum. Se escrevo para alguém, é para chatear. Eu gosto de ser a mosca na sopa.”

Estancar a sangria

Coletiva
Divulgação
Coletiva "O Mecanismo"

“Vamos ver se vão reclamar agora (após a expressão ‘estancar a sangria’ ser dita por Lúcio Lemes, personagem inspirado em Aécio Neves ). Botamos para chatear mesmo. Quero agora que o PSDB reclame também. (...) Se eu tiver que fazer uma série em que as palavras que os personagens falam são exatamente o que eles falaram na vida real, é um documentário. Eu perguntei para a Elena ( Soarez, roteirista de ‘O mecanismo’ ): você sabia que foi o ( ex-senador Romero) Jucá que falou isso? Ela disse que não se deu conta. Eu também não me dei conta. Isso é irrelevante perto do fato de que a série está dizendo, que o PT e o PMDB desviaram milhões.”

Críticas aos atores

“Tem um patrulhamento ideológico de esquerda e de direita no País. Os atores sofreram bastante com esse tipo de patrulha ideológica porque eles não estão acostumados a ser a mosca da sopa. Eu estou. O Enrique Diaz fez o Alberto Youssef. Não significa que ele é a favor dos doleiros e que ele está subescrevendo as teses ( da série ). Mas as pessoas são simplórias. Cerca de 99% das críticas a que eu tive acesso com relação à primeira temporada foram simplórias.”

Aparição de Bolsonaro

“A gente não sabia que o Bolsonaro ia ser presidente (quando escreveram o roteiro ). A gente teve uma presciência. O voto do Bolsonaro no impeachment da Dilma foi uma coisa tão absurda, tão escatológica do ponto de vista moral e ético, que eu quis fazer um comentário sobre esse voto.”

Todo mundo é ladrão?

Coletiva
Divulgação
Coletiva "O Mecanismo"

“Eu tenho que dizer que não é todo mundo ladrão? É todo mundo ladrão, sim! O PSDB roubou, o PMDB roubou, o PT roubou, é fato. Todos os partidos e coalizões que estiveram no poder operaram o mecanismo. Eu vou mentir porque é perigoso? Eu tenho que falar a verdade. Às vezes a verdade é perigosa.”

O mecanismo quebrou?

“Uma boa parte do mecanismo foi quebrada. As estruturas ficaram expostas. Os políticos foram presos. Tudo isso eu acho salutar para o Brasil. O dinheiro público não pode ser tratado dessa maneira. (...) Dito isso, o mecanismo não está destruído. Já tem o escândalo do partido do Bolsonaro: agora o dinheiro da eleição vem direto do Estado. Só que o partido rouba: investe milhões na campanha de uma pessoa que teve dois votos. Mesma coisa, só tirou o intermediário.”

Leia também: José Padilha diz que Moro está sendo usado como moeda de troca por Bolsonaro

Boicote à Netflix

“A gente não pode falar sobre terceira temporada. Eu sei que a primeira temporada foi super vista, mas eu não sei te dizer os números. Os números mostram que o número de assinaturas aumentou. Teve uma grita por boicote, e ele não aconteceu.”

    Veja Também

      Mostrar mais