Tamanho do texto

Com linguagem moderna e aparência clássica, filme polonês provoca impacto emocional. Longa, que concorre a três Oscars, estreia nesta quinta-feira (7)

Depois do excelente e consagrado “Ida”, ganhador do Oscar de Filme Estrangeiro em 2015, Pawel Pawlikowski retorna com um filme ainda mais espetacular em seus arranjos narrativos e cinematográficos. “Guerra Fria” é uma história de amor triste e potente, uma homenagem aos pais do cineasta, um doloroso comentário sobre o totalitarismo político e, ainda, uma crônica avassaladora sobre o fatalismo social.

Leia também: Pawel Pawlikowski sai da bolha de filme estrangeiro no Oscar 2019

Cena de Guerra Fria, que entra em circuito nesta quinta (7)em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Maceió, João Pessoa, entre outras cidades
Divulgação
Cena de Guerra Fria, que entra em circuito nesta quinta (7)em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Maceió, João Pessoa, entre outras cidades

Indicado a três Oscars (Filme Estrangeiro, Fotografia e Direção), “Guerra Fria” ostenta uma linguagem moderníssima sem deixar o viés mais clássico de lado – ressaltado pela excepcional fotografia em preto e branco assinada por Lukazs Zal.

Pawel Pawlikowski conta essa história de um músico sofisticado e uma aldeã polonesa com talento, carisma e beleza para o canto ao longo de uma década passando por recantos da Polônia, Berlim, a antiga Iugoslávia e Paris. O filme se constrói por meio de elipses que reforçam sua potência dramática.

O longa começa pouco depois do fim da segunda guerra mundial e captura a ascensão do regime comunista e sua crescente interferência na produção artística polonesa, algo que deixa Wiktor, que Tomasz Kot compõe com acenos a Humphrey Bogart, incomodado. Isso e o desejo de viver intensamente o amor que sente por Zula (Joanna Kulig) o fazem querer fugir para Paris.

Cena de Guerra Fria, filme que representa a Polônia no Oscar 2019
Divulgação
Cena de Guerra Fria, filme que representa a Polônia no Oscar 2019

Pawlikowski sublinha sempre com energia irrefreável os paradoxos que habitam esses dois personagens. A maneira como os dois se debatem com seus destinos e, simultaneamente, são senhores de seus infortúnios torna o filme muito mais apelativo emocional e intelectualmente. Existe uma reflexão amplamente existencial desenvolvida pelo cineasta, também responsável pelo roteiro, no curso de seu filme e outra, alinhada à primeira, mas independente dela, essencialmente romântica e descolada da racionalidade que teima em apartar as escolhas ruins que os personagens fazem pelo caminho.

 Leia também: Oscar adota viés mais progressista com escolhas de 2019

Furacão Kulig

Joanna Kulig, um acontecimento em Guerra Fria
Divulgação
Joanna Kulig, um acontecimento em Guerra Fria

A beleza triste da atriz Joanna Kulig é das coisas mais mesmerizantes e impactantes do cinema recente e isso ajuda muito a dilatar a experiência emocional que “Guerra Fria” pretende ser. A polonesa é uma atriz que trabalha muito bem os gestos e expressões, mas carrega uma força interior, bruta, dilacerante, que quando externada para a câmera desarma o espectador completamente.  Isso pode se dar tanto na confissão de um drama pessoal envolvendo seu pai, como em uma cena de dança. Das atuações mais espetaculares da temporada.

Leia também: "Poderia me Perdoar?" tem ótimos atores e crônica tocante sobre a solidão

“Guerra Fria” é um filme que fica com o espectador e, se essa boa e cada vez mais rara característica o abona, o que o torna especialmente singular é a maneira intensa e abrasadora com que dimensiona uma história de amor.