Tamanho do texto

Uma das vozes mais fortes do movimento LGBT, o grupo paulista lança o novo álbum que irá falar sobre força e questionar o que é o amor

Resistência, força e amor - esses são os três pilares do novo álbum do As Bahias e a Cozinha Mineira, ainda sem nome, mas com tudo para ser um dos melhores lançamentos do ano. Considerado uma das vozes mais fortes do movimento LGBTQ, o trio, formado pelos artistas Assucena Assucena, Raquel Virginia e Rafael Acerbi, assinou contrato com a Universal Music e vê que, desde o lançamento do primeiro álbum, de forma independente, como o segundo também, amadureceram e pretendem conquistar cada vez mais espaço. 

Leia também: Com álbum independente e de "resistência", Ana Cañas quer promover o afeto

As Bahia e a Cozinha Mineira falam sobre amor e força em novo álbum
Reprodução/Instagram
As Bahia e a Cozinha Mineira falam sobre amor e força em novo álbum


Fundado em 2011, Assucena Assucena reconhece que As Bahias e a Cozinha Mineira foi amadurecendo pelo caminho, tanto na ideia como também nos discos, revelando que um dos novos projetos é ganhar força nas paradas musicais das rádios brasileiras - e o contrato com a "gravadora abre um leque de possibilidades maior, já que trabalhar com cultura no Brasil é difícil, ainda mais por não termos o Ministério da Cultura". 

"Sempre foi um desejo também compor músicas para rádios. Quero que minha música seja ouvida, sem perder qualidade ou nosso DNA, mas sim conseguir comunicar com as nossas canções", completa a artista. A força das plataformas de streaming também não ficam de fora. "Eu zelo pela veiculação. Eu nunca vou estabelecer qualquer tipo de censura a qualquer veículo. Eu acho que o papel da música é adentrar espaços que os nossos corpos que muitas vezes não adentram", ressalta a cantora que também é travesti. 

As Bahia e a Cozinha Mineira lançam o primeiro single do novo álbum no próximo dia 25
Reprodução/Instagram
As Bahia e a Cozinha Mineira lançam o primeiro single do novo álbum no próximo dia 25

A força de ocupar espaços é um dos principais pilares do terceiro álbum, seguindo o percuso de "Mulher" (2015) e "Bixa" (2017), que de acordo com Assucena Assucena, vem com canções resistentes e um olhar sobre a diversidade brasileira. 

"É uma força interior, força de ter estômago de enfrentar um cotidiano. Pela primeira vez vai ter uma música do Rafael, que além de guitarrista é também um grade cantor. É preciso aproveitar a potencialidade da banda". 

Leia também: Mulheres negras urgem empoderamento feminino e lutam contra racismo pela música

O amor e a música são universais (ou pelo menos deveriam ser)

O single de estreia do álbum, Das Estrelas , que será lançado no próximo dia 25 já com clipe, irá retratar a violência contra pessoas LGBTTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). Para o videoclipe, Assucena Assucena fala sobre o convite feito para a atriz trans Renata Carvalho - conhecida por interpretar Jesus Cristo na obra teatral "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu" e censurada pela Justiça em Jundiaí e em Salvador. "As pessoas querem enxergar a travesti como um pecado ambulante. A mensagem de Jesus é clara". 

As Bahia e a Cozinha Mineira questionam o amor universal no novo álbum
Reproção/Instagram
As Bahia e a Cozinha Mineira questionam o amor universal no novo álbum


"A gente quis colocar no clipe o tom da nossa luta. A canção questiona a perda do amor pela humanidade, esse retorno ao primeiro estado de empatia de amor. As pessoas não nascem transfóbicas, elas aprendem a ser, então elas precisam ser ensinadas a serem boas. Nosso papel é conscientizar e denunciar", completando ao dizer que não se mata um travesti apenas com a morte, mas sim tirando o direito de ir e vir, de ser um cidadão como outro - e com seus direitos garantidos. 

As Bahia e a Cozinha Mineira durante apresentação
Reprodução/Instagram
As Bahia e a Cozinha Mineira durante apresentação

Já para o músico Rafael Acerbi, o amor, representado no clipe com a história entre uma trans e um homem cis, não é de fato algo universal - mas deveria. "Quando a gente fala de amor, é uma palavra que todo mundo gosta, mas até onde ele é um discurso hipócrita? Falar que o problema da sociedade é amor é falar como não amar. O amor de fato não é universal, é preciso lutar para que ele seja acessível", fala. 

Eu quero é mais! 

Questionados sobre o espaço que grupos e artistas LGBTQ tem conquistado na indústria musical brasileira, ambos os artistas entrevistados ressaltam a ascensão de novos nomes - mas ainda é pouco.

"Somos artistas, temos alcançado um destaque cada vez maior, mas precisa de mais porque a sociedade brasileira ainda é preconceituosa. A arte tem o poder de conscientizar as pessoas, então tomara que venham outros artistas. Eu quero falar se outras coisas, quero falar do vento, do céu, mas ainda não deixam, eu ainda tenho que falar sobre a luta de ser uma pessoa LGBT", ressalta Assucena Assucena. 

As Bahia e a Cozinha Mineira ao lado dos artistas Pabllo Vittar, Matheus Carrilho e Urias
Reprodução/Instagram
As Bahia e a Cozinha Mineira ao lado dos artistas Pabllo Vittar, Matheus Carrilho e Urias

"Olha, eu acho que essa onda de diversidade nos últimos anos chegou com muita força. Ela foi muito fundamental para amadurecer novas discussões pois o nosso País é o que mais mata LGBTs no mundo", diz Rafael, lembrando também de outros artistas como Liniker, Pabllo Vittar e Gloria Groove.

"Eu acho fundamental a chegada desses artistas, deixar de ser objeto de estudo para ser sujeito da sua ação trazendo vizibilidade", conclui. 

Leia também: Projeto fotográfico incentiva negros e transexuais a serem presidentes do Brasil

Para 2019, As Bahias e a Cozinha Mineira estão preparando duas turnês, uma de lançamento do novo álbum e a outra em homenagem a Luiz Melodia, batizada de "No coração do Brasil", trecho da canção Magrelinha. 

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.