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O filme "Deadpool" e a série "House of Cards" são produções que quebram a quarta parede no momento em que o personagem interage com o espectador

Sabe quando o personagem de um filme ou de uma série para tudo o que está fazendo para conversar diretamente com você, que está assistindo? Esse momento se chama a quebra da quarta parede. Essa linguagem vem transformando o cinema e a televisão , promovendo uma ligação direta entre a ficção e o espectador. 

O filme
Reprodução
O filme "Deadpool" é um exemplo da quebra da quarta parede no cinema

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O professor universitário e especialista em cinema Piero Sbragia explicou o conceito da quarta parede e como ela se aplica: "A quarta parede é uma parede imaginária que fica na frente de um palco. Atrás dessa parede imaginária a plateia assiste passiva à ação daquele mundo encenado".

Piero também apontou como a quebra dessa parede imaginária influencia numa ficção: "A quebra da quarta parede ocorre quando uma personagem dirige sua atenção para a plateia, como se estivesse lembrando às pessoas que personagens e ações naquele mundo encenado não são reais. Isso reforça a contação de uma história".

A quebra da quarta parede transformando o cinema

O filme
Reprodução
O filme "O Lobo de Wall Street" também exerce a quebra da quarta parede no decorrer da trama

Um forte exemplo dessa linguagem utilizada nas telonas está em " Deadpool " (2016). O anti-herói deixa de interagir com os outros personagens da trama em determinados momentos para falar com o público, olhando para a câmera. O caso de Deadpool, no entanto, vem desde as HQs, onde o personagem explora a quebra dessa barreira entre ele e o público.

Piero Sbragia apontou a influência da quebra da quarta parede para a trama em geral: "A utilização dessa linguagem acrescenta uma maneira de consumir a arte de forma menos passiva. Derrubar a quarta parede pode, inclusive, reforçar uma visão da audiência mais crítíca e reflexiva. Em "O Lobo de Wall Street", o espectador é convidado a refletir junto com os personagens".

Apesar de trazer essa verdadeira transformação às produções cinematográficas, inserindo cada vez mais o público na própria trama, essa linguagem não é recente. Sequer começou nas telonas, inclusive. "Surgiu bem antes, na Idade Média", apontou o professor Piero.

"Os atores atuavam em uma carroça, e assim podiam se deslocar por cidades, uma espécie de teatro itinerante. A quarta parede era literalmente uma lona lateral que criava uma abertura para visão geral da peça. Já na dramaturgia moderna, a origem está no teatro épico de Bertolt Brecht, que ele desenvolveu para contrastar com a teoria do drama de Constantin Stanislavski", o especialista trouxe à tona.

A quebra da quarta parede na televisão

Reprodução/Globo
"Os Normais", série da Globo que foi ao ar de 2001 a 2003, conhecida por quebrar a quarta parede

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Se a inserção do público em uma trama já é algo muito delicado nas telonas, na televisão é ainda mais. Isso porque as pessoas já estão acostumadas a assistir programas em que o apresentador olha para a câmera o tempo todo. Fazer isso com uma produção ficcional é estar sujeito a uma absorção errônea do público em relação a aquele conteúdo.

Fernanda Young, criadora de
Reprodução/Instagram
Fernanda Young, criadora de "Os Normais"

Fernanda Young, criadora de "Os Normais", a principal produção da TV brasileira a trabalhar com essa linguagem, dissertou: "Metalinguagem é uma coisa perigosa. Se não é usada na medida certa, confunde mais do que ajuda. Precisamos, então, usar essa técnica com parcimônia. Procurávamos identificar na trama os momentos certos para quebrar a quarta parede".

A série "Os Normais", que foi ao ar de 2001 a 2003, girava em torno do casal Rui e Vani, e das loucuras do cotidiano. "A ideia era ter o espectador como cúmplice dos personagens. É preciso que exista identificação com o público. Rui e Vani eram pessoas normais, como os espectadores. Interagindo com o público, o casal se mostrou igual a todos", Fernanda Young apontou.

Uma vez questionada a respeito da eficiência da quebra da quarta parede na aproximação com o público, a escritora e roteirista defendeu: "Às vezes funciona, às vezes não. 'House of Cards', por exemplo, utilizou magistralmente. Outras séries não tiveram a mesma sorte. Pode ter o efeito inverso: distanciar o público da trama, pois exige maturidade do espectador. Implica que ele não leve a trama tão a sério, ao mesmo tempo que continue acreditando nela".

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Fernanda Young dissertou também sobre a necessidade de novas linguagens no que tange o roteiro em si, tanto do cinema quando da TV: "Com a globalização do entretenimento, a competição aumentou. Roteiristas estão tentando inovar para  conseguirem se destacar. O Brasil tem evoluído muito dentro dessa nova teledramaturgia. Aventurar-se em novas linguagens passou a ser um risco necessário, questão de sobrevivência".

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