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"O Beijo no Asfalto", peça de Nelson Rodrigues que já tinha sido adaptada para o cinema por Bruno Barreto em 1981, é a matéria-prima da estreia de Murilo Benício como cineasta. Não tinha me dado conta da ousadia, observa

Murilo Benício não é nenhum estranho ao cinema. São mais de 15 créditos desde 1995, mas 2018 se subscreve como um ano especial em sua relação com a sétima arte. Depois de estrelar e mesmerizar em “O Animal Cordial” , um slasher envolvente, ele lança “O Beijo no Asfalto” , sua primeira experiência como diretor.

Murilo Benício com seus atores durante as gravações de
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Murilo Benício com seus atores durante as gravações de "O Beijo no Asfalto"

Em entrevista ao iG Gente , Murilo Benício diz não se lembrar exatamente o porquê de ter escolhido Nelson Rodrigues e “Beijo” para sua primeira incursão como cineasta, mas faz questão de apontar a “importância” de manter Nelson Rodrigues em evidência e ajudar a preservar esse patrimônio cultural brasileiro. “Tenho a impressão de que a juventude de hoje tem pouco contato com Nelson e fico feliz de poder contribuir para reparar isso”.

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O longa está pronto desde 2017, quando percorreu um distinto circuito de festivais, e será lançado comercialmente na quinta-feira (6) no Brasil. “Fico feliz porque pude me mostrar como diretor”, comemora Benício que enfrentou uma maratona de entrevistas para promover o filme nesta semana.

Murilo Benício em
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Murilo Benício em "O Animal Cordial"

A ousadia de estrear com Nelson Rodrigues não foi algo planejado. “Eu só fui perceber isso depois. Se tivesse me tocado disso antes talvez não fizesse por receio ou algo assim”, teoriza. Ele, todavia, contextualiza que o filme sempre fez sentido para ele como uma “celebração da profissão. Uma homenagem minha aos atores. Ao nosso processo”.

Um processo muito particular

Benício conta que não se sentia como diretor no set. “No máximo quando dizia onde estaria a câmera e o que íamos fazer naquele momento”. Isso porque o roteiro, de sua própria autoria, previa um intercâmbio entre teatro e cinema. Há cenas de bastidores, dos atores discutindo e buscando a compreensão do sentimento do texto de Nelson Rodrigues e a dramatização do texto propriamente dita.

“A preocupação era a todo tempo para que o espectador se sentisse parte da engrenagem de uma montagem”, observa o cineasta sobre suas opções estéticas. “Eu queria ar ao espectador uma sensação de pertencer àquela mesa dos atores, mas como eu faço um bastidor sem ter que parar de contar a história?”

Adentrar esse universo rodriguiano foi algo estimulante para Benício. “Não é todo ano que temos um Nelson Rodrigues no cinema e ainda que geniais, suas ideias são muito acessíveis”, exalta o diretor que revela não gostar de ensaiar e preferir estudar o texto para “extrair o melhor dele”.

Arandir natural

Lázaro Ramos em cena de
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Lázaro Ramos em cena de "O Beijo no Asfalto"

Obviamente um projeto como “O Beijo no Asfalto” que marca a estreia na direção de Murilo Benício é capaz de atrair um grande elenco e Benício se mostra muito feliz por contar com atores da estirpe de Fernanda Montenegro, Stênio Garcia, Lázaro Ramos e Débora Fallabela, sua mulher.

“Desde os tempos que eu fiz ‘O Clone’, o Stênio é um cara que me impressiona pela vontade que tem de fazer diferente”, observa Benício sobre o ator. Ele diz que foi montando o elenco aos poucos e que seu protagonista surgiu naturalmente. “O Lázaro tinha feito uma novela comigo e tem características muito interessantes. Uma generosidade, uma gentileza... ele foi um Arandir natural”.

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Fernanda Montenegro e Débora Falabella: participações ilustres e afetivas na estreia de Murilo Benício como diretor de cinema
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Fernanda Montenegro e Débora Falabella: participações ilustres e afetivas na estreia de Murilo Benício como diretor de cinema

Arandir atende ao pedido de um beijo na boca feito por outro homem prestes a morrer ao ser atropelado na Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro. Esse gesto banal gera uma sucessão de escândalos com reverberações na mídia, na polícia e na própria família do protagonista.

Filmado em belíssimo preto e branco, cortesia do craque Walter Carvalho, e turvando as linhas da ficção com uma finesse de veterano, “O Beijo no Asfalto” coroa um ano e tanto para Murilo Benício , que já pensa no futuro. A despeito do 2018 cheio de bons momentos, ele já finaliza seu segundo longa como diretor (“Pérola”) e não esconde a ansiedade: “Meu sonho é lançar no Dia das Mães”.

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