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Filme, que foi construído ao longo de dez anos e ganhou a pecha de "Boyhood brasileiro", estreia nesta quinta-feira (26) nos cinemas; leia a crítica

Um curta premiado no festival de Cannes de 2006 é o ponto de partida de “Alguma Coisa Assim”, longa-metragem de Esmir Filho e Mariana Bastos, que se incumbe de radiografar os ecos, anseios e angústias de uma geração que está na casa dos 30 anos sem conquistas e com muita insegurança.

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Cena de Alguma Coisa Assim, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (26)
Divulgação
Cena de Alguma Coisa Assim, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (26)

“Alguma Coisa Assim” acompanha os encontros e desencontros de Caio (André Antunes) e Mari (Carol Abras) ao longo de dez anos. Há cenas gravadas em 2006, outras em 2013, na cidade de São Paulo, e a maior parte em 2016, em Berlim na Alemanha.

A ideia de que este é o “Boyhood brasileiro”, como está sendo ventilado por parte da crítica não é exagerada. Aqui, como no filme de Richard Linklater, o amadurecimento está no foco da dramaturgia, mas no filme indicado a cinco Oscars há mais refinamento e desenvolvimento. O que pode ser atribuído ao planejamento. No caso do longa brasileiro, a temporalidade surge improvisada.

Cena de Alguma Coisa Assim
Divulgação
Cena de Alguma Coisa Assim

Um improviso bom, acentue-se. É um filme de sala de edição. Com as filmagens em Berlim, Filho e Bastos ressignificam muito do material que já tinham do curta e apresentam um filme vivo, que se alimenta de suas imperfeições e se fia como um retrato agudo da ação do tempo sobre as certezas, as expectativas, mas também sobre o espaço urbano e as relações afetivas.

Mari gosta de Caio, mas não sabe exatamente como lidar com isso. Até porque o garoto não sabe ao certo se gosta de meninas. Quando se reencontram em 2013, ele está para casar com um homem e novamente isso mexe muito com o emocional de Mari que se projeta como alguém avessa aos rótulos.

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Ela parte para Berlim e vai viver em casas que precisa decorar. De casa em casa, ela tenta se convencer de que aquela é a vida que queria viver. Caio vai atrás dela após o fim do casamento com o pretexto de trabalhar na sua pesquisa sobre fertilidade. Esse reencontro mexe com o eixo gravitacional de Mari novamente e a fluência de perspectivas nessa fase do filme em Berlim é providencial para que os personagens se revelem contraditórios e inteiros para o público.

O olhar romântico de "Alguma Coisa Assim"

Carol Abras é uma força da natureza em Alguma Coisa Assim
Divulgação
Carol Abras é uma força da natureza em Alguma Coisa Assim

A maneira como os dois personagens mentem para si mesmos e para o outro dá ao longa uma força crepuscular. Os conflitos que surgem nessa vibração, como aborto e novas formas de família, acabam por diminuir o foco nos bons personagens. Ainda assim, Filho e Bastos conseguem produzir algo reflexivo e fora da curva.

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“Alguma Coisa Assim” é romântico no olhar que dispensa para a mutabilidade das relações e convenções, mas pessimista com o rumo de seus personagens, fadados a dar murro em ponta de faca em busca de alguma noção de felicidade .

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