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Passados 50 anos após os eventos na França e ao redor do mundo, de que forma as movimentações insurgidas naquele contexto reverberam hoje?

As manifestações de Maio de 68 na França tornaram-se um marco icônico na história da humanidade. Ainda que a efervescência política e social francesa tenha se tornado grande referência sobre aquela época, os movimentos estudantis na realidade foram presentes e assertivos por todo o mundo.

Grafite com os dizeres
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Grafite com os dizeres "é proibido proibir", um dos slogans das manifestações de Maio de 68 na França

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Além das barricadas francesas de Maio de 68 , a época foi marcada pelo movimento de contracultura nos Estados Unidos, a Primavera de Praga na República Tcheca, o Massacre de Tlatelolco no México, a Passeata dos Cem Mil no Brasil e até mesmo no oriente, com protestos japoneses.

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“Não se trata de negar historicamente o maio de francês, isso foi de importância muito grande para o Brasil e o para o mundo, mesmo que não possamos torna-lo como um modelo exclusivo”, comenta o historiador Diorge Alceno Konrad. Para ele, tanto a juventude quanto a classe operária vinha naquela época criticando a massificação do consumo que estava em voga.

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"68: Como Incendiar um País"

50 anos mais tarde, o momento histórico ainda rouba os holofotes e é tema de debates e produções culturais, como fizeram Erick Corrêa e Maria Teresa Mhereb, autores do recém-lançado livro “68: Como incendiar um país”. Trazendo 256 páginas com imagens gráficas que remetem àquela época, a obra expõe como a arte era uma das grandes ferramentas daquele momento.

“Nossa motivação [para realizar a obra] é uma paixão comum pela literatura, pela arte e pela política revolucionária moderna. 68 foi uma revolução social derrotada, daí a necessidade de se extrair lições daquela experiência, que poderão ser úteis às novas tentativas de revolução social”, comentam os autores.

Segundo eles, relembrar os acontecimentos após cinco décadas por meio da literatura é uma forma de participar da disputa pela memória histórica da revolução. “As revoluções de 1968 representam um acontecimento de dimensão mundial, reconhecido pela historiografia contemporânea como um dos pontos de inflexão mais decisivos da história moderna, como as revoluções de 1789, 1848 ou 1917”, explicam.

No âmbito cultural, o historiador Konrad afirma: “Quando falamos de cultura, relacionamos a cultura política, cultura da classe trabalhadora e da juventude. É inegável que essa noção mais ampla de cultura não se desprende só a cultura de cinema, teatro. A cultura então obviamente atravessa as práticas sociais e vai ter reflexos inclusive na parte mais estrita que é as artes”.

Reflexos culturais

O livro “68: Como incendiar um país” traz um apanhado de produções artísticas daquela época. Segundo os autores, “a difusão e o impacto dos cartazes e panfletos políticos produzidos em 68 na França são semelhantes ao que ocorreu na União Soviética. E, em ambos os casos, eles são parte do imaginário ainda vivo sobre esses eventos”.

Para eles, há dois aspectos bastante originais da produção naquele momento. “O primeiro diz respeito ao fato de que, em 68, a tática de propaganda extrapolou o cartaz e o panfleto político”. Os escritores recordam o chamado desvio dos quadrinhos, um método que consistia na “apropriação de quadrinhos veiculados como objetos dos textos nos balões: falas ordinárias de heróis e vilões eram substituídas por diálogos políticos”.

Já o segundo é de que todas essas produções consistiam em produtos coletivos, com todo o processo de manufatura e impressão feitos coletivamente. “Portanto, a produção gráfica dos grupos mais radicais de 68 não só invadiu e ocupou o cotidiano daqueles dias com sua rebeldia e criatividade, como foi também notavelmente coerente com sua perspectiva teórica revolucionária e continua a ser uma fonte de inspiração para o presente”, explicam.

O Festival de Woodstock, em 1969, também foi um marco emblemático da contracultura
Divulgação
O Festival de Woodstock, em 1969, também foi um marco emblemático da contracultura

Em artigo publicado na Revista Margem Esquerda, da editora Boitempo, a professora Maria Lygia Quartim de Moraes relembra as manifestações ao redor do mundo. Pondo luz nos Estados Unidos, onde o movimento de contracultura se fez bastante presente, a autora expõe o comportamento da juventude e a sua cultura na época.

“Ser hippie, naquele preciso contexto, não era, portanto, questão de modismo, mas de comprometimento com uma vida alternativa que buscava mudanças sociais estruturais, com a negação das distinções de sexo, classe, orientação sexual, etnia etc”, escreve.

O reflexo, entretanto, se via muito presente em outros âmbitos da vida em sociedade, como a autora revela durante o seu texto. “Não se pode reduzir os anos 1960 aos movimentos estudantis e às bandeiras libertárias, deixando de lado os experimentos artísticos, a revolução do rock’n’roll, os festivais de música e o grupo Arena de teatro em São Paulo”, escreve.

“Eventos como o festival inglês em Woodstock, o novo romance francês, o Cinema Novo e a emergência de um grupo de artistas que partiam das questões de gênero, especialmente dos usos do corpo feminino e da escravidão doméstica”, completa a professora.

No âmbito brasileiro, por sua vez, Quartim resgata publicação de Celso Frederico para explicar a efervescência artística que o país vivia diante do golpe militar de 1964. De acordo com o pesquisador, essa ebulição foi “expressada no cinema novo, na bossa nova, nos Centros Populares de Cultura, desdobrou-se, após o golpe, num amplo movimento de resistência cultural contra os novos governantes, a censura e o chamado ‘terrorismo cultural’”.

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O depois de Maio de 68

Se a experimentação artística se fazia presente naquele momento histórico – seja na França ou ao redor do globo terrestre – consequências desses atos ousados dos estudantes e operários também reverberou para as gerações posteriores.

“A militância política das mulheres na luta armada implicava um rompimento radical com o padrão da moça bem-comportada, virgem, futura mãe de família. O moralismo imperante fazia com que a sexualidade também fosse colocada sob suspeição”, escreve Quartim.

Passeata pelos direitos das mulheres em 1970 em Washington, capital dos Estados Unidos
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Passeata pelos direitos das mulheres em 1970 em Washington, capital dos Estados Unidos

Para os escritores Erick Corrêa e Maria Teresa Mhereb, os chamados “novos movimentos sociais”, que englobam o feminista, LGBT, direito à cidade, antimanicomial, por exemplo, não poderia ter ocorrido sem a abertura cultural provocada por 1968. “A experiência revolucionária do 68 francês mostrou que a revolução política, onde quer que ela venha a acontecer, deve ser acompanhada pela revolução de todos os aspectos da vida ou não será nada”, opinam.

Entretanto, apesar do conceito progressista que o momento político reverbera, Konrad alerta: “tínhamos visões criticas naquele momento que os estudantes poderiam estar embarcando numa visão aparentemente crítica, mas que no fundo ele reproduzia o próprio sistema”.

Segundo o historiador, o desenvolvimento do neoliberalismo traz também rearticulações sociais e novas lutas políticas tendo capacidade de transformar crítica em consumo. “Essa é talvez a grande crítica possível que podemos fazer sob a perspectiva de uma história ampla que foi negada naquele momento em que o movimento não compreendia bem a si mesmo”

Para ele, os movimentos naquela época ao mesmo tempo em que possui o seu caráter revolucionário, também foram “deglutidos pelo sistema para se transformar em marca também da própria sociedade de espetáculo”.

Seja pela memória nostálgica, pelas aberturas que o Maio de 68 causou na cultura e no comportamento social em diversas partes do mundo, ou pelos ideais revolucionários, o momento histórico se faz mais vivo do que nunca após cinco décadas, aberto para ser destrinchado.

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