As experimentações musicais que ganharam notoriedade em 1967 tiveram um tempo curto de vida, mas seu legado permanece vivo até os dias de hoje

No final dos anos 1960, os festivais de música popular brasileira estavam a todo vapor. Disparada de Jair Rodrigues dividia o topo do pódio com A Banda , canção de Chico Buarque interpretada pelo cantor e por Nara Leão. Edu Lobo ganhava notoriedade com Ponteio , Elis Regina emergia como uma das cantoras mais importantes da MPB, a ditadura militar se endurecia e, paralelamente a todo esse cenário, alguns jovens questionavam o fazer música brasileira. Foi nesse contexto que em 1967 o som de  Gilberto Gil e Caetano Veloso  em Domingo no ParqueAlegria, Alegria , respectivamente, surgiram na televisão, apresentando um momento que, apesar de breve, reverberou na história brasileira: a tropicália.

Ícones da Tropicália, Gilberto Gil e Caetano Veloso cantam em festival de música em 1967
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Ícones da Tropicália, Gilberto Gil e Caetano Veloso cantam em festival de música em 1967


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“Logo no começo, em 1968, a tropicália surgiu como uma ideia de movimento porque a própria imprensa começou a costurar as manifestações que aconteciam de forma dispersa: no cinema, nas artes visuais, na música, no próprio jornalismo da época, com a coluna do Nelson Motta”, comenta o historiador Frederico Coelho em entrevista ao iG . “Mas aquilo nunca foi reivindicado para além da música como um movimento cultural”, completa o pesquisador. Na época, aquelas experimentações que a principio pareciam estranhas não agradava outros músicos e foi alvo de diversas críticas. “Eles começaram a dialogar nas suas composições tanto com uma ideia de tradição musical brasileira, seja pela música nordestina, seja pela tradição da radio nacional. E buscam dialogar com o que tinha de mais atual e quente que era o rock psicodélico como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Stevie Wonder. E é óbvio que a presença dos Beatles também foi fundamental na formação desses artistas”, completa o historiador.

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Com a intenção de propor um novo olhar para a música brasileira em um contexto que os ritmos nacionais eram enaltecidos e influências estrangeiras, como as guitarras elétricas, rejeitadas, Gilberto Gil, um dos precursores da tropicália, chegou até mesmo a buscar reunir músicos de sua geração com a ideia de fazer uma virada musical. A rejeição desse projeto, entretanto, foi unanime em alguns segmentos musicais, como os ícones do MPB Edu Lobo e Elis Regina. Entretanto, esse desprezo não foi o suficiente para que essas experimentações deixassem de fazer sua própria história na cultura brasileira.

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"Panis Et Circenses" reuniu os maiores tropicalistas daquele momento musical

“A tropicália foi revolucionária tanto no sentido estético quanto político. No ponto de vista estético ela brilha na visão do conceito que temos de arte, incorporando na arte um conjunto de linguagens que são bem contemporâneos. É incrível que mesmo anos depois ainda estejamos discutindo questões de gêneros no campo de moda, por exemplo, porque ali, eles foram muito inovadores”, comenta Armando Almeida, doutor em Cultura e Sociedade. Resgatando a ideia de antropofagia, para o pesquisador, o momento tinha total ligação com os movimentos de contracultura que ocorriam simultaneamente em outros países. Em seu artigo intitulado “Tropicália, contracultura e indústria cultural”, Almeida defende que “a tropicália, além das questões estéticas, mais próximas aos conceitos de beleza artística e literária, foi a mais completa tradução da contracultura entre nós. Não foi a única, mas foi a mais significativa. Principalmente porque revolucionou a cultura brasileira, mobilizando grandes massas”.

Para o músico Pedro Keiner, que atualmente participa de projetos como o bloco de carnaval “Filhos de Gil”, além da banda GOLÖNKA, cujo repertório é influenciado diretamente pelos ícones da tropicália e ritmos da contemporaneidade musical baiana, a introdução do livro de Caetano Veloso, “Verdade Tropical”, traz à tona uma realidade sobre o momento tropicalista. “Aquela ideia de que os Estados Unidos é um país sem nome e o Brasil é um nome sem país é algo muito interessante. Porque o Brasil é reinventado a cada geração. Nós não temos noção de tantos contrastes que existe no País e nunca tivemos um projeto social que fosse capaz de contemplar o nosso tamanho gigantesco”, comenta Keiner. “Eu acredito que a tropicália é uma tentativa, em alguns sentidos até um pouco agressivo, de encontrar isso, propor soluções para esse cenário”, completa o artista.

 Influência musical                                                                                     

A importância da tropicália para a música brasileira se faz, portanto, presente mesmo 50 anos depois de a proposta ter emergido no universo da música. Para Almeida, o momento tropicalista até hoje é incompreendido por diversas pessoas que não enxergam a sua dimensão cultural. “Por incrível que pareça, somos menos conservadores que antes e o tropicalismo tem um peso nesse processo”, opina.

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O cenário musical brasileiro, para Keiner, por sua vez, deve muito ao tropicalismo. “Eu concordo com a máxima da tropicália que a pureza é um mito. Quando comecei a estudar música vi que pessoas sentiam uma discriminação entre gêneros, como o funk carioca por exemplo, que hoje eu acredito ser uma questão classicista e racista da nossa sociedade. Acho que os gêneros musicais podem sim permear e coabitar um mesmo espaço artístico gerando resultados interessantes”, comenta. “A arte na verdade não tem muitas amarras”, opina o músico.

Para o jovem, a insatisfação com a geração anterior sempre é um dos combustíveis para que se quebre paradigmas até então colocados no presente. “A questão subversiva da tropicália inclusive politico é uma questão comportamental, de compreender que certos elementos que não seriam possíveis de serem colocados juntos formam produtos interessantes” opina. Para ele, o teor subversivo da música ainda está vivo na cultura brasileira, mas com outra característica. “Karol Conka, por exemplo, é uma artista subversiva no âmbito comportamental já que ela gera uma auto afirmação de uma população gigante que nunca foi dada a voz nos veículos”, comenta.

Frederico ressalta que a celebração dos 50 anos da Tropicália, entretanto, não foi uma questão a ser comentada pelos seus ícones, Caetano Veloso e Gilberto Gil. “Eles não fizeram questão de elucidar o momento como uma permanência de um projeto. Isso mostra um pouco que a tropicália permanece mais para quem cultiva que para quem promoveu esse evento”, opina. “Mas na memória, ela possui dois legados conflituosos: o do censo comum, voltado para o mercado, a publicidade, a ideia de que esse tropicalismo é explosão de alegria e cores e momento de grande experimentação e o outro legado, de perceber a possibilidade da canção popular como um espaço de crítica aguda a sociedade” completa o historiador.

Segundo Coelho, a novidade da tropicália naquela época foi trazer temáticas que estão centradas nos centros urbanos, diferentemente das músicas de protesto que tocavam nas rádios, cujo eixo temático era voltado para o ambiente rural. “Se hoje em dia temos situações em que a homossexualidade está ligada a uma doença, se há perseguição do ponto de vista de gênero sexual e permanência do racismo, podemos observar a Tropicália de 50 anos atrás como um discurso que ainda tem força como pensamento crítico à sociedade brasileira e se perpetuarmos esse legado, então é maravilhoso”, completa.

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