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Novo filme do cineasta, que estreia no dia 22 de fevereiro, agrega valor a uma filmografia cheia de ótimos registros calcados em bons personagens. Veja featurette exclusivo com depoimento do diretor sobre o longa-metragem

Existem cineastas que constroem sua filmografia em torno de algumas questões. Quentin Tarantino elege a violência como matiz de seu cinema, reverente tanto aos westerns americanos como ao cinema asiático; Martin Scorsese versa sobre os códigos vigentes nas ruas em um mundo habitado por gangsteres. Oliver Stone tem na inquietação política a grande verve de seu cinema. Alexander Payne, um dos cineastas mais brilhantes e eloquentes da contemporaneidade, revela o extraordinário que habita no medíocre. Seu cinema não apresenta, na superfície, um tema central que não o desenho apurado de personagens e a burilação sutil e inteligente de seus conflitos.

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Alexander Payne bate um papo com Matt Damon no set de
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Alexander Payne bate um papo com Matt Damon no set de "Pequena Grande Vida", que estreia no dia 22 de fevereiro no Brasil

O novo filme de Alexander Payne , “Pequena Grande Vida”, estreia no Brasil na próxima quinta-feira (22). A produção integrou a competição do Festival de Veneza em 2017 e faz parte do esforço da Paramount Pictures de contemplar um cinema mais adulto e que fuja do perfil de blockbusters que vem dominando os multiplexes. No filme, Matt Damon faz um sujeito pressionado financeiramente que decide junto a sua esposa passar pelo processo de encolhimento – o tal do Downsizing do título original -, uma revolução científica proporcionada pelos esforços ecoambientais desenvolvimentistas.

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A questão ambiental, claro, é um ponto bem urdido no filme, mas Payne se interessa mais pelos personagens. A nova realidade obriga o personagem de Damon a se adaptar, mas representa também uma oportunidade para evoluir como ser humano e aí reside a chave do cinema de Payne. Aqui, como em “Nebraska” (2013), “Os descendentes” (2011) e “Sideways – Entre Umas e Outras” (2004), todas produções indicadas ao Oscars de filme, direção e roteiro, Payne submete seus personagens a experiências transformadoras.

Veja um featurette exclusivo do filme


Tanto em “Nebraska” como em “Sideways”, uma viagem se mostra desestabilizadora de sentidos e convicções. Já em “Os Descendentes”, trata-se da descoberta pelo protagonista – um George Clooney inspirado – de que a mulher o traía no momento em que ela entra em coma. Além de lidar com essa erupção de sentimentos – e com os filhos - ele precisa administrar interesses envolvidos na venda de uma grande propriedade que pertence a sua numerosa família.

Em “Nebraska”, Payne desbrava a América profunda e retorna ao Estado em que nasceu. Eis um road movie cheio de sutilezas – uma delas é a relação entre pai e filho. É uma produção mais ambiciosa no sentido de que expõe seus personagens, com afeto e desprendimento, mas também revela uma América endurecida e extenuada.

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Ao lado de George Clooney no set de
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Ao lado de George Clooney no set de "Os Descendentes" (2011)

“Ruth em Questão” (1996) e “Eleição” (1999) são dois de seus primeiros filmes, comédias dotadas de estranheza, mas de um agudo comentário moral. Em 2002 dirigiu Jack Nicholson em um dos filmes protagonizados pelo ator na primeira década do século que mais crescem de tamanho à medida que o tempo passa.  Em "As Confissões de Schmidt", novamente um homem perdido em si passa por experiências aparentemente banais, mas que comportam grande potencial transformador.

Alexander Payne é um cineasta do detalhe. Ele ostenta uma rara habilidade para desenhar bem seus personagens. Não à toa atrai atores do primeiro escalão para seus papéis. Seus filmes têm sempre atuações indicadas a prêmios, não que esses sejam indicativos de qualidade, mas não se consegue frequentá-los com tamanha assiduidade sem bons predicados.

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