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Comparada a "Black Mirror", antologia da Amazon se concentra na experiência humana mais do que em nossa relação com a tecnologia e se preocupa menos em tecer comentários políticos a respeito de nosso tempo

Inspirada em um punhado de contos de Philip K. Dick , escritor devassado pelo cinema e responsável pelas obras que inspiraram filmes como “Blade Runner” (1982) e “Minority Report – A Nova Lei” (2002), “Philip K. Dick´s Electric Dreams”, antologia da Amazon Prime Video em parceria com a britânica Channel 4, tem sido alvo de comparações com “Black Mirror”.

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Cena do episódio
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Cena do episódio "Impossible Planet", um dos melhores e mais ressonantes da 1ª temporada de Electric Dreams

Para além da origem no mesmo canal britânico e do formato antológico, ambas as séries focam na experiência humana no futuro, mas enquanto “Black Mirror” é mais circunscrita à nossa relação com a tecnologia, de seu potencial transformador e perverso, “Electric Dreams” se fia mais sobre a experiência humana propriamente dita.

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Outra diferença dá conta do fato da antologia da Amazon ser mais viajada no sentido de espelhar mundos essencialmente diversos do nosso, mergulhando mais proeminentemente na ficção científica. Há eventualmente certo comentário político, como nos episódios “Autofac”, sobre uma Terra devastada pela guerra nuclear, mas cujas fábricas continuam operantes, e “Safe and Sound”, sobre uma comunidade que rastreia seus jovens para substanciar uma propaganda antiterrorista, mas o foco está sempre nos vínculos humanos.

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"Real Life": A noção de realidade, de culpa e fantasias se misturam no excelente episódio

Se esse universo heterogêneo torna “Electric Dreams” mais abrangente, a torna também mais irregular. Há episódios insatisfatórios e outros realmente ruins, mas o todo salva-se por aqueles que são realmente geniais, contemplativos e altamente reflexivos, como “Real Life”, estrelado por Anna Paquin e Terrence Howard. Enquanto lida com um grande trauma, uma policial (vivida por Paquin) decide excursionar em um mundo de realidade virtual. Nesse outro universo, ela é um homem, George (Terrence Howard), que também lida com uma perda. Os limites entre o que é real e o que é simulação ficam cada vez mais borrados. Baseado no conto “Exhibit Piece”, de 1954, o episódio é um suspense muitíssimo bem elaborado, com pistas difusas e um final que ascende um debate valiosíssimo sobre como lidamos com a culpa, os efeitos da emergente realidade virtual, entre outras coisas.

Outro excelente episódio é “Human is”, estrelado por Bryan Cranston , um dos produtores da série. Cranston faz um militar de alta patente em um planeta Terra dependente de recursos de planetas vizinhos. Ele é um marido abusador. Depois de uma missão em outro planeta, a esposa desconfia de que seu marido foi trocado por um alienígena. Há mais uma cota de boas inflexões ensejadas pelo episódio.

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Bryan Cranston em um dos melhores episódios de Electric Dreams
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Bryan Cranston em um dos melhores episódios de Electric Dreams

Além do elenco gabaritado, outros bons nomes são Greg Kinnear, Juno Temple, Janelle Monàe, Steve Buscemi, Richard Madden, Maura Tierney, Geraldine Chaplin e Vera Farmiga, “Electric Dreams” se alimenta do bom momento vivido por séries do formato. A era de ouro das antologias por seu turno, encontra na série da Amazon um esteio de criatividade, energia e qualidade. Tecnicamente todos os episódios são irrepreensíveis. Nenhum, porém, atinge os elevados decibéis dramáticos de “Impossible Planet”, em que em um futuro em que a Terra não mais existe e todo o universo e seus sistemas solares são mapeados, dois guias turísticos conduzem uma senhora de mais de 300 anos para ver seu planeta de origem, a Terra. Poesia, dor, solidariedade, amor e plenitude se conjugam em um episódio que encontra um jeito inusitado de falar ao coração.

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